13-O BOM EXEMPLO

FAZER A VIDA AMÁVEL

13. O BOM EXEMPLO

A chuva-criadeira

Você sabe o que é a chuva-criadeira? Se morasse na roça saberia que é a chuva que os lavradores mais agradecem. É aquela chuva fina e continuada, que penetra bem pela terra, e é a ideal para a germinação das sementes, o crescimento das plantas e a futura colheita.

Bem diferentes são as chuvas torrenciais, o granizo, as enxurradas e as inundações que assolam o campo e acabam com a plantação.

Na vida das famílias e, em geral, das diferentes comunidades humanas, existe também uma chuva fina, “criadeira”, que faz o bem penetrar suavemente nos corações e produz os melhores frutos: o bom exemplo.

E também existem, infelizmente, tormentas que arrasam. Você não percebeu o mal que faz aos filhos, por exemplo, o granizo das “broncas”e imposições violentas? Ou a enxurrada das palavras que jorram da boca da mãe, quando corrige e manda gritando sem parar.

É claro que a estiagem – ou seja, a indiferença cômoda e desligada de quem deveria dar exemplo –também deixa deserto o campo dos corações.

Jesus fala do exemplo

O Senhor fala-nos claramente do bom e do mau exemplo.

a) O bom exemplo: Vós sois a luz do mundo […]. Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus (Mt 5,14.16).

Ao dizer-nos que a nossa luz deve brilhar, Jesus não nos pede a fulguração vaidosa, a exibição; ao contrário, Ele diz: Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles (Mt 6,1). Mas, sim, pede que vivamos com autenticidade o amor e as virtudes dos filhos de Deus, porque então – mesmo que evitemos qualquer exibicionismo – a luz das autênticas virtudes cristãs brilhará de tal forma que iluminará e fará bem: Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha (Mt 5,14).

b) O mau exemplo: Como dói ao coração de Cristo o mal que fazemos aos outros – especialmente aos mais simples e inocentes – quando lhes damos mau exemplo. Dói-lhe tanto, que arranca dos seus lábios as palavras mais duras: Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! […]. Se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e o lançassem ao fundo do mar (Mt 18,6.7).

Ser luz

Jesus chama-se a si mesmo luz do mundo: Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jn 8,12).

E, a nós , como acabamos de ver, diz-nos que devemos imitá-lo: Vós sois a luz do mundo.

O que faz a luz? Mostra as coisas claramente, não entre neblinas ambíguas; faz enxergar os caminhos, os degraus das escadas por onde se deve subir, os obstáculos e perigos que é preciso contornar, os horizontes para onde caminhar.

É assim que faz a pessoa que – porque vive, não porque finge viver – dá bom exemplo. Um bom exemplo desperta, orienta e estimula mais do que cem palavras.

O livro do Eclesiástico ou Sirácida fala de dois tipos de pessoas: daqueles que chama ilustres, porque seus gestos de bondade não foram esquecidos. E dos que não deixam lembrança nenhuma: desapareceram como se não tivessem existido. Viveram como se não tivessem vivido (Eclo 44,1.9-10).

Em qual dos dois tipos você se encaixa? Por outras palavras: Entre as pessoas com quem convive você “deixa” alguma coisa? Você é luz, penumbra confusa ou trevas? Você será luz se lutar por ser coerente com a sua fé e por viver na prática o ideal de amor cristão, todos os dias. Será penumbra, se misturar uma fé fraca e mal formada, uma prática religiosa inconstante com uma conduta falha, que contradiga os valores do Evangelho.

Tomara que se possa aplicar a cada um de nós o que lemos neste ponto de Caminho: «Oxalá fossem tais o teu porte e a tua conversação que todos pudessem dizer, ao ver-te ou ouvir-te falar: “Este lê a vida de Jesus Cristo”» (n. 2).

A verdade ou a onda

Que vejam, diz Jesus. Que, na nossa conduta – nas palavras, ações, ajudas, dedicação, etc. – os outros possam “ver” e entender  a luz da verdade e do bem, como farol que assinala o bom rumo da vida, mesmo no meio das tempestades.

Nunca esqueçamos que a raiz dos nossos atos são as convicções. Delas, ou seja, da nossa fé, dos nossos valores morais firmes, da assimilação refletida e convicta da doutrina cristã, depende tudo o que nós – mesmo sem reparar – dizemos, fazemos e somos.

Se nos faltarem esses valores, as atitudes “exemplares” diante dos filhos (ir à Missa, falar de Deus, dar conselho moral) terão o ranço da falta de autenticidade, e afastarão. A mesma coisa acontecerá com as outras pessoas de nossas relações mais assíduas.

Quando vivemos com tibieza a fé, quando admitimos a incoerência entre fé e conduta, os que nos cercam deixam de ter um “farol” orientados e estimulante. Então, na maioria dos casos, o referencial deles passa a ser a “onda”: o que todo o mundo faz; o que se acha “atual”, “moderno”, mesmo que seja um absurdo; o que a mídia incute (com autêntica lavagem de cérebro) como conduta normal nos tempos atuais (mesmo que, como acontece com a droga, o álcool ou os transtornos sexuais arruíne a vida física e a moral).

Leia sem pressa o texto que cito a seguir, e me diga se não parece escrito hoje: «Uma das causas dos nossos males é que vivemos por imitação dos outros, e em vez de nos governarmos pela razão, deixamo-nos levar por aquilo que é costume. As coisas que não quereríamos imitar se as fizessem poucos, mal começam a fazê-las muitos, nós as seguimos, como se o fato de serem mais frequentes as tornassem mais honoráveis; até mesmo o erro nós o julgamos retidão quando se tornou generalizado».

O autor é um filósofo pagão, Sêneca, morto por ordem do imperador Nero – de quem fora preceptor –, em pleno século primeiro (Cartas a Lucílio, Carta 123).

Inspirando-se em outras palavras dele, o pensador francês Gustave Thibon escreveu: «A moda é a ditadura do efêmero que se exerce sobre os desertores da eternidade… A folha morta revoluteia de um lado para outro. Sua única pátria é o vento que a leva» (O equilíbrio e a harmonia, 1978).

A luz amável

Nós todos somos responsáveis por não abandonar aos caprichos do vento os que estimamos. Tudo depende de que nos decidamos a lutar seriamente por sermos cristãos consequentes, leais à fé, fiéis na conduta.

Então, como diz Jesus, brilhará a nossa luz diante dos homens (cf. Mt 5,16).

Pense nas “luzes” amáveis que vou mencionar a seguir, faça um exame da sua vida, e convença-se de que essas, e outras semelhantes, são as forças “construtivas”, a “chuva-criadeira” de vidas certas à nossa volta, no meio deste mundo de sombras, penumbras e miragens:

─ Ser uma pessoa simpática, aberta e feliz, que, no entanto, diz tranquilamente “não” ao que muitos julgam imprescindível para viver: “não” ao consumismo, à vaidade social, ao lucro a qualquer preço, ao status, ao sexo voraz, à liberdade sem limites escravizada pelo prazer…

─ Ser uma pessoa alegre, que é mais feliz quanto mais se dá aos outros, com um amor desprendido que não busca compensações.

─ Ser um coração que expulsa a mesquinhez, que mostra às claras que não admite as paixões baixas do calculismo, da inveja, do melindre, da suscetibilidade, do ressentimento e da vingança .

─ Ser uma pessoa que, com paz de espírito, sabe aceitar os seus erros, retifica de boa vontade e agradece as correções que recebe.

─ Ser um cristão que, sem beatices, só pelo seu exemplo diário de vida, atrai para Deus, desperta o “interesse” pela fé e faz nascer sede de conhecer mais e orar mais.

─ Ser akguém a quem se possam aplicar as palavras de um apologista cristão anônimo do século segundo: « Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes […]. Vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham contudo um modo de vida único e admirável […]. Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo» (Carta a Diogneto, nn. 5 e 6).

─ Ser alguém que, com seu exemplo, nos impele a olhar “para cima” e também “por cima” dos nossos esquemas mentais e das nossas opções rotineiras. Alguém que seja como uma bandeira  que nos faz caminhar com entusiasmo atrás dela, por estradas novas – mais altas e puras que as do mundo –, estradas que lá no fundo da alma nós já desejávamos trilhar para curar o coração, cansado de sábias espertezas, de vazios contínuos, de prudentes mediocridades.

─ Enfim, o cristão autêntico – pai, mãe, colega, amigo –, coerente e impregnado de fé e de amor, faz-nos descobrir o Norte, o verdadeiro Norte da vida – Cristo! – e para ele nos atrai. Desse cristão, idealista e alegre, irradia sem palavras um apelo que nos sugere: vale a pena viver assim e é possível viver assim; se nós o conseguíssemos, alcançaríamos a plenitude de paz e felicidade que sempre sonhamos e ainda não conquistamos [1]

 



[1] Cf. O homem bom: reflexões sobre a bondade, 2ª edição, Ed. Quadrante, São Paulo 2003. Ver também uma exposição mais extensa do tema no livro A força do exemplo, Ed. Quadrante, São Paulo 2005.