20-A SERENIDADE

FAZER A VIDA AMÁVEL

20. A SERENIDADE

Uma virtude amável

Todos nós conhecemos pessoas profundamente serenas, portadoras de paz, que somente com a sua presença comunicam tranquilidade e bem-estar a todos os que as cercam. Basta elas aparecerem para que, nos corações, brotem espontaneamente a paz e o sorriso, e as preocupações fiquem para trás.

Que contraste com aquelas outras pessoas que andam inquietas, angustiadas, agitadas e, por isso mesmo, intranquilizam os outros com suas apreensões e receios.

─ Talvez, lendo isso, você pense: – Como é bom ser calmo!

─ Certamente é ótimo ser calmo; mas – como veremos a seguir – ser sereno é muito melhor.

O coração calmo

Calma é a pessoa que sabe colocar a reflexão tranquila acima da imaginação agitada;  que sabe refletir, meditar, e não deixa extravasar à toa as suas preocupações. Para sermos assim calmos precisamos de equilíbrio psicológico, visão ampla, prudência e sensatez.

Para sermos serenos precisamos, além disso, de fé. Meditaremos sobre isso na próxima seção deste capítulo.

Calma, equilíbrio, sensatez…, acabamos de dizer. Todos – crentes ou não – temos necessidade dessas virtudes, pois o maior gerador de ansiedade – mais do que os problemas e incertezas da vida – é a nossa imaginação descontrolada. Se a deixarmos à solta, vai povoar a nossa cabeça de nuvens ameaçadoras, de «cruzes imaginárias que nos oprimem com o seu peso… São fantasmas forjados na tua cabeça, fantasmas que a fantasia reveste de cores vivas, atribuindo-lhes mãos largas e temerosas e pernas ágeis e velozes… Uma montanha que, na realidade, é um grão de areia»[1].

Um dos melhores remédios contra essa obsessão inquieta costuma ser a sinceridade. Não se trata de comunicarmos logo as nossas apreensões a pessoas que vão ficar angustiadas e não ajudarão; mas de abrir-nos com um confessor ou orientador espiritual,  ou com outra pessoa madura e preparada, que nos possa ajudar a ponderar as coisas de modo equilibrado.

Outro fator de calma interior costuma ser a ordem (nos horários do dia, nos planos de trabalho e de  piedade, etc). Se não tivermos ordem, a preocupação com as coisas pendentes, a nebulosa das “mil coisas que teria que fazer, que vou esquecer, que não vou ter tempo de realizar”, etc, será uma fonte de ansiedade inevitável, de perda de tempo e de ineficácia. A desordem tira-nos a paz e leva-nos a contagiar a nossa afobação aos demais.

No texto que citava acima, o autor acrescenta que «um pequeno gesto da tua vida de fé seria suficiente para fazer desaparecer os fantasmas». Esse pensamento nos introduz já no tema da serenidade.

O coração sereno

Um coração sereno tem fé. Um cristão sereno mantém a paz mesmo que haja na vida nuvens e tormentas, problemas graves e humanamente insolúveis, que a reflexão, por mais sensata que seja, não consegue entender nem equacionar. Qual é o segredo?

O segredo consiste em que a serenidade, mais do que um modo de reagir, é um modo de ver. É sereno quem consegue contemplar a vida sob a luz de Deus ou, como dizia Michel Quoist, «esposando o olhar divino, a visão divina de nós mesmos, dos outros, das coisas, da humanidade, da história, do universo, do próprio Deus »[2].

É significativo verificar que Jesus não só aconselha, mas nos manda que sejamos serenos. É lógico perguntar-nos como é possível que nos ordene uma coisa que parece fora do nosso domínio? A resposta é porque é Ele próprio quem nos abre o caminho da paz (Lc 1,79): com a certeza inabalável de que Deus é o nosso Pai e de que está sempre junto de nós cuidando da nossa vida a toda hora, com solicitude amorosa: Não se vendem dois passarinhos por um vintém? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade do vosso Pai. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Vós valeis bem mais do que os pássaros (Mt 10,28-31).

 No Discurso da Montanha, Cristo repisa:  Não vos inquieteis, não vos aflijais, não vos preocupeis com o dia de amanhã (cf. Mt, 6,25-34). Três verbos portugueses (inquietar, afligir, preocupar) que traduzem um único verbo grego (merimnein) repetido por Jesus nesse trecho do discurso e que, no original, significa ficar inquieto. Jesus não censura a “preocupação” natural e positiva de prever, preparar, programar aquilo que depende de nós. Fala de outra coisa. Diz-nos que um filho de Deus não deve perder a paz, nem mesmo diante das “preocupações” mais assustadoras e os apertos mais prementes.

A razão que dá é clara para quem tem fé. Temos que ficar em paz, porque vosso Pai vê, vosso Pai sabe (cf. Mt 6,26.32): Ele é um Pai que nos ama infinitamente (Jn 16,27), e que, com a solicitude da sua Providência, faz concorrer todas as coisas – mesmo as que nos parecem mais horríveis – para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28).

A fé dos filhos de Deus

O cristão que tem essa fé (a fé que todos deveríamos pedir ao Senhor), mantém a serenidade – ou a recupera, se a perdeu – porque possui uma confiança absoluta no que Deus quer ou permite para nós. A sua oração de fé é esta: «Senhor, o que Tu quiseres eu o amo» (Caminho, n. 773).

Repitamos com segurança “Deus é meu Pai”, e não fiquemos “cozinhando” as nossas preocupações na câmara fechada da imaginação, falando só conosco num monólogo asfixiante. « Nós, filhos de Deus, falamos com nosso Pai que está nos Céus» (Caminho, n. 115); e não nos esquecemos em momento algum de que “Ele vê, Ele sabe, Ele me ama”.

Mal uma preocupação começar a inquietar-nos, imitemos Nossa Senhora que, quando não entendia acontecimentos dolorosos (dar a luz num estábulo, não achar o Menino depois de três dias de busca, etc.), ficava guardando, ponderando essas coisas dentro do seu coração, em confidência íntima com Deus (cf. Lc 2,19 e 51). Como no dia da Anunciação, a Virgem repetia então: Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).  E experimentava que «a aceitação rendida da Vontade de Deus traz necessariamente a alegria e a paz: a felicidade na Cruz» (Caminho, n. 758).

Esse abandono nas mãos de Deus nada tem a ver com a passividade fatalista e triste de quem nada faz e fica só esperando que Deus lhe dê tudo feito. Pelo contrário  –por ser um grande ato de confiança em Deus –, leva a vencer o desânimo, aconteça o que acontecer, a expelir o pessimismo, e impele-nos a trabalhar mais do que nunca, a lutar com energia, a perseverar heroicamente no esforço – apoiado na oração – por realizar a missão que Deus nos confia na vida.

Vejamos um belo exemplo disso. Em 27 de setembro de 2014, foi beatificado o primeiro sucessor de São Josemaria Escrivá à frente do Opus Dei, o Bem-aventurado Álvaro del Portillo. No Decreto da Santa Sé sobre a qualidade das suas virtudes, lê-se: «Era um homem de profunda bondade e afabilidade, que transmitia paz e serenidade às almas. Ninguém se lembra de algum gesto seu pouco amável, de um movimento de impaciência perante as contrariedades, de uma palavra de crítica ou de reclamação por alguma dificuldade».

Ao mesmo tempo, os que o conheceram de perto testemunham unanimemente a sua coragem para enfrentar dificuldades; a sua fortaleza em face das perseguições em tempos de guerra e das incompreensões em tempos de paz; a sua incrível capacidade de trabalho; a audácia com que se lançava a iniciativas magnânimas; a impressionante fecundidade de suas realizações intelectuais, pastorais e administrativas e dos seus escritos e publicações – coisas todas que só se podem explicar por um quilate excepcional de fé e de amor a Deus.

Praticava o que pregava: «Se todos nós – dizia numa homilia – soubermos ponderar, amar, abraçar-nos à Vontade de Deus, experimentaremos o sabor incomparável der estar com a Trindade, mesmo nos momentos mais duros … A paz resulta da união com Deus em todos os nossos pensamentos, palavras e ações» (Beato Álvaro, Homilia 14/02/1992 e Carta 01/10/1989)).

Se – como aconteceu na vida dos santos – procurarmos viver da fé e do amor de Deus, nunca estaremos sós nem desistiremos de nada bom. Nunca nos afundaremos nem desanimaremos os demais. Haja o que houver, repousaremos no Coração de Cristo e nos reconfortaremos, com nova vitalidade, nos braços maternos da Virgem Maria.

Mesmo que não consigamos compreender as contrariedades e sofrimentos, nos abandonaremos com confiança, e trabalharemos mais do que nunca com um sorriso nos lábios. Teremos paz e daremos paz. Seremos como o Beato Álvaro, que conseguia fazer num dia o que outros fariam em três dias, e «nunca deixava de ter um sorriso franco, cheio de carinho, que efetivamente comunicava paz e alegria»[3] a todos os que estavam com ele ou colaboravam com ele.



[1] Cf. Salvatore Canals, Reflexões espirituais, Ed. Quadrante, s/d, p. 103

[2] Michel Quoist, Réussir, Les Éditions Ouvrières, Paris, 1961, pág. 201

[3] Cf. Javier Medina Bayo, Álvaro del Portillo – Un hombre fiel, Ed. Rialp, Madrid 2012, p. 197; e Novena da serenidade ao Bem-aventurado Álvaro del Portillo, em www.alvarodelportillo.org