9-OTIMISMO

FAZER A VIDA AMÁVEL

9. OTIMISMO

Verdadeiros e falsos realismos 

Uma das coisas menos agradáveis que há neste mundo é conviver ou trabalhar com uma pessoa pessimista: “Não vai dar!” “Não te falei?” “Está vendo?” “Não acredite…” “Todos querem se aproveitar”… A presença do pessimista estende asas de urubu sobre todos os que o cercam.

Mas também não é boa a figura do otimista superficial, comparável à “bexiga colorida de festa de aniversário”, colorida e efêmera. Diz coisas positivas, lança chavões de ânimo, mas tudo é vazio: “Não ligue para isso…” (quando é perigo que é preciso enfrentar), “Deixe, vai dar certo” (como?), “Deus é brasileiro” (sim, Ele abençoa sem dúvida o Brasil, mas nunca abençoa a preguiça)… Esse otimismo é uma bexiga furada.

Não sei se reparou que, tanto o pessimista como o falso otimista se julgam realistas. Mas não o são. Só o otimista cristão possui o verdadeiro realismo, porque vê as coisas com os olhos de Deus e por isso pode enxergar o “fundo da realidade”, pode compreender a “realidade real”.

Disso falou Bento XVI em Aparecida: «O que é o real? São realidade somente os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século […]. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante e, por isso, decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus do seu horizonte falsifica o conceito de “realidade” […]. Só quem reconhece Deus conhece a realidade, e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano» (Discurso ao CELAM, 17/05/2007).

O autêntico otimismo não é fruto de técnicas de pensamento positivo, nem da fuga ilusória para o mundo do faz-de-conta. Como diz São Josemaria, é «consequência necessária da tua fé» (Caminho, n. 378).  Vale a pena meditar sobre três certezas, três pilares, que a fé coloca como bases firmes do otimismo.

A) Primeira certeza: Deus não está longe de nós

a) Isso dizia São Paulo em Atenas, quando discursou no Areópago: Deus não se encontra longe de cada um de nós. É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos (At 17,27-28).

Sem essa certeza da fé, estamos condenados à desorientação, ao desamparo, à insegurança. A quantos não se podem aplicar estas palavras de Caminho: «Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. – E está como um Pai amoroso – quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos –, ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando… e perdoando» (n. 267).

Foi Jesus quem nos revelou esta “realidade”, que é uma verdade essencial da sua mensagem salvadora: Deus é Pai, ele nos vê, ele nos ama, cuida de nós, tranquiliza-nos, levanta-nos quando caímos, alegra-se com nosso bem … (cf. Mt 6,25 ss; Lc 12,28.32 e 15,1 ss; Jn 3,16 e 16,27 etc.).

É uma cegueira dramática viver como se Deus não existisse: é termos o Amor junto de nós, em nós (cf. Gl 2,20), e não percebê-lo. Chega a ser tragicômico o que aconteceu com as primeiras aparições de Cristo ressuscitado, quando os olhos dos discípulos ainda estavam como que vendados (Lc 24,16). Pranteavam o Cristo morto enquanto falavam com Cristo vivo. Madalena pergunta a Jesus: Se tu o levaste (o corpo do Senhor), dize-me onde o puseste e eu o irei buscar (Jn 20,15). Os discípulos de Emaús dialogam com Ele no caminho, e dão-lhe a “notícia” de que Jesus morreu (Lc 24, 13 ss.). No último encontro do Senhor ressuscitado com vários de seus discípulos, que voltam de uma pesca infrutífera, Jesus os chama da margem do lago, fala com eles, mas os discípulos não o reconheceram (Jn 21, 4). E nós?

b) Deus – o Amor que está conosco (cf. 1 Jn 4,8) –, não permanece inativo. O Amor jamais fica parado nem indiferente. Só não o percebe quem, por falta de fé, tem os olhos como que vendados.

Muitas vezes somos como crianças, que só se sentem queridas quando os pais lhes fazem as vontades, e não compreendemos como é que age o Amor de Deus. O segredo do seu modo de agir está nestas palavras de São Paulo: Sabemos que Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). Amar é querer o bem da pessoa amada. Isso é o que Deus faz, mesmo quando não o entendemos. E, se o entendemos, não podemos ser pessimistas.

Da nossa parte, basta-nos querer amar, procurar amar sinceramente em qualquer situação da vida (em todas se pode amar), e então Deus encaminha tudo para o nosso verdadeiro bem, e brota em nós a alegria. Você não conheceu almas de fé radiante, enamoradas de Deus, que sorriam serenamente na doença, nas piores adversidades, no sofrimento, em face da morte? Eu agradeço a Deus ter conhecido um bom número dessas almas, e digo-lhe que não há no mundo ninguém mais “realista” que elas.

São Paulo era uma delas. Quem nos separará – dizia – do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O Perigo? A espada? … Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou… Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida…, nem as alturas nem os abismos, nem outra qualquer criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8, 35-39).

B) Segunda certeza: Com Deus sempre somos capazes de amar

Queixamo-nos, atormentados, porque não temos isso ou aquilo, porque não conseguimos o que almejávamos. E não percebemos que, ainda que eu conquiste o mundo inteiro, se não tiver amor, nada disso me aproveita (1 Cor 13,3).

Além da certeza de que Deus nos ama, a coisa mais maravilhosa que a fé nos dá é a convicção de que, aconteça o que acontecer na nossa vida, sempre poderemos amar, sempre teremos a fabulosa potência de amar. Isso significa que, haja o que houver – por mais terrível que nos pareça −, sempre poderemos ser felizes, pois a alegria, como diz Santo Tomás de Aquino, não é outra coisa que a irradiação do amor. Movidos pela fé e o amor, sempre «entramos na torrente de alegria» do Evangelho, de que fala o Papa Francisco (Enc. Evangelii gaudium, n. 5).

Quando as dores físicas ou morais –os desgostos, as decepções, os fracassos, os fastios, o tédio, a solidão, a depressão…- nos acabrunham, a voz cálida de Cristo crucificado convida-nos a ser generosos e a subir um degrau na escada do amor: a crescer na  mansidão, na bondade e na grandeza de alma; a aumentar a confiança em Deus; a ser mais desprendidos de êxitos, do bem-estar e das posses materiais; sobretudo, a meter-nos mais decididamente na fogueira de amor que é o coração de Cristo, com desejos inflamados de corresponder, de desagravá-lo, de imitá-lo, de unir-nos ao seu Sacrifício redentor. Todos esses sentimentos fazem grande e feliz a alma cristã[1].

C) Terceira certeza: Deus sempre confia em nós

Exemplo disso. Todos conhecemos a história das negações de Pedro, durante a Paixão de Jesus (cf. Lc 22, 54-62).  Por covardia e egoísmo negou conhecê-lo, renegou dele, lançando maldições. Ao dar-se conta do que fez, chorou amargamente, e certamente deve ter se sentido indigno para sempre da confiança que Jesus havia depositado nele: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Mt 16,18).

Passaram-se os dias. Jesus, já ressuscitado, iniciou – à beira do lago de Genesaré − um diálogo carinhoso com Pedro:  − “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Respondeu ele: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. A pergunta repetiu-se mais duas vezes. Pedro sentiu uma grande dor e vergonha perante a imensa confiança de Jesus no seu Pedro desleal: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”, e pela terceira vez Jesus confirmou-lhe que o queria como pastor de todo o seu rebanho, cabeça visível da sua Igreja: “Apascenta as minhas ovelhas!” (Jn 21,15-17).

Jesus não nos “desclassifica”, apesar das nossas misérias, traições e pecados. Se nos arrependermos e não fugirmos dele, se confessarmos nossos pecados e reafirmarmos o desejo de amá-lo, Ele nos dirá, sorrindo, como a Pedro: “Eu confio em você. Apesar das barbaridades que cometeu, você, com a ajuda da graça, vai se tornar capaz de amar mais do que ninguém, e será santo e feliz”.

A  esperança não desilude

Acabamos de considerar os três pilares da fé que alicerçam o otimismo cristão: 1) “Deus não está longe de nós”; 2) “Com Deus sempre somos capazes de amar”; 3) “Deus sempre confia em nós”.

Sobre esses três pilares, o otimismo sussurra-nos ao coração: “Deus espera muito de ti, por mais que a tua vida passada tenha sido um desastre. Não fiques apontando baixo. Não coloques metas medíocres na tua vida cristã, na tua vida de intimidade com Deus, na tua oração, no teu apostolado, na tua dedicação ao bem material e espiritual dos teus irmãos. Sê audaz. Aponta muito alto, pois é aí, nas alturas, que Cristo – que te perdoou e voltará sempre a perdoar-te, se te arrependes −, te espera”[2]. 

Como entendemos bem, agora, o que diz São Paulo: A esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). 

Sim. É assim mesmo. Com Cristo, o otimismo se ilumina por dentro, muda de nome, e se chama esperança.


[1] Ver o livro A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante 2001, p. 43

[2] Ver o livro Cristo, minha esperança, Ed. Quadrante 2003, pp. 55 ss