10-PACIÊNCIA

FAZER A VIDA AMÁVEL

10. PACIÊNCIA

Amor e paciência

Santo Tomás de Aquino, com muito poucas palavras, diz uma grande verdade: «Só o amor é causa da paciência» (Suma teológica, 2-2,q. 136,3).

O santo doutor tem presente o que escrevia São Paulo: A caridade – ou seja, o amor cristão – é paciente (1Cor 13,4).  Talvez você se lembre de que o Apóstolo, nesse capítulo treze da primeira carta aos Coríntios, enumera as qualidades do amor ao próximo, e menciona em primeiro lugar, encabeçando todas as outras, a paciência.

Isso ajuda-nos a compreender a importância da paciência no convívio. Sem ela, as outras manifestações do amor ao próximo podem ficar seriamente prejudicadas.

Imagine um pai muito sacrificado, trabalhador de qualidade, amante do lar e da vida em família, responsável pela formação espiritual e profissional dos filhos, mas que carece de paciência: é nervoso e impaciente, recrimina os atrasos, não tolera demoras, não sabe aguentar um filho que fala mais alto, ou esquece as coisas ou desobedece, não tolera que o contradigam e corrige agressivamente. Essa sua  impaciência acaba jogando uma nuvem de fumaça sobre as outras qualidades do seu amor, faz-lhes perder qualidade e, em boa parte, as estraga.

Nunca ouviu comentários como estes: “Minha mulher é uma santa, nada a reclamar, trabalha, cuida de tudo, não se poupa, é uma mãe solícita, é econômica…, mas tem um gênio muito difícil de aguentar; chega a esgotar a paciência, há horas em que preferiria não voltar a casa, para não ter que ouvir resmungos, queixas, recriminações e críticas…”.

O belo amor

Acabo de falar de um pai e uma mãe que têm amor, mas que são difíceis de suportar, porque são impacientes. Então, onde fica o que dizíamos do amor que é “causa da paciência?”.

É muito simples. O amor é como o fogo de uma lareira. A lareira está acesa, mas pode acontecer que a lenha, mesmo crepitando em chamas, esteja ardendo mal, e lance fumaça e fuligem que irritam o nariz, a garganta e os olhos.

De modo análogo, há pessoas boas, que têm acesa, sem dúvida, a chama do amor aos outros, mas que precisam de melhorar muito a qualidade da lenha (do coração e das virtudes) e da combustão (dos sentimentos), para que seu afeto se manifeste de modo amável e aconchegante. Que diria da qualidade de um amor que é sincero, mas  que asfixia e dá vontade de fugir? Pois bem, esse – insisto – é o amor sem paciência. Mães e pais, companheiros de trabalho que se julgam bons amigos, deveriam pensar nessas coisas, levar a mão à consciência, e decidir-se a mudar.

Uma oração da Igreja chama à Virgem Maria Mãe do belo amor. Nós temos que amar o próximo, e sobretudo ao “nosso próximo de cada dia” com belo amor. E qual é o belo amor? É o que não se limita a “querer bem” às pessoas, mas lhes “faz bem”, porque, além de ser acertado,  é amável, compreensivo e paciente, mesmo quando – para o bem deles – seja preciso dizer verdades duras, evitar concessões moles e tomar atitudes enérgicas, que eles vão demorar a compreender.

Essa purificação do amor, esse processo de libertação das fumaças da impaciência, exige muita oração e luta, um contínuo esforço. Não é impossível mudar. Depende de ganharmos, com a ajuda de Deus, a convicção de que “devemos” ser mais pacientes (sem a desculpa esfarrapada de que “eu sou assim”, “este é meu gênio”), de decidir-nos a sê-lo de fato, e de lutar para dar cada dia algum passo rumo à paciência.

O papa São Gregório Magno (século VI) dizia: «Se eu não faço o esforço de suportar o teu caráter, e se tu não te preocupas de suportar o meu, como poderá levantar-se entre nós o edifício da caridade se o amor mútuo não nos une na paciência»? (Homilia sobre Ezequiel).

O amor que se esforça

Não é preciso insistir – pois o sabemos bem – no fato de que todos nós temos defeitos. Todos o reconhecemos. Porém não reconhecemos tão facilmente que temos tais e tais defeitos e que eles que aborrecem e irritam – com razão – os demais. Que fazer? Lutar como um bom cristão, com as armas da oração e da mortificação:

a)  Orar mais. Sempre, como repetia São Josemaria Escrivá, com toda a tradição espiritual da Igreja, «a oração deve preceder, acompanhar e seguir todos os nossos esforços». Você já pediu a Deus mais paciência? Pediu-lhe compreender mais os outros, que é  o passo prévio para a paciência? Pediu a graça de vencer dificuldades concretas, como  palavras ásperas que você não contém, gestos de desaprovação, expressões de irritação, de cansaço das pessoas, etc.?

Já escolheu alguma jaculatória que possa repetir com fé durante o dia, como: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso”, ou Rainha da paz, rogai por nós”?

b)  Mortificações habituais. Sintetizando conselhos dados em outra publicação[1], vou-lhe sugerir alguns:

─ fazer o esforço de escutar pacientemente a todos, sem deixar que se apague o sorriso dos lábios;─ não andar comentando a toda a hora as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em geral, qualquer outro tipo de mal-estar pessoal; evitar também queixar-nos do calor ou do frio, do abafamento do local, do tempo que levamos sem comer nada…;

─ renunciar a utilizar expressões humilhantes, como “Você sempre faz isso!”, “De novo”, “Já é a terceira vez!”, “Já estou cansado”, etc.;

─ evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os outros quando eles, honestamente, não conseguem fazer as coisas no prazo certo;

─ não implicar com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar enquanto se lê ou se trabalha…;

─ saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende; ter especialmente a paciência, partindo do bê-á-bá, para esclarecer o funcionamento de aparelhos eletrônicos àqueles que não têm facilidade de manejá-los;

─ não buzinar irritadamente quando alguém reduz sem avisar a marcha do veículo, nos ultrapassa quase raspando, vira ou estaciona sem dar sinal, etc. É boa mortificação não olhar para a cara do “agressor”, pois assim é mais difícil perder a paciência. Melhor se, passada a primeira reação, invocamos seu Anjo da Guarda e rezamos uma Ave-Maria por ele.



[1] cf. o livo A paciência, publicado pela Ed. Quadrante