Uma constelação de famílias

No domingo depois do Natal, celebramos a festa da Sagrada Família. Neste ano de 2014, a festa reveste-se de um especial significado, pois é como que o primeiro passo da oração e aprofundamento espiritual e doutrinal que desejamos viver nos próximos meses, como preparação para o grande evento do Sínodo sobre a Família, que o Papa Francisco convocou para outubro de 2015. Será a melhor maneira de nos sentirmos unidos a todo o Corpo Místico de Cristo, que é à Igreja, e à sua cabeça visível na terra, o Papa, o Vice-Cristo.

Transcrevo a seguir um artigo que trata do valor insubstituível da família na estruturação de uma sociedade sadia, em harmonia com o plano de Deus.

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É conhecida a sentença que, com pequenas variantes, afirma: «Família sadia, sociedade sadia. Família em crise, sociedade em crise».

A rotundidade dessa afirmação é, sem dúvida, discutível. Mas é inegável que encerra um grande núcleo de verdade.

Sobre a importância social da família há volumes alentados, análises e estudos muito ponderáveis. Eu desejaria agora, concretamente, frisar apenas uma das razões que, a meu ver, evidenciam o nexo de causalidade existente entre família sadia e sociedade sadia.

Refiro-me ao fato de que, na sociedade, não há nenhum âmbito de crescimento humano e moral, nenhum ambiente educativo, nenhum “coletivo” tão propício e eficaz para o cultivo das virtudes como a família bem estruturada. E isso parece-me de suma importância, levando em consideração que, no mundo atual, cada vez aparece mais evidente que a sociedade precisa, como de um oxigênio vital, das virtudes, de virtudes mesmo: aprendidas, arraigadas, exercitadas e desenvolvidas até a maturidade. Decadência social e ignorância ou desprezo pelas virtudes são a mesma coisa.

A não ser que hoje ainda se considerem vigentes as afirmações feitas pelo poeta Paul Valéry, num famoso discurso à Academia Francesa: «Virtude, senhores, a palavra “virtude”, já morreu ou, pelo menos, está em vias de extinção […]. Receio que não exista jornal algum que a imprima ou se atreva a imprimi-la com outro sentido que não seja o do ridículo. Chegou-se a tal extremo, que as palavras “virtude” e “virtuoso” só podem ser encontradas no catecismo, na farsa, na Academia e na opereta».

Seria de desejar que atitudes desse tipo tivessem ficado enterradas no passado. Quando Valéry falava, virtude sugeria limite, enquadramento, barreira obsoleta, num ambiente ébrio do vinho novo da liberdade. A centralidade da virtude na formação do ser humano havia cedido o espaço à liberdade sem limites, numa eufórica erupção de individualismo egocêntrico (que paradoxalmente, na primeira metade do século XX, descambou nas duas maiores tiranias da história). A sociedade atual, com suas mazelas, com os preocupantes desvios de uma parte não pequena da juventude (basta pensar nas drogas) é de molde a reacender uma autêntica “saudade das virtudes”. Mas, pergunto-me, será isso possível ao mesmo tempo em que se exalta como nunca a “liberdade ilimitada” como único valor moral, ao passo que se desprestigia a família?

Penso que, nos nossos dias, muitas vezes pode ser bom mergulhar um pouco na sabedoria dos antigos. Remontemos a 2.500 anos atrás e ouçamos Confúcio dizer: «Para governar deliberadamente um reino é necessário dedicar-se primeiramente a estabelecer a família e o ordenamento que lhe convém … Uma família que responda às exigências humanas e pratique o amor bastará para infundir no reino estas mesmas virtudes» (Confúcio: Studio integrale,IX.3. Milão 1960).

Muito nos pode dizer também a sabedoria dos gregos. Qualquer estudioso da antiguidade clássica sabe que, entre os poetas e filósofos gregos – e, posteriormente, entre seus discípulos latinos – a grandeza do ser humano estava indissociavelmente vinculada à “aretê”, conceito de rico conteúdo cuja tradução mais aproximada, na linguagem moderna, é precisamente a de “virtude”. O homem vulgar – recorda Werner Jaeger na sua famosa “Paideia”– não tem “aretê”. E, nas pegadas de Sócrates, Platão reiterará que a virtude, a “aretê”, é a que torna a alma bela, nobre e bem formada, a que abrange e eleva o “humano” em sua totalidade … e irradia depois como glória na vida da comunidade.

Como é sabido, o conceito clássico de virtude, cinzelado primorosamente pela sabedoria grega, pode resumir-se dizendo que é a elevação do ser na pessoa humana, a potencialização do “ser” humano; ou, com linguagem mais atual, a realização das potencialidades humanas no campo dos valores, a elevação da “qualidade humana”.

Pois bem, perante isso, parece preciso perguntar-nos: Onde é que a nossa juventude aprende a “aretê”, a virtude, que deve ser, acima de tudo, um valor reconhecido e amado pela criança, o adolescente e o jovem, uma convicção enraizada, uma prática exercitada com empenho, da qual depende o bem da pessoa e da sociedade? Será que hoje se pode dizer que a virtude se aprende na escola, em qualquer dos seus níveis e graus? É evidente que não. E em casa…?

A família, sim, a família já foi e deveria ser agora o caldo de cultura mais propício para a descoberta, a valorização, o aprendizado e a prática das virtudes. Mas, em que pé está a família entre nós? Será que há algum empenho dos poderes do Estado em fortalecê-la como estrutura vital e moral indispensável para a construção do bem da sociedade. Creio que não está longe da verdade afirmar que, aparentemente – a julgar pela evolução do direito de família e dos projetos de lei em trâmite –, nota-se mais um empenho, por parte das cúpulas do poder, em desestruturar a família e em desferir-lhe golpes de morte.

Estamos numa encruzilhada, e, além de honesto, é necessário não esconder a cabeça debaixo da asa. Não duvidemos. A futura sociedade brasileira encaminha-se para uma dessas duas possibilidades, apontadas pelo jurista Pedro J. Viladrich: ou ser uma “constelação de famílias”, dessas células primárias, vitais, naturais, sadias, que constituem o bom tecido social; ou ser um “aglomerado de indivíduos”, preso cada um deles ao interesse particular e ligado aos demais pelo que Gustave Thibon chamava um “egoísmo compartilhado”.

Na verdade, é perfeitamente compatível, na prática, ficar apregoando ideais comunitários e metas sociais – de resto legítimas – e, simultaneamente, viver obcecados pela exaltação idolátrica do “indivíduo” com seu acúmulo de “direitos intocáveis”, como hidras que a cada dia criam uma nova cabeça. A maioria vive aos pés de um ídolo nitidamente egoísta, ao qual se sacrifica, como nos ritos pagãos, a família, os filhos, a razão, a moral, a ética, o respeito… e a virtude…

Por isso, pergunto-me se não terá chegado já o momento em que os responsáveis pelos destinos do Brasil, em vez de se dedicarem a lançar lenha na fogueira onde se incineram os valores familiares, voltem a sua atenção para a família, conscientes de que está – em boa parte por culpa deles mesmos – frágil e doente. Eu não duvido de que é na família, na autêntica família, mais do que em qualquer outro quadro de convivência, o “lugar” onde podem ser cultivados os valores, as virtudes e as sábias “tradições”, que constituem o melhor embasamento da educação cidadã.

Quando a família for valorizada e defendida como um ideal, quando for uma meta prioritária do poder; quando for protegida e defendida como verdadeira “célula-base” da sociedade, então poderemos confiar em que as nossas crianças e adolescentes consigam aprender, como quem respira, o que significa amar e ser amado, conviver, compartilhar, respeitar, abraçar o desprendimento e conquistar o autodomínio e a capacidade de doação; e, assim, tornarem-se justos, amantes da verdade e da palavra, responsáveis pelos demais… Que consigam aprender, em suma, as virtudes que capacitam as pessoas para serem construtoras de uma sociedade justa e “respirável”.

F.F. e C.A di F.