Tomé

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

QUARTO DIÁLOGO: TOMÉ

(João, 20, 24-29)

Do pessimismo à esperança

 

D 1.- Neste quarto diálogo, vamos focalizar uma figura que costuma ser apresentada como símbolo do ceticismo: a figura do Apóstolo Tomé. Já há até uma frase feita: “Ver para crer, como Tomé”. E, no entanto, eu acho Tomé um dos personagens mais comoventes do Evangelho. Parece-me que, na opinião comum – que pouco conhece dele –, Tomé é um injustiçado. Por isso, vale a pena, primeiro, ver como era mesmo Tomé. Que nos diz dele o Evangelho?

D 3.- Para começar, sabemos uma coisa certa, e é que ele foi um dos idealistas que, deixando todas as coisas, seguiram Jesus. Portanto, confiava em Jesus, acreditava nele – senão, não teria largado tudo para segui-lo – ; além disso, tinha-lhe amor (ninguém se entrega nas mãos de uma pessoa que lhe é indiferente), e era generoso.

D 2.- O que não é pouca coisa. Lógico que era humano, e tinha fraquezas como todos os Apóstolos, como todos nós. Mas, antes da Paixão de Jesus, o Evangelho nos mostra nele mais fortaleza que fraqueza. Refiro-me àqueles momentos críticos – pouco antes da Paixão – , em que Jesus já era perseguido de morte em Jerusalém e teve de retirar-se para além do Jordão, juntamente com os Apóstolos, porque ainda não tinha chegado a sua hora.  O que lá aconteceu é tocante…

D 3.- Certamente. Foi lá, na outra banda do rio Jordão,  que Jesus recebeu o recado de Marta e Maria, pedindo-lhe que fosse de novo a Jerusalém (a Betânia, pertíssimo de Jerusalém), porque seu irmão Lázaro estava muito doente: Senhor, aquele que amas está enfermo. Jesus, no entanto, deixou-se ficar ali ainda dois dias. Mas, de repente, disse: Voltemos para a Judéia. Isso assustou os discípulos: Mestre – disseram – , há pouco os judeus te queriam apedrejar, e voltas para lá? Jesus não ligou, e disse-lhes  abertamente que Lázaro já tinha morrido, mas –acrescentou – vamos a ele. Todos ficaram gelados, pensando que aquilo era pôr-se na boca do lobo…

D 4. – Todos menos um! Tomé! Só ele, cheio de coragem, foi capaz de dizer aos seus condiscípulos: Vamos também nós, e morramos com ele!

 D 2.- Que bonito! Está disposto a morrer com Jesus, por Jesus. Como vemos, não há nada de covardia, nem dúvidas, nem vacilações.

D 1.- E ainda há um outro traço do caráter de Tomé que o Evangelho põe em destaque…Tomé era um homem que gostava da objetividade, porque era sincero. Não era daqueles que são “objetivos” só para botar dificuldades, tirar o corpo e dizer que não dá. Ele gostava da objetividade para entender melhor as coisas e, assim, poder agir melhor. Isso não diminuía um pingo a fé que tinha em Jesus. Tomé unia a fé ao realismo, um binômio excelente em si mesmo, mas que pode desequilibrar-se, e então se torna perigoso (como hoje veremos). É o que fica bem claro na Última Ceia.

D 3.- Fica mesmo. Como não nos lembrarmos  daquele momento da Última Ceia, que nos conta são João, em que Jesus estava se despedindo e consolava os discípulos dizendo-lhes: Não se perturbe o vosso coração. Na casa de meu Pai há muitas moradas …; vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo… E vós conheceis o caminho para onde eu vou. Aí interveio Tomé, com uma franqueza brusca, mas cheia de confiança em Jesus:  Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?  Jesus não levou a mal essa pergunta nem a achou indelicada. Ao contrário, tomou pé dela para dizer umas palavras que ficarão para sempre gravadas no coração do cristão: Jesus  respondeu-lhe: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”.

 D 1.- Muito bem. Agora já temos uma breve radiografia espiritual de Tomé. Vamos tentar meditar o que aconteceu com ele quando Jesus ressuscitou.

D 3.- Em primeiro lugar, na tarde do domingo de Páscoa, em que Jesus apareceu aos Apóstolos no Cenáculo, Tomé – diz o Evangelho – não estava com eles. Ou seja, não viu Jesus. Provavelmente, chegou bem mais tarde, naquela noite, ou então só voltou à casa no dia seguinte. Podemos imaginar que chegou ao Cenáculo triste, com olheiras de pouco dormir e o ricto amargo na boca de muito sofrer. Pois bem, mal acabava de subir a escada até o segundo andar, quando os outros que lá estavam se lhe atiraram em cima, agitadíssimos, dizendo: Vimos o Senhor!

 D 2.- Pobre Tomé! Aquela enxurrada de entusiasmo, totalmente inesperada, caiu-lhe como um golpe de malho na cabeça. Deixou-o atordoado. Eu o imagino de olhos arregalados, assustado com a estranha euforia dos outros, balbuciando: “Estão loucos! Vocês perderam o juízo?” E o bom Tomé, o sofrido Tomé, o franco Tomé, de repente embirrou. A sua tendência para o realismo e a objetividade espanou, extrapolou, desequilibrou-se: Mas ele replicou-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei! Pronto, emburrou, e não havia modo de fazê-lo sair dessa.

D 4.- Eu acho que era tão grande o seu carinho por Jesus, que não aguentava pensar sequer na possibilidade de que houvesse um engano. Não tinha coragem para deixar que a sua esperança subisse como um foguete na crença de que Jesus vivia, para depois cair e espatifar-se no chão, na decepção. E se tudo não passasse de histeria dos amigos? A alegria dá medo! Temos tanto receio de embarcar numa alegria que depois nos possa decepcionar! Por isso, quando desejamos muito, muito mesmo, uma coisa que nos promete enorme alegria, temos a tendência instintiva de começar a pensar nas coisas “negras” que poderão acontecer: vai surgir um imprevisto, vai falhar na última hora, não vai dar certo, vai gorar…

D 1.- Concordo em que era explicável, muito compreensível a atitude fechada de Tomé. Mas, como veremos logo, Jesus teve de corrigi-lo, o que significa que nele houve uma falha, um erro, do qual nós temos que aprender.

D 3.- Parece claro que houve uma falha de fé e de esperança. Tomé quis ser tão realista – para se garantir – , que só ficou vendo o que tinha debaixo dos pés e na ponta do nariz. Isto é o que acontece com todos os que se chamam a si mesmos “realistas”, gente de “pé no chão”, “experientes” e “conhecedores da vida”…, e se esquecem de que a coisa mais “real” que há no mundo é a presença viva de Deus, o seu poder e a sua ação amorosa… e muitas vezes inesperada e desconcertante.

D 4.- É interessante observar que todos os pessimistas se chamam a si mesmos realistas e desprezam os “sonhadores” (assim chamam aos que vivem da fé), como se fossem ingênuos ou bobos. Felizmente, nós cremos no Deus da esperança, e por isso somos necessariamente otimistas.

D 1.- Jesus quer que vivamos uma vida realista, mas contando com o “fator” mais real de todos, que é Ele,  que é a força do seu amor e da sua fidelidade às promessas. Assim o expressa a Carta aos Hebreus:  A fé é o fundamento das coisas que se esperam, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a glória dos nossos antepassados. A falta desta fé traz consigo a falta da esperança. Este foi o motivo da “bronca” afetuosa que Jesus deu em Tomé. E a deu com razão, pois Tomé não soube colocar toda a sua fé nas promessas de Cristo – voltarei a vós…., ao terceiro dia o Filho do homem ressuscitará…;  e não deu crédito ao testemunho dos outros Apóstolos que, por ser unânime, merecia confiança. Vejamos, então, a divina “bronca”…

D 3.- Oito dias depois (da aparição aos Apóstolos no Cenáculo), estavam os seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”…

D 2.- Eu imagino a cara de espanto do nosso Tomé… E o seu coração quase quebrando as costelas, de tanto pular, quando Jesus se dirigiu pessoalmente a ele.

D 3.- Assim o conta o Evangelho: Depois, Jesus disse a Tomé: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado, e não sejas incrédulo, mas homem de fé! E, apanhando a mão de Tomé, fez como estava dizendo.

 D 4.- A reação de Tomé, caindo aos pés de Jesus, foi esplêndida: Respondeu-lhe Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” Ele, que tinha duvidado, acabou fazendo o maior ato de fé até então pronunciado por qualquer dos Apóstolos: um ato de fé absolutamente explícita, luminosa, na divindade de Cristo: Meu Deus! E Jesus encerrou a questão, pensando em nós, em vocês, em mim, em todos: Creste porque me viste. Felizes aqueles que creem sem terem visto!

D 1.- Sim, é mesmo uma lição que Cristo dirige a todos nós, especialmente neste tempo da Páscoa. É como se nos perguntasse: “Você crê mesmo em mim?” “Você, por crer em mim, sabe esperar nas coisas que não se veem, que só se preveem com a fé? Sabe esperar nas coisas que Deus quer, mas que os “realistas” chamam “impossíveis?”

D 4.- É bonito! Deus nos “desafia” –por assim dizer – a viver de esperança, a esperar dele  coisas grandes que ainda não vemos e que nos parecem impossíveis, mas são coisas que Ele nos quer dar.

D 1.- O “realismo” cristão está feito de fé, de audácia e de grandeza de alma. Eu daria esta definição: o nosso realismo é a esperança. está o segredo do otimismo cristão.

D 4.- Sim! Temos que apontar alto! Apontar para coisas grandes, “boas”, como é lógico (não para grandes ambições ruins, egoístas ou vaidosas), e confiar plenamente em Deus. A mulher de fé, o homem de fé,  confia sobretudo em dois pilares fortíssimos sobre os quais se apoia a esperança: a obediência a Deus (fazer o que sabemos que Deus nos pede), e a oração (pedir com a fé com que um filho pede pão a um pai de cujo amor não duvida). Apoiada na obediência e na oração, a nossa esperança está garantida.

D 1.- O nosso maior “realismo” é viver de fé e esperança. As pessoas que agem “como se Deus não existisse, ou não visse, ou não amasse” caem numa trágica falsificação da realidade. Não nos deixemos dominar nunca – ainda que a nossa vida atravesse momentos muito difíceis – por uma visão acanhada e míope. Peçamos a Tomé que nos ajude a ser os “realistas da esperança”, que com certeza ele nos acudirá. Tem experiência…

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)