Novena do Espírito Santo (7)

Sétimo dia: O DOM DE TEMOR
TODOS. –  Divino Espírito Santo, lavai o que está manchado; ao que tem sede, dai-lhe água; curai o que está enfermo; abrandai o que é duro; aquecei o que tem frio, guiai o que anda errado.
LEITOR 1. – Hoje vamos meditar sobre o dom de Temor de Deus, que talvez seja um dos menos compreendidos. Porque essa palavra “temor” não é nada agradável. O que é que ela nos sugere?
LEITOR . 3 – Dentro da nossa linguagem comum, a palavra “temor” sugere medo, receio…, até desconfiança. Poderia dar a idéia de que esse dom consiste em ter medo da severidade de Deus, dos seus castigos nesta terra e no inferno… Como se tivéssemos a imagem de Deus como um fiscal ou um juiz terrível.
LEITOR 1. – Como é lógico, isto está errado. A primeira coisa que Jesus nos ensinou é que Deus é Pai e nos ama. Por isso, João Paulo II dizia que esse dom “não significa medo irracional, mas sentido da responsabilidade e de fidelidade à lei de Deus”. E que, sobretudo, consiste no temor de ofender esse Pai boníssimo: “é o próprio amor de Deus – ensinava João Paulo II – , que faz com que a alma se preocupe de não causar desgosto a Deus, amado como Pai”.
TODOS. – Só ouvindo isso, já dá para perceber que esse dom também tem uma grande riqueza. Daria para ir aprofundando, hoje, nos seus aspectos principais?
LEITOR 1. – Sem dúvida. É o que procuraremos fazer, começando por um primeiro aspecto, que é importantíssimo e que hoje anda bastante esquecido. Acabamos de ouvir que João Paulo II fala de “responsabilidade” diante de Deus. Vocês  sabem que a responsabilidade é o contrário da leviandade, da falta de seriedade e de respeito. Pois bem, não acham que está havendo leviandade demais, falta de seriedade demais, falta de respeito demais para com as coisas de Deus? Uma coisa é ter uma confiança grande, de filhos carinhosos, para com Deus, e outra muito diferente é não ligar para o desrespeito, tratar Deus de qualquer jeito, sermos grosseiros, brincar com Deus…
LEITOR 2. – São Paulo bem que alertava, e são palavras que dão um certo arrepio: Não vos enganeis: de Deus ninguém zomba. O que o homem semeia, isso mesmo colherá…, a corrupção ou a vida eterna .
TODOS. – Divino Espírito Santo, ajudai a vossa Igreja. Que pena dá ver que hoje, inclusive dentro da igreja e em atos de culto, muitos católicos – com pretextos inconsistentes – faltam aos detalhes mais elementares de educação, de respeito e de delicadeza para com Deus. Conversam distraídos. Vão vestidos, diante do sacrário ou na Santa Missa – que é o ato mais sagrado da terra –, como se estivessem num churrasco, quando não andam de forma indecorosa…
LEITOR 3. – Sim. Parece que não são capazes de fazer uma genuflexão lenta, pausada, devota, toda vez que passam pela frente do sacrário. E, o que é pior – e deveria horrorizar-nos –, comungam tranqüilamente em estado de pecado mortal, sem se ter confessado antes, esquecendo que São Paulo diz que todo aquele que comungar indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor… E que aquele que comunga sem distinguir o Corpo do Senhor (sem estado de graça, sem fé, sem adoração), come e bebe a sua própria condenação .
LEITOR 2. – Por isso, ao pedir ao Espírito Santo o dom de temor, será bom que lhe peçamos o espírito de adoração, que é um aspecto importante desse dom e um dos sentimentos mais belos e santificadores da vida cristã. Digamos todos, com palavras inspiradas numa devota oração:
TODOS. – Divino Espírito Santo, abri os nossos olhos à infinita grandeza e bondade de Deus. Ajudai-nos a ter um vivo sentimento da majestade de Deus, que nos abisme numa adoração profunda; uma adoração tão clarividente que torne o nosso coração capaz de extasiar-se perante a beleza e grandeza infinita do Amor de Deus, e que no torne também capazes de experimentar um forte temor de pecar, de ofendê-lo e de nos afastarmos dEle .
LEITOR 2. – Acho que este é um bom momento para pararmos uns instantes e fazer exame sobre o nosso espírito de amor, respeito e adoração.
(pausa de silêncio)
LEITOR 1. – Há um instante foi mencionado mais um aspecto importante do dom de temor, que é o temor de ofender a Deus, justamente porque queremos amá-lo muito. Algo parecido com o que acontece à pessoa que ama outra com loucura, e, por isso, sofre e se atormenta só de pensar que lhe possa ter causado um desgosto. Este é o temor filial, que é o perfeito temor de Deus. Dele falava Santa Teresa de Ávila nestes termos: “Trabalhai sempre por adquirir uma determinação tão grande de não ofender ao Senhor, que estejais dispostas a perder mil vidas de preferência a fazer um pecado mortal; e dos veniais guardai-vos com sumo desvelo”.
LEITOR 2. – É assim mesmo. Não é perfeito evitar pecados e ofensas só por medo do castigo de Deus.
LEITOR 3. – Aliás, é isto o que nos diz São João: Aquele que teme não é perfeito no amor .
LEITOR 2. – E, de fato, os cristãos que só reagem por medo do castigo divino, caem inevitavelmente em duas doenças graves da alma, que costumam levar à ruína espiritual. A primeira, é que pouco se importam com os pecados veniais, porque não são de molde a merecer as penas do inferno. Acontece, porém, que o acúmulo de pecados veniais, sem o devido arrependimento, vai levando à cegueira da alma, à perda de sensibilidade moral, e precipita inevitavelmente no pecado mortal.
LEITOR 1. –  Se alguém chega a esse estado infeliz – o que Deus não permita! –, então, sim, pode ter medo da justiça divina, porque já lembrávamos que com Deus não se brinca. E ser indiferente aos pecados veniais é brincar mesmo com Deus. É como se a pessoa dissesse: Senhor, a Ti que morreste na Cruz por mim, pouco me importa ofender-te, ferir-te a cabeça e o coração com espinhos, desde que isso não me prejudique a mim, isto é, não me ponha em perigo de condenação eterna. Que egoísmo! Deus é Pai, mas não é por ser um Pai tão bom que vamos  desprezá-lo e maltratá-lo!
LEITOR 3. – E a segunda doença?
LEITOR 2. – É uma doença ligada à primeira. É também uma falta de amor. Consiste na incapacidade de viver o arrependimento verdadeiro – de ter dor de amor pelos pecados, graves e leves – e, em conseqüência, na incapacidade de entender o valor da penitência e da reparação.
LEITOR 1. –  Que medo têm muitos da penitência, que aversão a fazer sacrifícios que custem, como um pouco de jejum, ou uma vigília mais prolongada de oração, ou um dia sem televisão, com a intenção de reparar pelos pecados, unindo-nos à Cruz redentora de Nosso Senhor, que padeceu para expiar esses nossos pecados. E, no entanto, a penitência é necessária para purificar a alma, aprimorar o amor e fazer amadurecer o nosso espírito de filhos de Deus.
TODOS. – Hoje, em muitas vidas, o amor foi substituído pelo prazer. Por isso os “amores” humanos, com freqüência, duram muito pouco. E por isso, na opinião pública, falta a capacidade, que só o amor pode dar, para compreender a prática da penitência cristã, voluntária. E então, infelizmente, a penitência é vista como coisa ultrapassada, medieval, absurda…
LEITOR 1. – Uma das maiores desgraças que um homem pode ter é não ser capaz de se arrepender. Aquele que passar pela vida sem ter aprendido a chorar com as lágrimas da pecadora que pediu perdão aos pés de Jesus, será fatalmente um ser humano mutilado na sua grandeza e diminuído na sua dignidade. Aquele que não “sabe” arrepender-se acaba por endurecer-se nos seus defeitos, e –para dizê-lo com crueza – morre ignorando o que significa a palavra amor, aquela palavra que resume o primeiro e principal de todos os mandamentos: “Amarás a Deus sobre todas as coisas ”.
LEITOR 2. – Enquanto não brotar uma lágrima de verdadeiro arrependimento, o coração humano, mesmo o que parece bom e limpo, não possuirá o segredo do acesso ao Coração de Cristo. As lágrimas penitentes são a chave que abre essa porta. Sem elas, para nós, pecadores, não há outra que abra.
LEITOR 3. – Que acham se rezamos uma oração, composta em forma de poema por um frade medieval, Jacopone da Todi, pedindo a Nossa Senhora que nos alcance, da graça do Espírito Santo, essa dor de amor, que encerra em si o perfeito temor filial de ofender a Deus.
TODOS. – Ótimo! Podemos rezá-la todos juntos, não? Como é?
LEITOR 3. – É assim. Vale a pena rezá-la pedindo ao Espírito Santo que a grave bem na nossa alma:
TODOS. –: “Eia, Mãe, fonte de amor, / fazei-me sentir a dor / para que eu chore convosco. / Que arda o meu coração / no amor a Cristo Senhor, /  para que possa agradar-Lhe./ Fazei isto, santa Mãe: / gravai fundo em minha alma / as chagas do vosso Filho./ Junto à Cruz eu quero estar, / minhas lágrimas juntar / às que lá Vós derramastes”.
LEITOR 1. – Com isso, acho que podemos dar por encerrado este sétimo dia da novena. Eu sugeriria hoje, como propósito concreto, que todas as noites terminássemos o nosso exame de consciência com um ato de dor de amor – por exemplo, Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tende piedade de mim, pecador; ou, como dizia São Pedro, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo –; ato de contrição que esteja unido a um propósito de emenda e a uma decisão também concreta de fazer algum ato positivo que compense – como penitência e reparação –os atos e palavras negativos de que nos arrependemos.