8-GENEROSIDADE

FAZER A VIDA AMÁVEL

8. GENEROSIDADE 

Coração no poço ou na mão? 

Vamos refletir sobre a generosidade, uma das virtudes que mais contribuem para “fazer a vida amável” aos outros, e que tem duas definições: a técnica: «É a virtude daquele que se dispõe a sacrificar os seus próprios interesses em benefício dos outros»; e a de Cristo: «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos» (Jn 15, 13).

Falar da generosidade é muito bonito, mas praticá-la não é fácil. Para isso, é preciso vencer a tendência egoísta de viver voltados para nós mesmos, mergulhados no poço do “eu”, onde o amor se afoga.

Vamos tentar sair desse poço. Mas não esqueçamos que, para alcançarmos um espírito de doação como o de Jesus, ou seja, a disposição de  «sacrificar nossos interesses em benefício dos outros» e «dar a vida», é preciso vencer a mesquinhez, a avareza e o calculismo. É preciso ter mão aberta. Vamos meditar sobre a luta contra os inimigos da generosidade, que se podem resumir em três perguntas: “Por que eu?” “Por que isso?” “Por que tanto?”.

a) Primeiro inimigo:  Por que “eu”?

Imagino que foi essa a tentação que deve ter sentido o menino que ofereceu a Jesus o lanche que a mãe lhe deu – cinco pães e dois peixes  –,  quando viu o Senhor preocupado, porque o tinham acompanhado mais de cinco mil pessoas até um lugar afastado, e de repente perceberam que nada tinham para comer.

Com os pães do menino – só cinco pãezinhos de cevada mais dois peixes –, Jesus fez o milagre da multiplicação, alimentou a multidão e ainda sobraram doze cestos. (Jn 6,5-13).

Não duvido que, antes de oferecer seu farnel, o garoto teve que lutar intimamente. Ele ouviu Jesus pedir aos apóstolos que dessem de comer àquela gente; escutou o cálculo rápido que Filipe fez: Duzentos denários de pão não bastariam para dar um pedacinho a cada um, e se lembrou de que essa quantia era o salário de um operário por nada menos que duzentos dias de trabalho. Então, pode ter pensado: – “Por que eu tenho que me desprender disso? De que vai servir? Que perguntem a outros se têm alguma coisa. Melhor será ao menos eu aproveitar… “

Essa é a tentação que também nós sentimos com frequência, cheia da lógica impecável do egoísmo. Acontece que o gesto generoso e aparentemente “inútil” do menino tocou fundo o coração de Cristo e foi a ocasião do milagre da multiplicação dos pães, portanto, de um bem para muitos.

Pensemos com calma. Quantas vezes já perguntamos – com palavras ou sem elas – “por que eu?”. E achamos natural. Temos que aprender do garoto a vencer essa mesquinhez e a mudar a pergunta, dizendo: “Por que não eu?”. Vejamos alguns exemplos:

─ Por que não sou eu quem ajuda a esposa ou a mãe nas coisas da casa?

─ Por que não sou eu quem se esforça por sorrir quando o ambiente de casa está carregado e parece que a culpa é de outros?

─ Por que não sou eu quem arruma a cama todos os dias, sendo que sou eu quem a usa?

─ Por que não sou eu quem se prontifica a ficar num domingo, acompanhando um familiar doente ou convalescente?

─ Por que não sou eu quem reserva tempo para ajudar outros no trabalho ou no estudo, reduzindo as “minhas” perdas de tempo na internet e nas redes sociais?

─Por que não sou eu quem se oferece quando, em qualquer situação, precisam de um voluntário?

─ Por que não sou eu o primeiro a perdoar ou a pedir perdão, mesmo que ache que tenho razões para ficar magoado?

─ Por que não dou eu essa esmola, subvenção ou donativo, mesmo sabendo que isso não resolverá senão uma mínima parte da pobreza geral?

Reaja a essa perguntas. Mas não se esqueça de que, se tiver um arranco de generosidade, logo vai aparecer o eterno vermezinho que rói por dentro e lhe diz: – “Não seja bobo. Que adianta isso? Outros são os culpados. Outros são os responsáveis. Será que sempre será você a pagar o pato?” Etc, etc, etc.

Ora, se abrirmos o coração como o menino, Cristo acenderá uma luz dentro da alma, e dirá: «Eu dei a vida por você. Você acha que adiantou? Aparentemente era tudo perda, mas graças a isso você e bilhões de almas podem esperar e obter a alegria aqui e, depois, na vida eterna. Todos os dias eu preciso dos “teus” cinco pães, para derramar graças e fazer maravilhas».

b) Segundo inimigo: Por que “isso”?

Essa tentação – “por que isso?” – deve tê-la sentido, ao menos por uns instantes, aquela pobre viúva que fez vibrar de alegria o coração de Jesus (cf. Mc  12,41-44).

O Senhor estava defronte do cofre das esmolas do templo de Jerusalém, obervando os doadores. Viu muitos ricos depositando boas quantias. Atrás deles, chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante [a menor moeda romana]. Ele chamou os seus discípulos e lhes disse: esta pobre viúva pôs mais do que todos os que lançaram no cofre, porque todos deram do que lhes sobrava; esta, porém, deu, da sua indigência, tudo o que tinha para o seu sustento.

Gosto muito da reflexão que faz Pierre Charles sobre essa cena[1]. Ele imagina a viúva dando a primeira moeda. Sobra-lhe apenas uma, tudo o que tem. Durante dois segundos sente uma hesitação: “Dou a outra também? Darei ‘isso’?” Mas vence nela o amor a Deus, a generosidade e a fé na Providência. Expulsando a hesitação, a segunda moedinha tilinta ao cair no cofre… e no coração de Jesus.

Quais são as nossas segundas moedas? Pense nisso. Vamos fazer um pequeno exame de consciência, pautando-nos por aquelas quatro palavras do ato penitencial da Missa: «…pensamentos e palavras, atos e omissões».

Pensamentos. A nossa segunda moeda pode ser pensar um pouco mais – todos os dias – em algum pormenor delicado com que possamos tornar mais amável a vida dos outros. Ou numa surpresa agradável. Ou num presente ou lembrança minúsculo, que indique que nos lembramos deles. Ou num plano de fim de semana que quebre a monotonia da rotina habitual. Ou em rezar um Pai-nosso ou umas Ave-Marias mais por aquele que sofre ou precisa. Tudo isso são segundas moedas.

Palavras. Agradecer mais os pequenos serviços que os outros nos fazem: “Obrigado!”. Fazer perguntas que mostrem nosso interesse pelos incidentes cotidianos dos demais. Louvar com naturalidade um prato bem preparado, uma roupa da esposa ou da filha, uma boa nota ou uma atitude responsável de um adolescente. Conversar mais às refeições. Dar prosa amável a um inoportuno… Tudo isso são segundas moedas.

Atos. Ajudar mais a quem precisa, começando por examinar: que pequenas ajudas (materiais, morais, espirituais) posso prestar, sem dar importância, a cada um, em casa, entre os companheiros de trabalho? Dar um pouco mais de esmola, de ajuda na igreja e em obras de interesse social. Cuidar detalhes de ordem, que evitem trabalho aos demais. Facilitar a entrada de outro carro na rua congestionada… E outros “serviços” que meditávamos no capítulo anterior. São segundas moedas.

Omissões. Lutar por evitar esquecimentos, e assim poupar trabalho ou preocupações aos outros. Lutar por desterrar o tom negativo – de crítica, de pessimismo, de raiva – nas opiniões. Evitar deixar as coisas desarrumadas quando saio de um quarto. Lutar contra a tendência de faltar à pontualidade… Tudo isso são segundas moedas.

c) Terceiro inimigo: Por que “tanto”?

Agora vamos dirigir o olhar para uma das Marias do Evangelho, a irmã de Marta e Lázaro, que tantas vezes acolheu Jesus em sua casa de Betânia (Lc 10,38-42).

Poucos dias antes da Paixão de Jesus, quando já se pressentia o desenlace da Cruz, o Senhor estava à mesa em casa de um tal Simão, em Betânia (Mc 14,3 ss.). Marta servia e Lázaro era um dos convidados. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-o com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo (Jn 12,1 ss.). São Marcos acrescenta que, quebrando o vaso de alabastro, derramou o perfume.

Ouviu-se um murmúrio rouco de muitas bocas. A  voz que liderava era a de Judas: Por que esse desperdício? Por que não se vendeu por trezentos denários e não se deu aos pobres? Dizia isso – esclarece São João – não porque se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela se lançava.

Jesus defendeu-a com carinho: Guardou esse perfume para o dia da minha sepultura, antecipando assim o que as santas mulheres fariam com seu corpo morto (cf. Mc 16,1). A seguir, usou uma expressão única no Evangelho: Em verdade vos digo: onde quer que for pregado em todo o mundo o Evangelho, será contado para sua memória o que ela fez (Mc 14,9). Não é possível maior elogio. Jesus quis hastear o exemplo dessa mulher como um estandarte aos olhos de todo o mundo até o fim dos séculos.

Toda essa cena faz pensar na generosidade dos que, correspondendo ao chamado de Deus, quebram o vaso de seus projetos pessoais e de seu futuro, e oferecem a Deus por amor o bálsamo de um coração inteiro, de uma entrega total  e incondicionada, como a dos apóstolos: Deixaram tudo e o seguiram (Lc 5,11). Uma renúncia que abre passagem à grandeza do amor que dedicarão a Deus e, por Ele, a tornar mais pura, mais elevada e mais alegre a vida de muitos outros.

Jesus alegra-se, mas outros se entristecem, e clamam à imitação de Judas: “Que absurdo!” “Que exagero!” “Que fanatismo!” “Renunciar a tudo, abraçar o celibato, dedicar a vida aos outros!” “Fizeram a cabeça deles!” “Isso é lavagem de cérebro!”…

Como é possível que famílias cristãs, pais católicos, amigos e desconhecidos e até mesmo pagãos a quem nada importa a Igreja e a religião, botem o grito no céu e façam a vida impossível a quem foi generoso e está feliz? Falta-lhes fé, falta-lhes amor, provavelmente nunca saborearam as maravilhas da generosidade.

Coisa análoga se dá com os casais que, confiando em Deus e por um idealismo consciente, livre e generoso, decidem ter uma família numerosa. Sobre eles caem sempre as críticas, como caíram sobre Maria na ceia em Betânia: “Que loucura!” “Vocês são uns irresponsáveis!” “Pôr mais filhos num mundo como o nosso…!”  Como vê, Judas continua a ter voz.

Mas eles, todos os que souberam manter um coração generoso e bom (Lc 8,15) e quebrar o vaso, ouvirão a voz de Jesus, impregnada de carinho, que lhes diz: Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32). E: Alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus (Lc 10,20), desde já no coração de Deus.



[1] A oração de toda a hora, Ed. Flamboyant 1961, pp. 308 ss.