Maria no dia de Páscoa

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

QUINTO DIÁLOGO: A MÃE

(João 19,26-27 e Atos 1,12-14)

 

A Mãe da santa esperança

 

D 1.-  Uma tradição muito antiga é confiável afirma que a primeira aparição de Cristo ressuscitado foi à sua Mãe Santíssima. Não sei se vocês se lembram de algum desses quadros que representam Jesus ressuscitado aparecendo à sua Mãe. Maria está sentada, recolhida, enquanto – com um brilho cálido nos olhos – olha para seu filho Jesus que, de pé e com um estandarte na mão, a contempla com amor.

D 4.-  É natural que Jesus ressuscitado, que trazia ao mundo a Alegria com maiúscula, tenha dado a primeira alegria à sua Mãe.

D 2. –  É muito bonito pensar que, naqueles momentos de escuridão que envolvia os discípulos logo após o sepultamento de Jesus, a única luz de esperança que continuou a brilhar, foi o coração de Maria. Coração atravessado por uma espada de dor, como havia profetizado Simeão quando Jesus era menino! Sim, o coração de Maria, depois da morte de Jesus,  era uma lâmpada de dor, mas nela ardia a chama da esperança. Ela foi a única que acreditou, a única que, no silêncio do sábado santo, esperou na ressurreição ao terceiro dia

D 1.-  Certamente, ela viveu e encarnou a esperança “cristã” como ninguém. Feliz a que acreditou, porque se cumprirão todas as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor – disse-lhe Santa Isabel na Visitação.  Por isso a Igreja a invoca como Mãe da santa esperança, por isso nós a chamamos vida, doçura e esperança nossa… Não são apenas belas palavras. Manifestam a missão que Jesus lhe confiou quando, do alto da Cruz, lhe disse, olhando para João: Eis aqui o teu filho! João representava todos os discípulos de Jesus, vocês e eu também.

D 3.-  Quando Jesus, na Cruz, nos deu Maria como Mãe quis garantir-nos a esperança. É verdade que a nossa esperança deve estar, toda ela, colocada em Deus. Só Deus – a sua misericórdia e a sua onipotência – é o motivo da esperança. Mas Ele deu-nos sua Mãe, para que, com seu carinho, nos ensinasse a confiar; para que desse a mão a estas crianças “suas” que somos nós, e as introduzisse no mundo maravilhoso da esperança.

D 2.-  Vocês sabem qual é uma das orações mais antigas dirigidas a Nossa Senhora? É aquela que ainda hoje os católicos devotos sabem de cor: «À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus, não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo». É uma expressão da nossa confiança filial em Maria, mãe que nos leva a Jesus.

D 1.-  Na verdade, o Espírito Santo – inspirador da Sagrada Escritura – deixou-nos motivos mais do que suficientes para que aprendêssemos a confiar na “Esperança nossa”. Bastaria lembrar a cena das bodas de Caná, onde Maria, só com três palavras, obteve de Jesus o primeiro milagre, a transformação da água em vinho. Lembram-se?

D 3.-  Claro. Naquela festa de casamento começou a faltar o vinho. Maria teve pena dos noivos. Aquilo podia estragar-lhes a alegria. Então falou com seu Filho: Não têm vinho! A resposta de Jesus pode parecer um balde de água fria – Mulher, isto nos compete a nós? A minha hora ainda não chegou –, mas Maria confiava, e com toda a paz disse aos serventes: Fazei tudo o que ele vos disser… Não precisou fazer mais. Jesus mandou, na hora, encher de água umas grandes talhas que lá estavam e depois indicou que fosse servido o seu conteúdo aos convidados: foi o melhor vinho da festa!

 

D 4.-  Maria adiantou assim a hora dos milagres de Jesus. Graças a esse primeiro milagre, o Evangelho diz que Jesus manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele. E tudo, pela solicitude de Maria. Se Jesus fez isso para alegrar uns noivos, o que não fará por nós?

D 3.-  Por isso, os santos e os bons teólogos a chamam de “onipotência suplicante”. É uma maneira hiperbólica – mas realista – de referir-se ao poder das súplicas de Maria diante de Jesus. São Bernardo, o “trovador da Virgem”, gostava de compará-la ao aqueduto que recebe a água da fonte (a água da graça, da fonte que é Deus) e a faz chegar até nós: «Recebendo a plenitude da graça da própria fonte do coração do Pai – dizia –, a faz acessível a nós… Com o mais íntimo, pois, da nossa alma, com todos os afetos do nosso coração e com todos os sentimentos e desejos da nossa vontade, veneremos Maria, porque esta é a vontade daquele Senhor que quis que tudo recebêssemos por Maria».

D 2.-  Que confiança…, e que consolo isto nos dá! Nos momentos em que sentimos vergonha de “olhar” para o Céu (por fraqueza), Maria nos leva a confiar na misericórdia de Deus. Não tenhamos medo, por mais sujos e machucados que estejamos. Ela é Mãe. Ela é Mãe.Ela não deixará de propiciar um bom banho aos seus meninos; ela nos moverá a ter arrependimento, ela nos levará – se for preciso, pela orelha  — até à confissão, e nos carregará finalmente no colo, limpos e felizes.

D 3.-  «Se eu fosse leproso – escreve São Josemaría -, minha mãe me abraçaria. Sem medo nem repugnância alguma, beijar-me-ia as chagas. – Pois bem, e a Virgem Santíssima? Ao sentir que temos lepra, que estamos chagados, temos de gritar: Mãe! E a proteção de nossa Mãe é como um beijo nas feridas, que nos obtém a cura».

D 1.- Essa foi a confiança que tiveram os cristãos desde o começo. Nos Atos dos Apóstolos, conta São Lucas que Jesus, pouco antes da Ascensão, despediu-se recomendando aos seus que permanecessem em Jerusalém, até que sejais revestidos da força do Alto, até a vinda do Espírito Santo. E acrescenta que todos – Apóstolos, discípulos, santas mulheres – obedeceram, e se reuniram, durante dez dias, no Cenáculo, com Maria, a Mãe de Jesus. Lá, junto dela, como uma família agrupada em torno da mãe, perseveravam unanimemente na oração. Ela os uniu, facilitou-lhes a obediência ao pedido de Jesus, e animou a oração de todos.

D 4.-  Por isso, a vida espiritual, quando ficamos perto de Nossa Senhora, é sadia e se enche de segurança. «Antes, sozinho, não podias… – diz São Josemaria -. – Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil!» Como são belos os versos do canto trinta e três do “Paraíso” da “Divina Comédia” de Dante. Começam com uma oração de São Bernardo, no Paraíso, que, entre outras coisas, diz assim:

“Ó Virgem mãe, filha do teu Filho,

humilde e alta mais que toda criatura,

termo imutável dos desígnios divinos […]

 

…Cá no Céu, tu és para nós sol radiante

de amor; e em baixo, entre os mortais,

és uma fonte de esperança viva.

 

Senhora, tu és tão grande e tanto podes,

que quem quer graça e a ti não recorre

o seu desejo quer voar sem asas. […]

 

…Em ti há misericórdia; em ti, piedade,

em ti magnificência, em ti se junta

tudo quanto nas criaturas é bondade….

D 4.-  Eu gostaria de relatar um fato simples, que manifesta o amor filial a Nossa Mãe. Trata-se de um pequeno episódio da vida de um padre de aldeia, de dois metros de altura, ossudo e desengonçado como um don Camilo de Guareschi, que me contaram há tempos, pois eu não o conheci. Aconteceu que, na altura do Natal, seguindo o costume da sua terra, preparava-se para receber algum presente trazido na corcova dos camelos pelos Reis Magos. Nessa ocasião, seguindo um sistema do tipo do “amigo secreto”, os “reis magos” eram um grupo de colegas, padres como ele. Cada um escrevia uma carta aos Reis, fazendo o pedido. O nosso don Camilo (que se chamava Pedro) escreveu esta:

«Meus caros Reis Magos:

»Muito embora sempre vos tenha amado e pedido favores, especialmente quando fazeis a vossa visita à terra, não vos tinha escrito desde faz, se bem me lembro, uns trinta anos. Eu era então um garoto com muitos sonhos na cabeça, que se foram apagando com o decorrer do tempo. Mas agora acontece que, graças a Deus, torno a sonhar, muito embora os sonhos sejam, naturalmente, diferentes dos que tinha então.

»O meu desejo atual é o de tornar a ser criança, apesar da minha respeitável estatura, para assim conseguir de vós quanto deseja e precisa meu coração de menino. Sim, o que para mim eu quero é isto: que me alcanceis a infância espiritual, para que sempre possa caminhar agarrado à mão de Deus; pois provavelmente vos seria meio difícil conceder-me a infância corporal.

»A Providência divina fez-me também pai de umas boas centenas de almas, que amo entranhadamente, e para as quais vos peço muita saúde espiritual, visto que há muitas que estão doentes. Com a certeza de que me haveis de conceder o que vos peço, beijo as vossas mãos benfazejas».  Que carta, não?  E o que é que vocês acham que os Reis Magos lhe deram de presente?

D 2.-  Não sei!

D 4.-  Uma imagem de Nossa Senhora, com um olhar de mãe, com um sorriso de mãe, que fazia com que qualquer um se sentisse, perto dela, uma criança amparada, serena, aconchegada…

D 4.- É bonito. Tomara que soubéssemos fazer-nos crianças junto de Nossa Senhora, e com esse coração simples rezássemos cada Ave Maria, cada Terço, cada Salve Rainha, cada jaculatória…

D 1.- Estamos na hora de encerrar este diálogo. Terminemos agradecendo à Mãe que Jesus nos deu, porque – com ela – é impossível perder a esperança. Porque ela é a Mãe do Salvador, e é também, de pleno direto, “a minha mãe”. Sim. Santa Maria, esperança nossa, Santa Maria, vida, doçura e esperança nossa – rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém.

 

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)