15-A BONDADE

FAZER A VIDA AMÁVEL

15. A BONDADE

A bênção de viver junto de uma pessoa boa

 

Poucas coisas tornam a vida tão amável como ter a sorte de conviver com uma pessoa boa, realmente boa.

Há bastantes anos eu escrevia – agradecido por ter tido a bênção de experimentá-lo muitas vezes – que «uma das impressões mais gratas e indeléveis da vida é ter conhecido um homem bom. Quando evocamos a figura de pessoas que nos marcaram pela sua bondade, sentimos um misto de admiração e agradecimento».

Mas se nos perguntarem por que dizemos de certa pessoa que é “boa” [1]. possivelmente teremos dificuldade de expressá-lo em poucas palavras. No entanto, é claro que consideramos boa uma pessoa que exerceu sobre nós uma influência benéfica, pois a bondade é captada sobretudo pelos seus efeitos, ela “irradia”.

Sempre que se dá uma “irradiação” – tanto no campo físico como no espiritual –, é porque há “algo intenso” que exerce um influxo. Do nada, nada irradia. Só a matéria incandescente emite claridade e calor. Da mesma forma, a influência de uma pessoa boa procede das qualidades interiores dela pessoa. Cristo ensina-nos isso com uma imagem: O homem bom tira boas coisas do seu bom tesouro; e o mau homem tira más coisas do seu mau tesouro (Mt 12, 35). Se não há em nós um “tesouro bom”, nada de bom vamos difundir.

O que é, porém, esse tesouro? Vale a pena esclarecê-lo refletindo um pouco sobre a diferença que há entre a “bondade aparente” e a “bondade real.”

A bondade aparente

Todos conhecemos pessoas que tem fama de serem boas. Parentes e conhecidos costumam referir-se a elas dizendo: “É tão bom!”… Mas dá o que pensar quando dizem: “Coitado, ele é tão bom!…”, e acompanham as palavras com um sorriso de condescendência. Por trás do “coitado” adivinhamos que se esconde um tipo de “bondade” que é própria dos que têm pouca firmeza de espírito, pouca força de caráter. Uma bondade mole e superficial.

Não se trata de pessoas que fingem ser boas para ficarem bem. Costumam ser homens ou mulheres que têm um coração bom – cheio de bons sentimentos – e uma inclinação natural para facilitar a alegria e o bem-estar dos outros. Mas essa bondade é tão frágil quanto simpática. É frágil porque se apoia sobre dois pilares falsos: um temperamento complacente e um sentimentalismo brando.

Tais pessoas não são “boas”. São apenas “bonachonas”  ou “bonacheironas”. Detestam brigas e desavenças. Não querem ver caras feias. A sua maior aspiração consiste em estar em paz com todos e gozar do apreço geral. Querem agradar a todo o mundo e, por isso, vivem concordado com tudo e cedendo em tudo, mesmo no que faz um mal tremendo àqueles que eles julgam amar.

O “bondoso superficial” parece ser compreensivo, mas é apenas condescendente. Não é que “compreenda”, isto é, que entenda profunda e amorosamente os outros para assim ajudá-los. Simplesmente, concorda com as opiniões, a conduta e os desejos de todos para ganhar, com a sua transigência, a estima alheia. É, portanto, um egoísta. Faz a vida agradável – sobretudo para si mesmo – ao preço de cobrir com panos quentes os vícios e erros que destroem moralmente os demais, especialmente as crianças e os jovens. Por duro que pareça, essas pessoas não são carinhosas: são cúmplices dos caprichos que desestruturam o caráter e a moral dos que eles julgam amar.

A criança mimada, que diz “papai é mau” quando este a contraria, não se cansa de dizer que a avó ou o avô são muito bonzinhos, porque lhe satisfazem todos os desejos.

O pai bonachão deixará passivamente que a filha adolescente se envolva com amizades bem pouco recomendáveis, porque não quer atritos e – além do mais – é muito incômodo carregar a etiqueta de “pai antiquado e tirânico”. Por isso, não será nem tirano – no que fará bem – nem pai – no que fará pessimamente. E quando estourarem as consequências lamentáveis da sua omissão, chorará lágrimas mansas e se consolará dizendo: “A juventude atual é difícil, é diferente da juventude dos meus tempos”. Mas a filha já estará moralmente aniquilada.

Tais bondosos não são bons, porque não nos fazem bem. A bondade, ou comunica um bem – um valor que aumenta a nossa qualidade moral –, ou não é bondade, e pode ser até muito maléfica.

A bondade real

Sublinhemos uma verdade básica: bom, de verdade, é somente aquele que nos faz bem, e o bem é acima de tudo o valor moral e espiritual de uma pessoa. Portanto, bom mesmo é somente aquele que nos ajuda a ser melhores.

Quando já vivemos um bom pedaço da vida e olhamos para trás, contemplamos um vasto panorama de vicissitudes diversas, de erros e acertos, de perigos que nos ameaçaram, de dúvidas que nos paralisaram, de alegrias e tristezas. Mas, no meio dessas lembranças, muitos de nós podemos ver brilhar uns pontos de luz que jamais esqueceremos: pessoas que, no momento em que mais precisávamos, nos fizeram bem: “Fulano – dizemos – ajudou-me muito”, “significou muito para mim”; “graças a Sicrano, consegui superar um problema grave (ou uma crise familiar ou um estado de ânimo) que poderia ter-me arrasado”…

Mesmo sem darmos por isso e sem dizê-lo explicitamente, estamos falando de homens ou mulheres bons. Inconscientemente, possuímos a convicção de que foram bons para nós aqueles que nos despertaram para ideais mais nobres, que nos deram a mão para levar-nos a encontrar um sentido mais alto da vida, que iluminaram as nossas escuridões interiores fazendo-nos compreender aquilo por que realmente vale a pena viver.

Em suma, foram “bons” os que nos elevaram a um maior nível de dignidade moral e nos ajudaram a ser melhores, mesmo que para isso tivessem precisado, em algum momento, de fazer-nos sofrer, e até sofrer bastante. Contribuíram, assim, para que descobríssemos e abraçássemos o bem, e não se contentaram com deixar que nos “sentíssemos bem”…

Se, para isso, foi necessário que nos aplicassem uma enérgica e paciente “cirurgia”, não duvidaram em fazê-lo, mesmo sabendo que, de início, não os compreenderíamos. Souberam ter a coragem – pensemos, por exemplo, nos pais e educadores – de dizer-nos serenamente “não” e de manter essa posição em defesa do nosso bem, ainda que nós a interpretássemos como teimosia prepotente e irracional. Passado o tempo, compreendemos e agradecemos o que essa energia amorosa significou para nós.

O homem bom recusa-se a tomar como princípio de comportamento o infeliz ditado segundo o qual “aquele que diz as verdades perde as amizades”. Pratica a lealdade sincera quando o nosso bem está em jogo. Certamente, não confunde a sinceridade com a franqueza rude, que se limita a lançar-nos em rosto os nossos erros e defeitos em tom áspero e acusatório. Mas arrisca-se de bom grado a ser incompreendido, a ser tachado de moralista e de intrometido, quando percebe que precisa falar-nos claramente, caridosamente mas sem ambiguidades, e não hesita em praticar aquela excelente obra de misericórdia que consiste em “corrigir o que erra”, a fim de levá-lo a encontrar a retidão do caminho moral.

Calar-se, deixando o barco correr e afundar-se é, sem dúvida, mais cômodo. Alhear-se, ou até mostrar-se conivente com os erros alheios, atrai benevolências e simpatias. Mas é uma forma covarde de omissão e uma triste colaboração com o mal.

Esboço do homem bom

Homem bom é, pois, aquele que exerce sobre nós uma influência benfazeja, uma influência que tem como efeito elevar-nos, ajudar-nos a alcançar uma maior altura moral.

Por isso, o homem bom tem, principalmente, uma qualidade: o dom de despertar-nos do sono espiritual, da letargia moral, da mediocridade e da acomodação. É alguém que nos impele a “olhar para cima” e nos ajuda – sobretudo com o seu exemplo – a ver a bondade como uma meta acessível.

O ambiente que nos cerca leva-nos facilmente a ser medíocres. Os idealistas são poucos, e não raro parecem ingênuos ou tolos, se os compararmos com muitos dos que vemos triunfar ou, pelo menos, singrar na vida: os egoístas, os espertos e os aproveitadores. Aspirar a pautar a vida pela honestidade, pela fidelidade, pelo mérito, pelo desprendimento ou pela sinceridade – para falar apenas de algumas facetas do ideal moral – pode ser algo de muito belo na teoria, mas dá a impressão de ser muito pouco útil na prática, pouco eficaz na luta pela vida. Na “selva” do mundo, parecem identificar-se o “bom” e o “bobo”.

Daí que, lá no fundo, muitos prefiram ser “como todo o mundo”. E se um idealismo maior lhes bate à porta da alma, afastam-no com desconfiança: não vamos complicar a vida – dizem –, não vamos ser tolos, é mais garantido ficar na “média”, como todos fazem; os Ícaros que pretendem voar muito alto com asas de cera acabam despencando no chão.

Até que, numa hora qualquer da vida, deparamos com um homem bom. O primeiro choque que experimentamos ao tomar contacto com ele é o desconcerto. Começamos a vislumbrar nessa pessoa algo de inexplicável – pois foge aos padrões habituais – e, ao mesmo tempo, de estranhamente atraente.

Percebemos que é alguém que pensa de maneira diferente, vive de maneira diferente. Acredita em valores mais altos, abraça-os com serena convicção e não vacila em pautar por eles a sua vida. Prescinde tranquilamente do que a maioria considera imprescindível para ser feliz: o egoísmo interesseiro, o comodismo, o culto do prazer e do bem-estar, o jogo de pequenos e grandes enganos para obter vantagens… Abraça com firmeza a honestidade, a dedicação desinteressada, o sacrifício, o amor serviçal, a renúncia voluntária, para fazer felizes os outros… Parece estar a um milímetro da utopia, da loucura ou da estupidez. E, no entanto, deixa-nos a impressão indestrutível de ser infinitamente mais alegre, mais realizado e vitalmente mais rico do que a massa amorfa sobre a qual, mesmo sem o pretender, ele se eleva.

É por isso que o homem bom nos obriga a olhar “para cima” e também “por cima” dos nossos esquemas mentais e das nossas opções rotineiras. É como que uma bandeira que incita a entrar por caminhos novos, caminhos que lá no fundo da alma nós desejaríamos trilhar para curar o coração cansado de sábias espertezas e de prudentes mediocridades. E, com o seu exemplo, vem a dizer-nos que esses caminhos são possíveis e mostra-nos o roteiro a seguir.

A limpa autenticidade, o exemplo, as palavras e a ajuda da mulher ou do homem bons faz-nos descobrir o verdadeiro norte da vida, e para ele nos atrai. Deles irradia, sem palavras, um apelo que nos sugere: vale a pena viver assim e é possível viver assim; se nós o conseguíssemos, alcançaríamos a plenitude de paz e felicidade que sempre sonhamos e ainda não conquistamos.

Isto é “fazer a vida amável” num plano infinitamente mais verdadeiro que todas as simples atenções gentis dos que nos querem bem e as compreensões brandas dos bondosos.

 



[1] Cf. o livro O homem bom: reflexões sobre a bondade, 2ª edição, Quadrante 2003, que é tido presente ao longo deste capítulo.