Novena do Espírito Santo (4)

Quarto dia: O DOM DE CIÊNCIA
TODOS. – Vinde, Espírito Santo, e enviai do Céu um raio da vossa luz. Iluminai a nossa mente e o nosso coração, para que possamos contemplar o mundo e as coisas do mundo, a vida, os acontecimentos e as pessoas no seu verdadeiro valor, tal como Deus os vê.
LEITOR 1. – Com esta oração, começamos hoje a implorar o dom de Ciência, um dos dons que precisamos pedir ao Espírito Santo, porque nos faz muita falta.
LEITOR 2. – O Papa João Paulo II dizia que, graças a esse dom, o Espírito Santo nos dá a conhecer “o verdadeiro valor das coisas criadas na sua relação com o Criador”, ou seja, o sentido autêntico que as coisas do mundo têm aos olhos de Deus, e, portanto, o sentido que deveriam ter também aos nossos olhos.
LEITOR 3. – Quer dizer que o dom de ciência faz com que possamos enxergar “com os olhos de Deus” a finalidade, o significado e o valor da natureza, dos bens materiais, do nosso corpo, do sexo, da saúde, da dor, do prazer, do trabalho e do descanso, em resumo, de todas as realidades deste mundo.
TODOS. – Divino Espírito Santo, iluminai as nossas mentes e os nossos corações, para que possamos contemplar e entender todas as coisas do mundo e da vida com a luz de Deus, e não com a visão deturpada do materialismo, do egoísmo e do hedonismo.
LEITOR 1. – Todos temos a experiência de que as realidades deste mundo nos atraem. Elas têm um encanto, um fascínio, que lhes vem  de Deus, porque são obra dEle. Mas – depois que o pecado entrou no mundo – esse encantamento das criaturas ficou ambíguo e perigoso: tanto pode cativar-nos com uma atração boa, que eleva para Deus, como seduzir-nos e desviar-nos com uma atração má, que leva à perdição.
TODOS. – Este assunto é importante! Valeria a pena meditá-lo mais a fundo.
LEITOR 1. – Certo. Vejam. A atração boa é a admiração, o deleite que experimentamos ao contemplarmos, extasiados, a beleza das obras de Deus. É aquela sensação de enlevo que temos ao contemplar as maravilhas da natureza, o fascínio do mar num dia ensolarado; ou a beleza da paisagem que se avista do alto de uma montanha; ou, ainda, a graça, a riqueza e a variedade dos seres vivos – da “criaçãozinha de Deus”, como dizia um poeta –; e sobretudo a grandeza e beleza do ser humano, da mulher, do homem, da criança…,  assim como das maravilhas que os seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, foram capazes de realizar ao longo dos séculos no campo das artes, das ciências, da técnica…
LEITOR 2. – Através dessa contemplação e mediante o dom de ciência, o Espírito Santo nos move a cantar a glória de Deus e as suas grandezas, e a viver numa contínua ação de graças. É isso o que levava, por exemplo, São Francisco de Assis à alegria de louvar a Deus pelo sol, pela lua, pelo vento, pela água, pelo fogo, por todas as criaturas: «Louvado sejais, meu Senhor, no conjunto de todas as vossas criaturas, especialmente pelo irmão sol… Ele é belo e radiante com grande esplendor, e traz o vosso sinal, ó Altíssimo… Louvado sejais, meu Senhor, pela irmã água, a qual é muito útil e humilde e preciosa e casta…»
TODOS. – E ainda dizia: «Louvado sejais, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminais a noite, e ele é belo e alegre e vigoroso e forte… Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra, que nos alimenta e produz variados frutos e coloridas flores e ervas… ».
LEITOR 3. –  E tão bonito lembrar que  São Francisco exultava de alegria, louvando o irmão pássaro, o irmão jumentinho, o irmão lobo… E, sobretudo, louvando o bom coração dos seus irmãos os homens: «Louvado sejais, meu Senhor, por aqueles que perdoam por vosso amor, e por amor suportam as enfermidades e tribulações…».
LEITOR 1. – Ele, como todas as almas puras, via nas criaturas a marca da mão de Deus que as fez; e especialmente nos seres humanos via a marca sagrada da dignidade dos filhos de Deus. Os santos aprenderam isso com Jesus que, com as suas parábolas, ensinava os mais elevados mistérios de Deus utilizando-se de comparações tiradas da natureza: do campo, da pesca, das aves do céu; e da vida cotidiana dos homens: o semeador, a mulher que prepara o pão, a viúva que dá uma esmolinha, o homem que constrói uma torre, o rei que convida ao casamento do filho…
LEITOR 2. – Esse é o olhar certo. Dele falava São Paulo aos romanos: De fato, as perfeições invisíveis de Deus são percebidas pela inteligência através das suas obras, desde a criação do mundo . É o mesmo pensamento que se encontrava no Livro da Sabedoria, quando fala dos insensatos que não souberam reconhecer o Artista divino, considerando as suas obras .
LEITOR 1. – Quando nós vemos as coisas com os olhos de Deus, respeitamos o plano que o Senhor quis para elas, a ordem santa da Criação, a lei de Deus que, pelo nosso bem, nos manda respeitar – sem exceções – a vida humana desde o primeiro instante da concepção até a morte natural; a santa lei de Deus que manda viver a castidade e respeitar, assim, a grandeza do sexo, que Ele destinou ao amor fiel e à procriação dentro do casamento; a santa lei de Deus que nos ensina a usar de maneira sóbria, justa e temperada  as riquezas materiais, o alimento, a bebida, o esporte, as distrações e os prazeres sadios do mundo; sem esquecer-nos nunca do que Jesus dizia: De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder a sua alma? .
LEITOR 3. – Esta vida em harmonia com a Vontade de Deus é que é a autêntica “vida boa”, a única que nos pode dar a paz e a felicidade aqui na terra e depois no Céu. Aí está é a verdadeira “ciência” do viver. A falsa ciência, pelo contrário, é  aquela atitude que não quer saber da lei de Deus nem dos seus planos sábios e santos, e só quer obedecer à lei do egoísmo, do desejo e do gosto: essa é a “atração má” de que falávamos antes.
TODOS. – É pena que poucos o entendam assim e se deixem arrastar pela visão mundana, que faz do prazer egoísta, do dinheiro e da ambição um ídolo que atropela a fé e a moral, que acaba com a saúde física e psíquica – nesses horrores do alcoolismo, das drogas, das desordens sexuais! –, que pulveriza o amor humano e arruína  a família.
LEITOR 1. – Será que tudo isso não mexe conosco, e nos faz compreender o dever grave que temos de dar exemplo com a nossa conduta moral, de cuidar mais da educação da consciência moral dos filhos, ajudando-os a entender o valor da lei de Deus; e de lutarmos, de maneira positiva, para difundir a verdade sobre a dignidade do ser humano, sobre o matrimônio estável e fiel, sobre o erro das aberrações do aborto e da eutanásia…? Que acham se fazemos uma pausa, para pensar um pouco?
(pausa de silêncio)
TODOS. – Divino Espírito Santo, dai-nos forças para sermos testemunhas da verdade de Deus, da felicidades que se consegue seguindo fielmente o que Deus nos pede, o que a moral da Santa Igreja nos ensina; e não permitais que os nossos filhos se percam na confusão materialista deste mundo: que não sejam iludidos por amizades ou por mestres desorientados, nem pelo mau uso da Internet e de outros meios de comunicação.
LEITOR 1. – Mas a nossa meditação sobre o dom de ciência ficaria incompleta se não falássemos de outro modo maravilhoso de ver o mundo com os olhos de Deus. Dizíamos que a criação, vista com olhos puros, nos leva a louvar a Deus e também a descobrir que a harmonia e o bem da criação só se alcança obedecendo a lei que o Criador lhe deu. Mas Deus nos mostra ainda outra beleza.  Ele nos ensina que, no mundo, os nossos trabalhos, até mesmo os mais materiais, os deveres cotidianos simples e sem brilho, podem e devem ser um grande «caminho de santificação».
TODOS. – Como assim? Que quer dizer com isso?
LEITOR 1. – Vale a pena meditá-lo brevemente, e nada melhor, para isso, do que escutar palavras de um santo que, na nossa época, foi o mensageiro escolhido por Deus para difundir essa doutrina: São Josemaria Escrivá. Escutemos, pois, alguns dos seus ensinamentos, tirados de uma belíssima homilia .
LEITOR 2. – «O mundo não é ruim, porque saiu das mãos de Deus… Nós, os homens é que o fazemos ruim e feio, com os nossos pecados e as nossas infidelidades».
LEITOR 3. – Dentro deste mundo que, em si mesmo, é bom, «Deus nos espera em cada dia: no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio dom lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir».
TODOS. – E em que consiste esse algo de santo, de divino?
LEITOR 3. – Na possibilidade que temos a toda hora de fazer o trabalho e de cumprir o dever, mesmo nos detalhes mais insignificantes – desde que se trate de tarefas honestas –, com amor a Deus e amor ao próximo, como uma oferenda para Deus e um serviço aos irmãos. «Eu lhes asseguro, meus filhos – dizia São Josemaria –, que quando um cristão desempenha com amor a mais intranscendente das ações diárias, está desempenhando algo de onde transborda a transcendência de Deus… Não há outro caminho: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não o encontraremos nunca».
TODOS. – Que ideal maravilhoso! Assim se entende que a santidade seja possível para todos, que esteja ao alcance de todos os cristãos de boa vontade: mulheres e homens, casados e solteiros, trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais…
LEITOR 3. – Sim! E assim se entende que nós, os cristãos, possamos ver o casamento e a família na sua dimensão divina: como uma vocação para a santidade e o serviço aos outros; e também que possamos encarar o trabalho profissional como uma vocação de Deus para sermos santos nas próprias incidências do afazer cotidiano e fazermos apostolado com colegas, amigos, parentes … A vocação cristã no meio do mundo é um grande ideal!
LEITOR 1. – Sem dúvida. E, como a Igreja ensina, é uma vocação de amor, uma chamada a ser, como diz São Paulo, filhos de Deus, santos e irrepreensíveis na sua presença .  Mas a verdade é que já estamos na hora de encerrar este encontro, e, por isso,  penso que será bom terminar, por um lado, pedindo a graça do Espírito Santo para que, por meio do dom de ciência, nos faça compreender e amar esse ideal de santidade no mundo; e, por outro, fazendo o propósito concreto – é a sugestão deste dia –de examinarmos se trabalhamos com amor, sob o olhar de Deus e com o coração voltado para o bem dos outros, e se evitamos no dia-a-dia, o mais possível, voltar-nos para nós mesmos e para os nossos interesses  egoístas.
TODOS. –Que Deus abençoe as nossas tarefas e nos ajude a cumprir nossos propósitos!