5-A MISERICÓRDIA

FAZER A VIDA AMÁVEL

5. MISERICÓRDIA: “PERDOAI-VOS UNS AOS OUTROS”

Uma balança mal equilibrada

Um bom amigo me dizia: “Adquiri o hábito de rezar todas as noites o comecinho do Salmo 51, e me faz muito bem:  Ó, Deus, tem piedade de mim, conforme a tua misericórdia; no teu grande amor, apaga o meu pecado. Lava-me de toda a minha culpa, e purifica-me do meu pecado”.

Senti vontade de imitá-lo, e não me estranharia que você a sentisse também.

É tão comovente a misericórdia de Deus! Basta lembrar a parábola do filho pródigo, esse retrato de Deus que, ao menor aceno de arrependimento, corre ao nosso encontro, abraça-nos e nos cobre de beijos, organiza uma festa e nos concede o lugar de honra em sua casa. (Cf. Lc 15, 20-24).

Deus é assim. Na sua Encíclica sobre a misericórdia, São João Paulo II dizia: «A misericórdia, como perfeição de Deus infinito, é também infinita. Infinita, portanto, e inexaurível é a prontidão do Pai em acolher os filhos pródigos que voltam à sua casa» (Dives in misericórdia, n. 83).

O Papa Francisco, pregoeiro incansável da misericórdia divina, frisa na sua encíclica sobre a alegria do Evangelho: «Insisto uma vez mais: Deus nunca se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia […]. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria» (Evangelii Gaudium, n. 3).

No mesmo sentido, São Josemaria escrevia: «Deus não se escandaliza dos homens. Deus não se cansa com as nossas infidelidades. Nosso Pai do Céu perdoa qualquer ofensa quando o filho volta de novo para Ele, quando se arrepende e pede perdão. » (É Cristo que passa, n. 64).

Sendo assim, é natural que o Senhor nos mande: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36); e que nos ensine a rezar, de coração sincero: Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido, acrescentando a seguir umas palavras que nunca deveríamos esquecer: Porque, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6,13-15).

Catecismo da Igreja comenta incisivamente essa última frase: «Ora, isso é tremendo, este mar de misericórdia não pode penetrar no nosso coração enquanto não tivermos perdoado aos que nos ofenderam. Recusando-nos a perdoar…, o nosso coração… se torna impermeável ao amor misericordioso do Pai» (n. 2840).

Que acha? Não lhe corre um certo arrepio pela alma? Sim, a verdade é que adoramos ser perdoados mas, muitas vezes, não queremos perdoar. A balança do nosso amor anda desequilibrada, e convém muito que procuremos nivelá-la. Vale a pena meditar nisso.

Se sete vezes no dia te pedir perdão…

Deus não se cansa. Nós nos cansamos. Como é fácil dizer “chega!” e ficar guardando mágoa, ressentimento, ânsias de revidar, e até de excluir a pessoa do nosso convívio. “Se ele (se ela) vai a esse jantar, eu não vou”. “Não quero que apareça mais aqui em casa”. “Essa pessoa, nem a cumprimento, nem olho para ela”. Pode ser Natal, pode ser um aniversário, pode ser uma comemoração propícia para o congraçamento da família, que o coração rancoroso se manterá trancado com sete ferrolhos.

Você dirá, talvez: “Mas Jesus fala do filho pródigo, que se arrependeu”… E também diz: Se teu irmão pecar sete vezes no dia contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te dizendo: “Estou arrependido”, lhe perdoarás (Lc 17,4). Fala de perdoar aos que se arrependem, aos que pedem perdão. E se não pedem?

Está bem. Neste capítulo, vamos ficar pensando apenas nos que nos pedem perdão. No capítulo seguinte, meditaremos sobre como devemos perdoar os que não se arrependem.

Se te pedir perdão

Para começar, citaremos outro trecho do Evangelho, que fala dos “limites sem limite” do perdão: Então, Pedro se aproximou dele e disse: “Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão?” Até sete vezes? Respondeu Jesus: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt .18,21-22).  Multiplica por setenta o número sete que São Lucas menciona, como víamos acima. Em ambos os casos o sentido é o mesmo: como sete é o número bíblico que indica o infinito, Jesus ensina que é preciso perdoar sempre.

Se vier procurar-te dizendo: “Estou arrependido”… Você entende bem isso? Será que compreendemos esse pedido de perdão quando não é dito verbalmente  (“me perdoe”, “desculpe”, “falei sem pensar, não queria dizer isso”…).  Porque há formas silenciosas de pedir perdão, que devem ser captadas e aceitas de coração aberto. Pode ser um belo pedido de perdão, por exemplo, um olhar afetuoso e humilde, uma palavra carinhosa, uma atitude solícita que mostra o desejo de se aproximar e reparar o erro cometido. Vamos fechar o coração? Vamos ser uma espécie de “monarcas” que só perdoam se a pessoa cai a seus pés, suplicando: “Perdão”?

Deus não age assim. É tocante, na parábola do filho pródigo, ver o filho perdido se aproximando da casa paterna enquanto ensaia, medroso, o que vai falar: Irei a meu pai e lhe direi: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho. E contemplar depois o pai, que mal avista o filho corre ao seu encontro e nem deixa que complete a fala. As palavras do filho ficam abafadas dentro de um abraço (Cf. Lc 15, 17-24).

Este é o espírito de Cristo. Este deve ser o espírito cristão. O que ensina São Paulo: Sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo (Ef 4,32). Como viver isso?

Uma dificuldade

Não é raro que muitos digam, constrangidos: “Entendo… Deveria ser assim. Mas não consigo... Não consigo esquecer nem perdoar. 

 

Se temos essa dificuldade, leiamos com atenção o que diz o Catecismo da Igreja, ao comentar o pedido de perdão do Pai-nosso: «Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão» (n. 2843). Que esclarecimento nos traz esse texto? Quatro.

─ Primeiro. Não depende de nós, «não está em nosso poder não mais sentir e  esquecer a ofensa». Não confundamos “sentir” com “querer”, e não esqueçamos que o autêntico amor está na vontade – no querer – e não nos sentimentos. Mesmo tendo dificuldade “emotiva” para limpar de rancor o coração, podemos dar a Deus todo o nosso querer: “Meu Deus, eu quero mesmo perdoar, me ajude!” Se essa atitude for bem sincera, já estamos perdoando de todo o coração (Mt 18,35), porque estamos “entregando” o coração (com um ato da nossa boa vontade) “ao Espírito Santo”, que é o Amor em Pessoa.

Segundo. O Catecismo convida-nos a «transformar a ferida em compaixão». Compaixão, logicamente, não é desprezo (“não sinto raiva, sinto pena desse pobre coitado, que não vale nada…”). Compaixão é perceber que toda falta faz mal, antes de mais, a quem a comete. É uma ferida que se faz a si mesmo, e que deve mover-nos a agir como o bom samaritano: ajudar a curá-la (Cf. Lc 10, 33-35). Como? Esforçando-nos por ser acolhedores, não remexendo na ferida, tendo a iniciativa criativa de praticar pequenos atos de bondade. São João Paulo II dizia: «O amor misericordioso, por sua essência, é um amor criador» (Dives in misericordia, n. 88). Num clima criativo de atos bons, a bondade dos outros desabrocha.

Terceiro. «Purifica a memória». Sabe qual é o melhor “método” para isso? Bastam, poucas palavras. Medite devagar o que aconselha Caminho: «Por maior que seja o prejuízo ou a ofensa que te façam, mais te tem perdoado Deus a ti» (n. 452).

Quarto. «Transformar a ofensa em intercessão», ou seja, em oração de petição pela pessoa que nos ofendeu. Proponha-se, por exemplo, fazer o seguinte: “Sempre que me lembrar do que me fez, sempre que pensar nessa pessoa, vou rezar uma Ave Maria por ela”.

Assim, pesar das nossas fraquezas, viveremos o ideal que São Paulo pede a todos os cristãos: Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem (Rm 12,21).