Epifania: Vimos a sua estrela

Vimos a sua estrela e viemos (Mt 2, 2)

I.  Uma estrela-símbolo

Visitantes inesperados

Faz pouco mais de dois mil anos, apareceram um belo dia em Jerusalém, sem serem esperados, três personagens imponentes e estranhos. Apresentavam um ar de nobre grandeza – com suas vestes de magnificência oriental –, unido a traços de cansaço e à poeira de muitos caminhos.

Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: “onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo (Mt 2,1-2).

Como é natural, essa declaração dos três majestosos empoeirados deixou perplexos, perturbados, todos os que os ouviam. Se nós estivéssemos em Jerusalém naquele momento, também teríamos ficado aturdidos, porque o rei dos judeus – Herodes – estava lá mesmo, bem vivo no seu palácio, e nenhum herdeiro tinha “acabado de nascer”.

O que houve? Vamos tentar vê-lo de perto.

Uma viagem difícil

Por que os três amigos fizeram uma viagem tão longa e difícil, uma empreitada que tem todas as aparências de uma loucura?

Com grande simplicidade, eles o explicam: Vimos a sua estrela. Preste atenção nesse verbo – ver –, que dá o que pensar.

Para entender o significado exato dessa palavra “vimos”, é preciso fazer uma brevíssima incursão histórica.

Este episódio dos Magos que foram adorar Jesus Menino tem sido objeto de estudos que preenchem muitas páginas. Os mais sérios chegam à conclusão de que não se trata de uma lenda piedosa, mas de um fato com fundamente histórico.

Em terras orientais – do médio e próximo oriente – dava-se o nome de Magos a homens sábios, de ampla cultura em muitos campos, que faziam parte da corte como conselheiros dos reis: daí o nome popular de Reis Magos, que não está nos Evangelhos. A história e a arqueologia demonstram que, naqueles antigos impérios – assírio, babilônico, persa, etc. –, a astronomia, a “astrologia”, estava assombrosamente desenvolvida, algo análogo ao que, em grau menor, aconteceu na América no império Maia.

É importante ter isso em conta para compreender as palavras “vimos a sua estrela”.

Está claro que eles não sonharam, viram. Eles não imaginaram, elaborando fantasias. Enxergaram uma estrela nova, pesquisaram, observaram, analisaram, discutiram, consultaram outros sábios e perscrutaram mapas astrais e velhos calhamaços da sabedoria dos anciãos…  Isto é, como autênticos sábios, empenharam-se em compreender a fundo o fenômeno.

O que seria aquela estrela que viram no oriente – e que já não voltariam a ver em toda a viagem, até que reaparecesse no firmamento, perto de Belém? Já foram feitos estudos astronômicos a respeito, alguns deles bastante convincentes. Mas não é a identificação científica da estrela que agora nos interessa. O que nos interessa é focalizar o significado daquela estrela e a “atitude” dos Magos.

Vimos a sua estrela

As palavras que, como lembrávamos, disseram ao entrar em Jerusalém – Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo (Mt 2,2) – retratam a alma dos Magos.

Vimos. Eles aplicaram a sua inteligência ao fenômeno astral e formularam uma hipótese, que à medida que pesquisavam se foi confirmando cada vez mais neles como interpretação certa, até que chegaram a uma conclusão definitiva: – “É verdade!”  Em que consistia tal verdade? Uma resposta sintética nos é dada num comentário da Bíblia de Navarra:

«Os judeus tinham difundido pelo oriente as esperanças messiânicas. Os Magos tinham conhecimento do Messias esperado, rei dos Judeus. O qual, segundo as ideias difundidas naquela época, devia ter, como personagem muito importante na história universal, uma estrela relacionada com o seu nascimento ». Isso é o que eles “viram”.

Pensemos agora quais poderiam ter sido as suas reações perante essa descoberta, uma vez dissipadas as dúvidas:

– poderiam ter ficado felizes por haverem esclarecido um problema difícil, guardando para si a satisfação do sucesso da pesquisa.

– poderiam ter descrito em tabuinhas, pergaminho ou papiro o itinerário dos seus estudos, os raciocínios e as conclusões a que chegaram, para que outros sábios interessados as conhecessem; tal como os pesquisadores de hoje divulgam seus achados científicos em revistas especializadas.

– poderiam ainda ter enviado um comunicado ao rei, para o caso de este desejar congratular-se, por conveniência diplomática, com o rei dos judeus.

Quer dizer que poderiam ter encerrado a sua relação com a estrela com a feliz conclusão e divulgação da sua pesquisa. Na vida deles, a estrela teria sido apenas como  um cometa fugaz, uma teoria acertada, uma conquista científica.

Mas não foi isso o que aconteceu.

E viemos adorá-lo

O primeiro que aconteceu é que a verdade adquirida pela inteligência “desceu” ao coração. Quero dizer, que aqueles homens honestos, perceberam que a vinda do Messias salvador do mundo não os podia deixar indiferentes. Compreenderam que acabavam de descobrir a mais esperada intervenção de Deus na história. Seu coração reto sentiu-se interpelado. Nele se acendeu a luz. Se Ele chegou, diziam-se, é preciso procurá-lo, uma vez que o mundo, por milênios, o tem esperado com ansiedade.  É preciso honrá-lo, “adorá-lo”, como se usava na linguagem da época. É preciso colocar-se à sua disposição.

Tudo isso encerra aquele “viemos”…, e mais.

Já comentávamos que a estrela lhes marcou inicialmente a direção, revelou-lhes o destino e estimulou-os na partida, mas depois desapareceu… Eles, porém, não hesitaram – tinham “visto” e não precisavam de mais – e continuaram a caminhar: uma viagem longa e áspera.

Naquele itinerário, não faltaram montanhas a galgar, paragens geladas, trilhas perigosas… Muitas noites dormiram mal, muitos dias mal comeram. Os acompanhantes murmuravam, falando em voltar.

É lógico que, por serem humanos, tenham tido mais de uma vez a tentação de desistir. Talvez pensassem: “Será que conseguiremos?” “Será que Deus pode nos pedir tamanho sacrifício?”… “Será?”… Mas não se deixaram vencer pelas dificuldades e continuaram a caminhar, mesmo sem ver nada. Como dizia alguém, “eles não traíram a estrela”.

Por fim, quando chegaram a Jerusalém, ainda tiveram de suportar o olhar zombeteiro e os risos abafados dos que os acharam sonhadores, tolos ou fanáticos. O ambiente era hostil, tudo parecia um ridículo engano. Além disso, após acharem o Menino em Belém e adorá-lo felizes, foram obrigados a regressar por outro caminho, porque Herodes armou contra eles e o Menino uma emboscada traiçoeira (esse Herodes que, por temor doentio de ser destronado, assassinara a maioria das dez mulheres que teve e alguns dos seus filhos, e depois, iria massacrar as crianças inocentes de Belém).

Nada, porém, os abalou. Eles tinham comprovado a mensagem vinda do Céu, tinham adorado o Menino com uma indescritível alegria (cf. Mt 2,10). Isso lhes bastava.

Quando a luz de uma Verdade (com maiúscula), recebida ou conquistada tenazmente, é abraçada na mente sem permitir que se apague, o coração acaba sendo atingido pelo seu calor. Então, a vontade – a capacidade humana de querer e decidir – entra em ação. O homem honesto não despeja as verdades no arquivo morto da cabeça; ele faz – com  ajuda de Deus –, das ideias, ação; da verdade, vida prática.