16- O MAIOR BEM

FAZER A VIDA AMÁVEL

16. O MAIOR BEM

O ápice da bondade

No capítulo anterior, víamos que o homem bom não é aquele que nos faz “sentir-nos bem” , mas o que nos “faz bem”, porque nos ajuda a “ser bons”, porque nos eleva a uma altura espiritual e moral onde encontramos o nosso “verdadeiro bem”.

Dentre os bens que possamos fazer aos outros, qual é o maior? Qual é o que lhes pode tornar a vida mais amável, mais cheia de paz e de alegria?

Se fizéssemos essas perguntas a Nosso Senhor, provavelmente Ele nos diria: “Eu já lhe  respondi. Leia o Evangelho”.

Onde? Em que parte do Evangelho? Em quase todo ele, teríamos que dizer. Basta que lembremos, por exemplo, duas passagens que falam por si.

─ A primeira é a da cura de um paralítico, realizada no começo da vida pública do Senhor. Atraído pela fama de Jesus, um pobre paralítico e mais quatro amigos decidem ir ao encontro dele para lhe pedir a cura. Não podendo entrar na casa pela aglomeração de povo, sobem ao terraço, abrem um buraco e por ali descem a maca com o doente até a presença de Jesus.

Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: “Filho, perdoados te são os pecados”. Já reparou? Não fala da enfermidade. Mais do que a doença física, o que dói a Cristo é o pecado, a doença da alma. Por isso, antes de mais nada quer sarar essa alma com a graça do seu perdão: esse é o “maior bem”; só depois vai sarar também o corpo, e dirá: Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa! (Mc 2,1-12).

─  a segunda passagem é um relato das andanças de Jesus pela Galiléia, pregando e curando a muitos. Era uma época de começos, em que aumentava cada vez mais o número dos que iam à sua procura. Num dado momento, Jesus, vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida, como ovelhas sem pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas (Mt 9,36 e Mc 6,24). A sua maior pena era a desorientação espiritual e moral de tantas almas, com o risco de se perderem por não achar o caminho de Deus.

Sim. O que causa a máxima dor a Jesus, o que o move à compaixão, é ver tantas almas “perdidas”, tantas ovelhas desgarradas (cf. Lc 15,3-7) . Ele veio para salvá-las: O Filho do Homem veio dar a sua vida pela salvação de muitos (Mt 20,28). Veio para anunciar a todos que o Reino de Deus está próximo e para lhes lançar seu apelo: Convertei-vos e crede no Evangelho (Mc 1,15). Tão claro é esse ensinamento de Jesus, que Ele pôde afirmar  categoricamente: Que aproveita ao homem  ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? (Mt 16,26).

Que olhos tem o nosso amor?

Reconheçamos que é frequente querer bem as pessoas, desejar que tenham uma vida amável… e, no entanto, esquecer-nos de  que, sem Deus, todos os outros benefícios ficam sendo efêmeros e decepcionantes.

Que olhos tem o nosso amor? Será que não somos com o louco que, encontrando um ferido na estrada com uma grave hemorragia, em vez de pedir urgentemente uma ambulância, se limitasse a enxugar-lhe o suor da testa, a refrescar-lhe com água a cabeça e a recolocar-lhe um sapato caído na valeta. Belo amor! Coisa de doido, não é?

Pois bem, por duro que seja dizê-lo, muitos pais e mães, irmãos, mestres, amigos, colegas, etc., agem como esse doido. Querem fazer o bem aos outros, fazer-lhes a vida amável e, para isso, facilitam-lhes bens materiais, culturais e afetivos (coisas boas, embora insuficientes), mas nada fazem para curar a chaga letal da ausência de Deus.

Você não percebe que a sociedade atual, que às vezes tanto nos preocupa (drogas, crime, corrupção, sexo doentio, ruína das famílias…),  grita ao nosso coração: “Cego! Abra os olhos! Compreenda que tudo isso é falta de Deus”

Que razão tão grande tinha São Josemaria, quando escrevia: «Convençamo-nos de uma realidade sempre atual: chega sempre um momento em que a alma não pode mais; em que não lhe bastam as explicações vulgares; em que não lhe satisfazem as mentiras dos falsos profetas. E, mesmo que então não o admitam, essas pessoas sentem fome de saciar a sua inquietação com os ensinamentos do Senhor» (Amigos de Deus, n. 260).

O escritor Pierre Blanchard conta que o romancista inglês G. Borrow, passando perto de um acampamento de ciganos, foi confundido com um ministro religioso.: “Senhor, padre ou ministro – suplicou um deles –, dê-nos uma boa palavra, dê-nos Deus!” “Eu não sou, respondeu, nem padre nem ministro. Que o Senhor tenha misericórdia de vocês. Não lhes posso dizer outra coisa”. Enquanto se afastava dando às crianças algumas moedas, uma velha gritou-lhe: “Guarde o seu dinheiro. Nós não temos precisão de dinheiro; dê-nos Deus – Give us God!”. (A santidade e o nosso tempo, Ed. Aster, p. 87)).

Muitos, sem terem talvez consciência disso, nos gritam sem palavras: “Por que não nos dá Deus?” Não fechemos os olhos a essa realidade,  que Bento XVI sintetizava assim na Encíclica sobre o Amor de Deus: «Muitas vezes, é precisamente a ausência de Deus a raiz mais profunda do sofrimento» (Deus caritas est, n. 31).

Ninguém dá o que não tem

“Dê-nos Deus!”. Mas, para dar, é preciso ter. Por isso, será bom lembrar brevemente três condições básicas que precisamos possuir para poder levar Deus aos outros.

a) Primeira: Convicção. Já viu com que naturalidade – às vezes com que ardor! – falam os torcedores sobre o seu time; ou os amantes do exercício físico sobre o valor do seu método; ou os vegetarianos sobre o valor da sua dieta; ou os viciados em celular sobre um novo aplicativo… Desejam falar, dar a conhecer, convencer. Tem a “convicção” de que aquilo é “bom” e querem compartilhá-lo conosco.

Será que não é a nossa falta de convicção, a nossa falta de fé, a fraqueza que nos leva a deixar aqueles que amamos privados do maior bem. É a fé morna, que nos inibe e trava a língua quando deveríamos falar de Deus com alegria e naturalidade? Medite, então, sobre duas seguintes qualidades, que são, por sua vez, condições necessárias para termos convicção.

b) Segunda: Doutrina. É preciso conhecer o Evangelho, a vida de Cristo, a doutrina cristã, a riqueza inexaurível dos ensinamentos autênticos da Igreja. Sem isso, as nossas “convicções” serão meras “opiniões”, tão voláteis como qualquer outra opinião sem fundamento. Reconheçamos que nos falta formação. É urgente decidir-nos a aumentar muito a nossa formação.

Você entende que não podemos levar Cristo aos outros com entusiasmo, se o conteúdo da nossa fé é pobre, oco, tão pouco definido como uma nuvem ao vento. Faz-nos muitíssima falta possuir as verdades-luz do Cristianismo – Eu sou a Luz do mundo, diz Jesus (Jn 8,12) –, as ideias-mestras com todas as suas luzes, as certezas arraigadas e assumidas na vida real. Só então poderemos ser a fonte que enche de vida os desertos espirituais dos demais.

Se ainda não o fez, reafirme agora os seus propósitos de ler e meditar diariamente o Evangelho (o Novo Testamento), de dedicar uns minutos diários a leituras refletidas sobre a vida de Cristo, sobre as verdades da fé e a riquíssima espiritualidade cristã, a estudar seriamente a doutrina católica para poder explicar, esclarecer, tirar dúvidas e vencer preconceitos… Isso é possível, mais, é necessário para quem deseja amar de verdade os outros e dar-lhes o maior bem.

c) Terceira: Calorias espirituais. Estou usando uma expressão – “calorias espirituais” – que empregava São Josemaria ao falar do apostolado: «De quantas calorias espirituais não precisas! – E que responsabilidade tão grande, se esfrias! E (nem quero pensar) que crime tão horroroso se desses mau exemplo!» (Caminho, n. 944).

“Calorias” são: vida interior, vida espiritual, piedade; vida de oração, vida eucarística, vida de intimidade com Deus, vida de amor filial a Maria; e também luta perseverante e mortificação generosa para superar, com a ajuda da graça, os nossos defeitos.

Quando procuramos viver assim – unidos a Deus como o ramo da planta está unido ao pé (cf. Jn 15,1 ss) – estamos garantindo a eficácia apostólica. Então experimentamos o que São Josemaria exprimia com estas palavras: «É preciso que sejas “homem de Deus”, homem de vida interior, homem de oração e sacrifício. – O teu apostolado deve ser uma superabundância da tua vida “para dentro”» (Caminho, n. 961).

Acabamos de focalizar as três condições, que são a base necessária para fazer “o maior bem”. Sobre elas, como sobre um alicerce, deveremos colocar a nossa ação, o nosso modo de fazer “o maior bem”. Consideraremos isso no próximo capítulo.