17-COMO DAR O MAIOR BEM

FAZER A VIDA AMÁVEL

17. COMO DAR O MAIOR BEM

O sal da terra

Acabamos de ler, no capítulo anterior, aquele grito da velha cigana, que expressa – como um eco que reboa pelos quatro pontos cardeais – o pedido silencioso que nos dirigem muitas almas: “Dê-nos Deus!”.

Vimos também três condições que precisamos ter para podermos ser portadores de Deus ao coração dos outros: convicção, doutrina e união com Deus (vida interior).

Essa última condição é tão básica, que sem ela a nossa ajuda ficaria tão oca como um bronze que soa (1 Cor 13,1). Portanto, a coisa mais prática que devemos procurar – se quisermos fazer esse bem maior aos demais – é termos uma vida de oração e de mortificação cristã cada vez mais intensa e sincera.

Não se lembra do que Jesus dizia do sal? Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o seu sabor, com que será salgado? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e pisado pelos homens (Mt 5,13). Perguntemo-nos: Eu sou sal, eu sirvo, eu tenho em mim – impregnando os pensamentos, palavras e ações – o “sabor” de Deus?

Ao pensar nisso, compreendemos que não é egoísmo mas amor o que São Josemaria pedia quando dizia: «Alma de apóstolo: primeiro, tu». E esclarecia: «Nunca sejais homens ou mulheres de ação longa e oração curta». «É inútil que te afadigues em tantas obras exteriores, se te falta Amor. – É como costurar com agulha sem linha» (Caminho, nn. 930, 937 e 967).

Esforcemo-nos por enraizar o amor a Deus e ao próximo na nossa alma! Não nos aconteça o que o mesmo santo diz, com umas palavras que deixaram pensativo a mais de um cristão: «De longe, atrais: tens luz. – De perto, repeles: falta-te calor. – Que pena!»  (Caminho, n. 459).

Só o amor abre caminhos

Modos de fazer apostolado? Incontáveis! Tantos quantos o amor sincero a Deus e ao próximo é capaz de descobrir e inventar. Não há aqui nem trilhos, nem bitolas, nem cartilhas, nem manuais de instruções. Ame a Deus, queira de verdade a todos… e enxergará o caminho que deve seguir em cada caso.

“Queira de verdade”, acabamos de dizer. Para um cristão comum – o cidadão católico comum, solteiro ou casado −, o apostolado brota naturalmente da amizade, do carinho, do afeto para com os familiares, colegas, o namorado ou a namorada, os amigos…

Se possuímos o que Santo Tomás chamava “amor de amizade”, não falaremos das coisas de Deus – ao fazer apostolado − adotando ares de superioridade, nem nos apresentaremos como “mestres” nem como “pregadores”; não ficaremos insistindo como uma mosca pegajosa, se o outro, livremente, nos mostrar que “agora” não quer tratar disso. O bom caminho, então, será rezar mais por ele e aguardar, mas sem permitir que o afeto, a amizade sincera, esfriem nem um pouquinho. Esperaremos, confiantes em que Deus tem as suas horas.

Acontece, porém, que para alguns comodistas a hora de Deus é “nunca”. Sempre acham falsas desculpas para abandonar espiritualmente os outros: “Quem sou eu?” “Eu não sou santo” “Tenho vergonha, sou tímido” “Por que me intrometer na vida dos demais?”… Quem tem amor de amizade supera essas inibições egoístas, como o atleta olímpico que aceita o desafio de saltar com vara o sarrafo mais alto. Você tem medo? Tem respeitos humanos? Pense, então, que a “vara” do seu Amor é curtinha e quebradiça.

É claro que estou falando para cristãos que desejam fazer apostolado e, portanto, são capazes de entender essas coisas. A eles se dirige a Igreja quando ensina que, em virtude de sua união com Cristo no Batismo, é missão de todos fazer apostolado. E que o  apostolado “específico” dos leigos é o que fazem no ambiente cotidiano: na família, no trabalho, na vida em sociedade bem no meio do mundo[1].

Rumos do apostolado dos leigos

Vejamos alguns possíveis rumos desse apostolado, sugeridos por um dos maiores promotores do ideal de santidade e de apostolado dos cristãos comuns no meio do mundo: São Josemaria Escrivá.

São Josemaria não se cansava de ensinar que a amizade, o trato confiante com os outros no convívio diário, é o primeiro e principal caminho que se abre para esse apostolado. Dois textos dele são muito ilustrativos:

─ «Faze a tua vida normal; trabalha onde estás, procurando cumprir os deveres do teu estado, acabar bem as tarefas da tua profissão ou do teu ofício, superando-te, melhorando dia a dia. Sê leal, compreensivo com os outros e exigente contigo mesmo. Sê mortificado e alegre. Esse será o teu apostolado. E sem saberes por que, dada a tua pobre miséria, os que te rodeiam virão ter contigo e, numa conversa natural, simples − à saída do trabalho, numa reunião familiar, no ônibus, ao dar um passeio em qualquer parte − falareis de inquietações que existem na alma de todos, embora às vezes alguns não as queiram reconhecer: irão entendendo-as melhor quando começarem a procurar Deus a sério» (Amigos de Deus, n. 273).

─ «Essas palavras que tão a tempo deixas cair ao ouvido do amigo que vacila; a conversa orientadora que soubeste provocar oportunamente; e o conselho profissional que melhora o seu trabalho…; e a discreta indiscrição que te faz sugerir-lhe imprevistos horizontes de zelo… Tudo isso é “apostolado da confidência”» (Caminho, n. 973).

Outros possíveis “rumos” do apostolado dos cristãos leigos na vida cotidiana são os seguintes:

─ São Josemaria fala do “apostolado epistolar” (Caminho, n. 976). Quando escreveu essas palavras, os meios de comunicação eram as cartas, os telegramas e os telefonemas. Hoje, temos uma riqueza enorme de possibilidades na Internet e nas redes sociais. Para alguns, são um meio terrível de matar o tempo e de perder a alma. Procuremos que, para nós, sejam um meio esplêndido de diálogo, de amizade e de apostolado. Como é que utilizamos essa arma preciosa que Deus põe à nossa disposição?

─ Também fala do “apostolado do almoço” (Ibidem, n. 974). Hoje é tão comum almoçar com colegas da universidade, da empresa, da fábrica, do escritório. É bonito ver como muitos aproveitam esses breves intervalos para consolidar a amizade, puxar com naturalidade assuntos que despertam o interesse por temas éticos e cristãos…, e bastantes deles acabam por conseguir –em uma sala do próprio local de trabalho − reunir vários colegas para estudarem juntos temas sobre o sentido da vida, sobre a ética das virtudes, sobre os Evangelhos, sobre o Catecismo da Igreja Católica, etc. Você já tentou algo disso?

─ Mais um meio eficaz de apostolado. O que descreve o número 467 de Caminho: «Livros. – Estendi a mão, como um pobrezinho de Cristo, e pedi livros. Livros! Que são alimento para a inteligência católica, apostólica e romana de muitos jovens universitários. − Estendi a mão, como um pobrezinho de Cristo… e sofri cada decepção! − Por que será que não entendem, Jesus, a profunda caridade cristã dessa esmola, mais eficaz do que dar pão de bom trigo?». Isso, que foi escrito para estudantes, serve para todos em qualquer situação e idade. Que fazemos?

─ Por fim, não esqueçamos que – como repetia incansavelmente São Josemaria − «todo apostolado deve estar precedido, acompanhado e seguido pela oração». Queremos eficácia no apostolado? Sigamos então o roteiro que ele indica, e que São João Paulo II citou como ensinamento fundamental  na homilia da cerimônia de canonização de São Josemaria: « Primeiro, oração; depois, expiação; em terceiro lugar, muito em “terceiro lugar”, ação». (Caminho, n. 82).

O Salmo 118(119),32, fala de que Deus dilata o nosso coração, para «corrermos»  pelos seus caminhos. Tomara que dilate o nosso, faça surgir nele planos e iniciativas, para assim chegarmos mais longe no nosso apostolado.

 



[1] Concílio Vaticano II: Constituição Lumen Gentium nn. 30 e ss; Decreto Apostolicam actuositatem, sobre o apostolado dos leigos, nn. 3 e ss.