11-A PALAVRA

FAZER A VIDA AMÁVEL

11. A PALAVRA

As nossas palavras de cada dia

Vamos começar esta meditação com duas frases da Bíblia. Uma é do Antigo Testamento, do livro dos Provérbios: Os lábios do homem bom dão alimento a muitos corações (Pr 10,21). A outra, do Novo, é um conselho de São Paulo aos colossenses: Que as vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder a cada um oportunamente (Cl 4, 6).

Todos os dias dizemos palavras, mais ou menos. Todos os dias nos comunicamos, pelo menos um pouco, com outros. Que lhes trazem as nossas conversas? Mel ou fel?

Estamos meditando sobre “tornar a vida amável”. Vamos pensar aqui no que fazer para que as nossas palavras levem ao próximo mais mel e menos fel, e correspondam ao que diz o livro dos Provérbios: As palavras agradáveis são como um favo de mel, doçura para a alma (Pr 16,24).

Vamos fazer um exame, meditando em vários tipos de “boas palavras”,  que transmitem vida, ajuda e alegria aos demais.

Mostruário de palavras amáveis

a) Palavras de interesse. As nossas palavras sempre mostram o coração. Como dizia Jesus, a boca fala daquilo de que o coração está cheio (Lc 6, 45). Se valorizamos os outros, se – como cristãos que desejam viver de amor – queremos bem os demais, isso vai se notar:

─no modo de cumprimentá-los, não formal, nem com um sorriso forçado, de propaganda eleitoral, mas com olhos e gestos afetuosos e interessados.

─ no que lhes perguntamos, pois isso manifesta que as coisas deles nos interessam: família, trabalho, saúde …

─ no respeito com que ouvimos atentamente as suas opiniões, mesmo que divirjam das nossas.

─ no acompanhamento frequente de situações difíceis e dolorosas, manifestando interesse sobre o modo em que evoluem, e oferecendo orações.

b) Palavras de afeto. Palavras afetuosas sem exagero, com a naturalidade do que é verídico, sem espalhafato de gestos externos, mas com substância do amor. Sempre lembrarei as lágrimas de uma mulher que sentiu seu coração partir-se, no dia em que o marido, após muitos anos, começou a cumprimentá-la friamente, sem o diminutivo carinhoso que antes era habitual.

Convença-se de que não há nenhuma situação, agradável ou constrangedora, em que não possamos fazer surgir do bom tesouro do coração (Lc 6, 45) uma palavra afável, confortadora e construtiva[1].

c) Palavras de desculpa. Haverá carinho mais autêntico que pedir perdão com um sentimento palpável de autenticidade? Na vida, não só a educação, mas o coração, deveria mover-nos a pedir desculpas – sem comédia nem dramatização – por cada um dos nossos erros, esquecimentos e indelicadezas. “Desculpe, por favor, esqueci”,  “Falei o que não devia”, “Sinto muito”, “Foi erro meu”, etc.

d) Palavras de estímulo.

Que falta nos fazem! Muitas pessoas que se querem bem não percebem quando um filho, o marido ou a mulher, um colega, um empregado, precisam de uma palavra de compreensão, de ânimo, de estímulo. Não uma frase feita, vazia, mas um verdadeiro incentivo que, se vier do coração, chegará ao outro coração.

Imagine como deve ter reagido a mulher adúltera, já perto de ser apedrejada – porque diziam: Moisés mandou na lei apedrejar tais mulheres (Jn 8,5) –, quando Jesus, após afugentar, envergonhados, os que tinham as pedras nas mãos, disse-lhe, olhando-a com confiança: Eu não te condeno. Vai e não tornes a pecar (Jn 8, 11), confio em que de agora em diante serás boa e pura!

E Zaqueu? Aquele publicano pouco honesto, desprezado, que inesperadamente vê Jesus dirigir-se a ele, ao olhá-lo lá encarapitado na figueira, e dizer-lhe, escandalizando os “bons”: Zaqueu, desce depressa, porque é preciso que eu fique hoje em tua casa (Lc 19, 5). A confiança de Jesus fez Zaqueu converter-se e agir com grande generosidade.

e) Palavras de gratidão. O reconhecimento, a gratidão, é “mel” para o coração, torna amável o convívio. Com pessoas sinceramente agradecidas pelo que nós fazemos, é mais fácil que demos tudo de nós.

Nós não devemos ir atrás de reconhecimento e recompensa quando cumprimos o dever ou fazemos o bem, como ensina Jesus (cf. Mt 6,1). Mas o amor deve nos impelir a agradecer todo bem que recebemos de Deus e dos outros. Jesus ficou triste quando percebeu que, dos dez leprosos que curou, só um tinha voltado para lhe agradecer (Lc 17, 17-18).

«Obrigado – diz Chevrot – é uma pequena palavra alegre, é a palavra mágica que introduz no lar a delicadeza, a boa ordem e a serenidade» (As pequenas virtudes do lar, p. 22).

f) Palavras dignas. Às vezes, parece que a linguagem, nos diversos ambientes, está se deteriorando depressa, não só pela pobreza gramatical, mas sobretudo pela admissão massiva da grosseria e da fala chula. É como se muitos achassem bonita uma cultura de chiqueiro e lupanar.

Todos concordamos em que as palavras atenciosas e delicadas – sem artifício nem barroquismo – criam um clima amável, paz de ânimo e alegria na vida. Quando as palavras despencam na baixeza, também se deteriora o trato mútuo, e cai para baixo o sentido moral e a fineza da consciência.

g) Negativas amáveis.  Há pessoas que não sabem dizer não, e assim erram e complicam a vida própria e alheia. Porque, às vezes, é necessário dizer não. Ao lado da negativa enérgica perante o que ofende a Deus e mancha a consciência, há negativas necessárias em relação a coisas boas em si mesmas, mas que – tendo em conta o tempo e as circunstâncias do momento – produziriam uma desordem, talvez grave.

É o caso, por exemplo, de convites ou compromissos que, se aceitos, impediriam de cumprir devidamente deveres familiares ou profissionais importantes. Pode tratar-se, inclusive, de coisas santas, como a que expressa este ditado hispânico: «A mulher que pela Igreja deixa a panela queimar, tem a metade de anjo, do diabo a outra metade». É claro que isso não pode ser alegado jamais como desculpa para fugir de tarefas apostólicas ou caritativas que, com mais ordem e espírito de sacrifício, são perfeitamente compatíveis com os demais deveres.

O importante é saber dizer não de modo amável. Lembro o caso daquele padre nonagenário, meu amigo, que quando uma pessoa ia pedir-lhe confissão na hora exata em que já se encaminhava para o altar a fim de rezar a Missa, não respondia asperamente. Sorria e dizia, em tom afetuoso: “Claro! Com todo o prazer! Veja. Agorinha estou indo rezar a Missa, mas logo, logo, ao terminar, vou atender a senhora nesse confessionário ao lado com todo prazer”.

h) Palavras que trazem Deus. São as mais “amáveis”, desde que não sejam um sermão inoportuno. Serão boas e amáveis se brotarem de um afeto conhecido e sentido pela pessoa que ouve, se forem ditas na hora certa e não intempestivamente, e ainda se corresponderem a um exemplo pessoal que cativa o que escuta. Então, sim, é imensamente amável procurar despertar nos outros – em confidência, a sós – a sede de Deus, o desejo de conhecer a sua Palavra, o propósito de orar, de ler um livro de formação cristão, de participar de um grupo de espiritualidade, de procurar um orientador espiritual, etc.

i) Palavras sem voz. Não estou me referindo aos e-mails, whatsApps, “torpedos” ou cartas, que afinal são palavras com voz escrita. Refiro-me a outro tipo de linguagem. Quantas coisas podem ser ditas com a expressão facial, com um olhar, um sorriso, um gesto!

Todas essas formas de comunicar-nos, muito vivas, são facas de dois gumes. Podem “dizer” coisas horríveis (de ódio, de desprezo, de repúdio) ou coisas amáveis e santas (amor, carinho, pena, convite à calma, etc.).

Vale a pena pensar numa dessas formas de linguagem sem palavras que, no dizer dos que nos visitam, é caracteristicamente brasileira, graças a Deus: o sorriso aberto. Peço a Deus que o nosso povo não o perca nunca, apesar de que não faltam os que querem promover ódio, discórdia e lutas entre irmãos.

Lembre-se sempre do que dizia, e praticava, um santo dos nossos dias – São Josemaria –, que ficou totalmente cativado pelo nosso país (e isso não é ufania, é verdade): «Não esqueças que, às vezes, nos faz falta ter ao lado caras sorridentes» (Sulco, n. 57).

Que olhar amável, que sorriso, que palavras boas recebem de você os que o encontram todos os dias?

 



[1] Ver o livro A Língua, 2ª ed. Editora Quadrante, São Paulo 1996