1 – A ALEGRIA NO POÇO

À PROCURA DA ALEGRIA

1 – A ALEGRIA NO POÇO 

O poço úmido

“Onde estás, meu pobre coração?”, dizia um poeta triste.

A resposta certa, em muitos casos, deveria ser: “Moro no fundo de um poço”. “De que poço?”, perguntaríamos. E eis que uma voz com tom culto responde: “No poço do Leclecq”.

O que é esse enigma? Explico.

O belga Jacques Leclecq, num velho livro sobre o ano litúrgico conta a parábola do homem que morava no fundo de um poço: pequeno, estreito, escuro e úmido. A lama e a umidade eram a sua inseparável companhia. Mas lá estava ele vivendo; melhor dizendo, lá estava definhando.

Um dia sentiu vontade de olhar por cima do poço. Deu um pulinho, pôs as mãos na beirada, fez força ergueu-se um pouco e viu o esplendor da terra: árvores, caminhos a perder de vista no horizonte, montanhas, relva esmaltada dos pastos, flores, pássaros… Após um primeiro deslumbramento, o homem do poço resmungou: – “Tudo isto é muito complicado”. E voltou a encolher-se no fundo do poço.

 

Você e eu não fomos nunca um homem ou uma mulher no poço? Eu diria que sim. Talvez você pergunte: “Como”? “Por quê”? Procuremos entrar, como dizíamos antes, nos fundos da nossa memória e do nosso coração.

 

Os nossos poços

O poço do comodismo. Lembro-me agora de um conhecido poema de Rimbaud, que diz «par delicatesse j’ai perdu ma vie» – por delicadeza, eu perdi a minha vida. Peço licença ao jovem poeta morto de um século morto para alterar-lhe o verso e dizer: “Por preguiça, eu perdi a minha vida, ou boa parte dela”.

 

É triste perder a vida por receio de complicá-la, por acomodação, por moleza. Por pensar, como o homem do poço: “Tudo isso é muito complicado”. E “tudo isso” é a grandeza, é o ideal, são as aspirações grandes, os compromissos que valem a pena, a generosidade do amor…, em suma, tudo o que poderia abrir-nos as portas da alegria. O que renuncia ao ideal é como aquele de que fala o Salmo 7,16 : Caiu no buraco que ele mesmo fez.

 

O poço do medo. Ao coração egoísta e mesquinho assusta-o abraçar a Verdade e o Bem, porque isso exige comprometer-se com eles. Tem pavor de assumir uma Meta grande na vida, porque sabe que «nenhum ideal se torna realidade sem sacrifício» (Caminho, n. 175). Por isso, não tem coragem de sair do “aconchego” do poço.

           O medo da Luz (da Verdade, Bondade, Amor) o paralisa. Assim, as melhores possibilidades da vida ficam para trás. E, juntamente com elas, a alegria naufraga. Grande verdade encerra esta frase de Amyr Klink: «a forma mais terrível de naufrágio é não partir»[1]. É deixar-se estar, nada arriscar. Entende-se que Santo Agostinho chamasse a essa atitude «o amor em fuga»… Foge para o nada.

            ─ Outros poços. Não vou mencionar agora outros poços em que a alegria se afunda, porque é disso, justamente, que vão tratar praticamente todos os capítulos deste livro. Desde agora, porém,  queria adiantar-lhe uma coisa, que explico a seguir.

 

O leimotiv deste livro 

Você já sabe – sobretudo se é amante da música – que leitmotiv é a repetição cadenciada de um determinado tema, ao longo de uma peça musical ou de uma obra literária.

Pois bem, o leitmotiv  destas páginas, que irá reaparecendo uma e outra vez, é a verdade cristã sobre a alegria, que Santo Tomás de Aquino sintetiza assim:

            1ª) «A tristeza é um vício causado pelo desordenado amor de si mesmo (ou seja, pelo egoísmo), que não é um vício especial, mas a raiz de todos os vícios».

            2ª) «A alegria não é uma virtude diferente do amor, mas um ato e efeito dele». Ambas as afirmações encontram-se na Suma Teológica (2-2, q. 28, a.4).

            Dito ainda mais brevemente: A tristeza é um fruto do egoísmo, e a alegria é a irradiação do amor. Daquele amor verdadeiro, que vem de Deus (1 Jo 4,7) e que foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Quem tem a alma em graça, tem o amor de Deus – o Espírito Santo – dentro do seu coração.

Tomara que, a você e a mim, se nos gravem bem na alma, para nunca mais esquecê-las, estas afirmações do apóstolo São João, que podem ser um diagnóstico e um curativo para as nossas crises de tristeza: – Deus é amor. – Todo aquele que ama nasceu de Deus. – Quem não ama permanece na morte (1 Jo 3,14 e 4,7-8).

 



[1] Paratii: entre dos Pólos, p. 42