Páscoa- Cristo e os Apóstolos

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

TERCEIRO DIÁLOGO: OS APÓSTOLOS NO CENÁCULO

(Lucas 24,36-49 e João 20,19-23)

 

Do medo à esperança

 

D 1.-  No nosso último diálogo, deixávamos os discípulos de Emaús reunidos com os Apóstolos e as santas mulheres no Cenáculo, e comentando-lhes o encontro com Cristo que acabavam de ter. Os Apóstolos (todos, menos Judas, já morto, e Tomé, que andava ausente), e mais alguns discípulos – mulheres e homens -, acolheram-nos agitados, alegres e, paradoxalmente, ainda perplexos. Já eram vários os que falavam de que Cristo vivia – Ressuscitou, diziam, e apareceu a Simão!  Começava a despontar a esperança, ainda que o sentimento dominante da maioria ainda fosse o medo. 

D 3.- São João, falando desse fim de tarde do Domingo da Páscoa, começa por dizer que, ao anoitecer do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Esta é a primeira coisa que comenta, para nos situar no ambiente: estavam trancados no Cenáculo, naquele quarto de cima onde Jesus instituiu a Eucaristia, porque tinham medo: temiam que os que tinham acabado com Jesus quisessem acabar com eles.

D 2.- Quem não teria medo de sofrer, de ser preso, torturado e morto?

D 3.- É natural. Nós sentiríamos a mesma coisa. Mas penso que, por mais que compreendamos e desculpemos os discípulos, não devemos esquecer que esse medo surgiu e cresceu dentro de um “vácuo de esperança” que não deveria ter existido, e que – por isso – desagradou a Deus.

Se não fosse assim, Jesus teria sido injusto ao recriminar, primeiro aos de Emaús e depois a todos eles, o fato de terem sido lentos em crer no que Ele próprio lhes disse pelo menos três vezes: que era necessário que o Filho do Homem padecesse muitas coisas… Era necessário que fosse  levado à morte e que ressuscitasse ao terceiro dia. A mesma coisa haviam anunciado os antigos Profetas. Ou seja que, nas raízes desse medo, não deixava de haver uma certa culpa…

D 1.- Continuemos com a cena evangélica, pois há bastante coisa para meditar…

D 3.- São Lucas diz que, enquanto os de Emaús ainda falavam – com as portas bem trancadas –, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. Perturbados e atemorizados [vejam que o medo continua], pensaram estar vendo um espírito [tão longe estavam de crer na Ressurreição]. Mas Ele  disse-lhes: “Por que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas nos vossos corações?”… 

D 2.- Os pobres Apóstolos ficaram atordoados pela surpresa de ver Jesus no meio deles… Era algo tão fantástico, que lhes parecia impossível, e tremiam de medo de que não fosse verdade, que fosse um sonho…

D 1.- Por isso, Jesus, cheio de carinho e de compaixão por aquelas crianças-grandes, meio perdidas, deu-lhes provas “arrasadoras” de qualquer dúvida, para que vissem que tudo era verdade: “Por que surgem – disse-lhes – tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Apalpai e vede, que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho”. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.

D 4.- E eles, vendo-o, tiveram uma reação muito humana! Foi como a da mãe que recupera o filho que julgava perdido, e, de tão feliz, nem consegue dizer nada; custa-lhe acostumar-se a uma alegria tão grande!

Diz o Evangelho: E, como, na sua alegria, não queriam acreditar, de tão  assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: “Tendes aí alguma coisa que se coma?” Então, ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles.  Não acham fantástica esta cena? Cristo glorioso comendo um pedaço de peixe assado! (Deveria escrever-se um poema dedicado a este peixe). Não há aqui uma ponta daquele humor maravilhoso de que falávamos nos diálogos anteriores? Até parece que vemos Jesus sorrir, com “malícia” divina, enquanto apanha o peixe, e o morde dos dois lados, e deixa a espinha no prato. Como Jesus é humano! E como é divino, na grandeza do seu Amor!

 

D 1.- E como é bom este momento para aprofundarmos ainda mais no tema de hoje: o medo e a esperança. Vocês sabem, com certeza, que Jesus falou várias vezes aos Apóstolos sobre o medo. Vamos lembrar-nos de algumas dessas passagens…

D 3.- Penso que a mais interessante é aquela em que Jesus deu aos Apóstolos uma lição claríssima, para que aprendessem a “temer” direito, a temer bem, coisa que não é nada fácil. Porque se pode ter um medo bom ou um medo mau, um medo certo ou um medo errado. Essa lição, deu-a Jesus certa vez em que estava falando da Providência de Deus Pai. Explicou-lhes, então, com carinho:  Digo-vos a vós, meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disso nada mais podem fazer. Eu vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem o poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a este. 

D 2.- E, a seguir, os tranquilizou, dando-lhes a certeza de que podiam esperar tudo da bondade de Deus, de tal modo que a esperança vencesse sempre o temor: Não se vendem cinco pardais por dois vinténs? E, entretanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois. Vós  valeis mais do que muitos pássaros. 

D 3.- É importante não perder de vista os “dois medos” de que fala Jesus. Há uma coisa comum a todos os medos e consiste no receio de perder algo que amamos. Santo Tomás de Aquino, com muita acuidade, diz que “todo o temor nasce do amor”. E Santo Agostinho, mais poético, diz que o medo é “o amor em fuga” (o amor que quer fugir daquilo que lhe pode roubar o seu bem, ou seja, aquilo que ama). Assim, quem ama o dinheiro e acha que é o maior bem da sua vida,  tem pavor de perder o dinheiro. Quem ama muito a esposa ou o marido e os filhos  – seu maior bem na terra -, treme de medo de perdê-los. E quem ama a Deus sobre todas as coisas teme mais do que tudo perdê-lo eternamente ( é o chamado santo temor de Deus).

D 4.- Os nossos medos são, realmente, a sombra dos nossos amores. Se eu descubro o que é que mais temo perder, perceberei o que  mais amo na vida. Isto faz-me lembrar aquele encantador braço-de-ferro entre São Luís, rei da França, e o chefe do seu exército, Joinville, senescal da Champagne, contado por este último na sua biografia sobre o santo rei. São Luis disse certa vez a Joinville que preferia cem vezes mais ficar leproso a cometer um só pecado mortal. Joinville, muito franco e rude, retrucou dizendo que preferia cometer cem pecados mortais antes que ficar leproso. E São Luis ficou tão aflito que não dormiu e, no dia seguinte, chamou Joinville e, muito mansamente, lhe fez ver que a lepra acaba quando morre o corpo, mas que o pecado mortal pode acompanhar a alma no inferno por toda a eternidade.

D 1.- E é neste sentido que Jesus nos diz que não temamos o que nos pode fazer perder os bens efêmeros, e, pelo contrário, temamos o que nos pode fazer perder os bens eternos.

D 3.- Normalmente, nós fazemos o contrário. Horroriza-nos perder a saúde corporal, mas não nos horroriza perder a saúde espiritual   (o pecado mortal, que tanto preocupava São Luís da França). Os pais, com frequência, fazem como Joinville; pensam que, para o filho, é mil vezes pior o risco de não entrar na faculdade do que o risco de não entrar no Céu. Por isso, acham importantíssimo que estudem horas e horas, mas não ligam se os filhos não dedicam a Deus sequer a hora semanal da Missa, e não se confessam nem uma vez por ano.

D 1.- E, no entanto, os bens efêmeros sempre nos deixam o coração angustiado, porque, mesmo quando parecem mais seguros, inquieta-nos o medo de perdê-los. Porque todos eles são bens que mudam ou podem mudar (por exemplo, a fortuna ou a amizade), que morrem ou podem morrer (amigos, parentes, nós mesmos), que enganam ou podem enganar (qualquer ser humano, pecador como nós, pode iludir-nos), que frustram ou podem frustrar (como muito sonhos conquistados que depois nos decepcionam)… É loucura pôr neles todas as esperanças da vida!

D 4.- A doença, o desemprego, a falência, a perseguição, a morte…, todas as “contrariedades” e “desgraças” podem roubar-nos esses bens efêmeros. Mas  ninguém –a não ser nós mesmos – pode roubar-nos  os bens eternos, se procuramos viver no amor de Deus. Quem nos separará do amor de Cristo? – dizia São Paulo, num santo desafio. – A tribulação? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada? […] Mas, em todas essas coisas somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou. Só nos pode separar o nosso pecado!

D 1.- Vamos pensar um pouco mais, e veremos que a verdadeira esperança é mais fantástica ainda do que consideramos até agora. Vejamos: quais são os bens eternos?

D 3.- A rigor, a Vida eterna, o Céu, que é a visão e a posse amorosa de Deus – supremo Bem e soma de todos os bens – para sempre. São também as coisas que nos santificam e nos encaminham para o Céu, como as virtudes, a oração, as Confissões e Comunhões bem feitas, os sacrifícios e penitências oferecidos a Deus com devoção e amor…  Mas…

D 1.- Sim, há mesmo um “mas”… Continue, por favor.

D 3.- Mas, se ficássemos só nisso, não entenderíamos bem o que Cristo nos ensinou. Acho muito esclarecedoras as seguintes palavras de Jesus: Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça corroem, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem, e os ladrões não furam nem roubam.Cristo fala-nos de ir juntando nesta terra, ao longo da vida, muitos tesouros no céu, que jamais nos serão roubados. E, quais são esses tesouros? Todos os nossos pensamentos, palavras, ações, iniciativas, empreendimentos, trabalhos, divertimentos, conversas, alegrias, etc, etc, que – praticados em estado de graça – estiverem de acordo com a vontade de Deus, e forem marcados pela retidão e, sobretudo, pelo amor a Deus e ao próximo.  Lembram-se do copo d’água?

D 4.- Sim, aquilo que Jesus dizia:  Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa. Quer dizer que tudo o que  for bom e reto, tudo o que não for egoísta, por pequeno que seja, se é vivido com amor (a Deus e aos outros) passa a ser um bem eterno, que a morte não poderá roubar.

D 3.- É mesmo. Pensemos bem: se vivêssemos assim, que medo poderíamos ter? Eu acho inevitável termos o medo psicológico instintivo (pura reação emocional), que nos acomete diante de um perigo, um assalto, uma doença grave, uma incerteza… Mas o cristão pode superar tudo isso graças à virtude da esperança, coisa que o pagão não pode fazer. Pode superar, porque a esperança cristã (virtude teologal) nos garante, com absoluta certeza, duas coisas. Primeira, que Deus é tão bom que – como diz São Paulo – faz concorrer tudo para o bem daqueles que o amam. Segunda: que, se lhe formos fiéis, o sorriso de Cristo estará aguardando-nos, por assim dizer, junto à porta da Casa do Pai, para nos oferecer uma felicidade eterna, no Amor sem fim. Eu vou preparar-vos um lugar… Quero que onde estou, estejais vós comigo… Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo.

 D 4.- Aconteça o que acontecer, pois, se tivermos fé, esperança e amor (ou seja, se formos bons cristãos), perceberemos que Jesus está sempre ao nosso lado e sempre nos diz: A paz esteja convosco; sou Eu, não tenhais medo.

D 1.- Vamos encerrar aqui o diálogo. Agradeçamos a Cristo que, com a sua Ressurreição, nos conquistou a vitória sobre o medo, que substituiu o medo pela esperança, essa bela virtude, que é o incentivo da alma dos que ainda  caminhamos na terra rumo à Casa do Céu.

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)