2 – A ALEGRIA ENTRE ESPELHOS

2- A ALEGRIA ENTRE ESPELHOS

Estamos entocados? 

Vamos dar mais um passo na nossa expedição à procura da alegria.

Faz já bastantes anos, assisti a um curta-metragem francês. Era a história breve de um egoísta fechado em si mesmo, que um dia descobriu o verdadeiro amor.

Quando isso aconteceu, ele abriu a alma com palavras semelhantes a estas: “Eu era um homem que vivia entocado num quarto rodeado de espelhos. Por todos os lados, só via a minha imagem, o meu “eu”: nas pessoas, no trabalho, nos planos, nos projetos de vida… Apenas enxergava o que eu gostava, o que eu desejava, o que me interessava, o que me oferecia vantagens ou prazer. Pessoas e coisas não passavam de bens consumíveis. Caso não servissem, eu os descartava.

“Até que um dia descobri o amor. Alguém de uma bondade e uma generosidade que nunca imaginei que pudesse existir. Foi algo novo que eu, pobre egoísta, desconhecia. O meu pedestal tremeu, e pela primeira vez senti a necessidade de quebrar todos os meus espelhos e transformá-los em portas abertas que me permitissem sair do cativeiro e dizer: – “Tudo o que é meu é teu. Só o quero para te dar e te fazer feliz?”.

Ao pronunciar esse “sim” ao amor – ao autêntico “querer bem” –, entrou-lhe na alma, pela abertura dos espelhos quebrados, a alegria, e compreendeu por experiência o que Cristo ensinava: há mais felicidade em dar do que em receber (At 20,35).

 

Um “sim” e um “não” que decidem a vida

Comecemos pelo “não”. Os que leem o Evangelho, conhecem o “jovem rico”. Esse moço estava cheio de inquietações espirituais. Soube de Jesus, empolgou-se e foi procurá-lo. Veio correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: “Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna”.

Jesus responde-lhe em dois tempos.

─ Primeiro, lembra-lhe que uma condição essencial para estar com Deus é cumprir os mandamentos: “Não mates, não cometas adultério, não furtes, não digas falso testemunho, não cometas fraudes, honra pai e mãe”.

O moço abre os olhos, encantado, e diz: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha adolescência”.

─ Segundo tempo. Jesus, olhando para ele com muito amor, lhe disse: “Ainda te falta uma coisa. Vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres  e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

            São Francisco de Assis meditou essas palavras, abriu o coração e viveu ao pé da letra o que Jesus sugeria.  Após dar tudo ficou inundado por uma das maiores alegrias que um coração humano pode experimentar. Cantava, ria, louvava a Deus, amava e servia a todos …, e arrastava muitos na sua insólita aventura de alegria… Justamente porque deu tudo, ele era capaz de amar tudo, e de ensinar aos outros o mesmo amor. E,com o amor, a alegria.

 

Não foi assim com o jovem rico.  Ao escutar a chamada de Jesus, abaixou a cara e foi embora cheio e tristeza, pois possuía muito bens (Mc 10,17-22). Não queria “dar” nem “dar-se”. Queria “obter” o Céu, mas sem desgrudar-se do que era “seu”. E assim, unida à bolsa, restou-lhe a tristeza.

Deus, a alguns – a muitos – pede que o sigam como os apóstolos: Deixaram tudo e o seguiram (Lc 5,11).

A outros muitos – à maioria – não pede isso. Mas a todos põe uma condição: Se alguém quer vir após mim – o que é a mesma coisa que ir atrás do Amor, aqui e na vida eterna–, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar, guardar, a sua vida a perderá… (Mt  16,24-25).

Entende o que é renunciar a si mesmo? É expulsar o egoísmo, não tolerar que ele seja a bússola que guie a nossa vida.

«O verdadeiro amor – dizia o Papa Francisco nas Filipinas – leva-nos a queimar a vida, mesmo com o risco de ficarmos com as mãos vazias. Pensemos em São Francisco: deixou tudo, morreu com as mãos vazias, mas com o coração cheio» (Encontro com jovens, Manila 18/1/2015).

Ab parábola de um poeta

Rabindranath Tagore é um poeta hindu, bengali, que ganhou o prêmio Nobel de literatura. Não era cristão, mas estava enamorado do Evangelho de Jesus.

Uma das suas prosas poéticas, cheia de simbolismo, fala de um mendigo e da alegria de se dar.

«Ia eu pedindo de porta em porta pelo caminho da aldeia, quando a tua carruagem de ouro apareceu ao longe como um sonho magnífico. E eu perguntava-me, maravilhado, quem seria aquele rei de reis.

»As minhas esperanças voaram até o céu, e pensei que os meus maus dias tinham acabado. Fiquei aguardando esmolas espontâneas, tesouros derramados sobre o pó.

»A carruagem parou a meu lado. Olhaste-me e desceste sorrindo. Senti que por fim me tinha chegado a felicidade da vida. E eis que de repente estendeste-me a mão direita, dizendo: “Podes dar-me alguma coisa?”

»Ah! Que lembrança a da tua realeza! Pedir a um mendigo! Eu estava confuso, sem saber o que fazer. Depois, tirei devagar da minha sacola um grãozinho de trigo, e te dei.

»Mas, qual não foi a minha surpresa quando, ao esvaziar à noite a minha sacola no chão, encontrei um grãozinho de ouro na miséria do montão.

»Com que amargura chorei por não ter tido a coragem de me dar inteiramente». (Oferenda lírica).

 

E agora vamos pensar um pouco

«A alegria é um bem cristão – dizia São Josemaria –. Só desaparece com a ofensa a Deus, porque o pecado é fruto do egoísmo e o egoísmo é causa da tristeza» (É Cristo que passa, n. 178).

Peço-lhe que medite nessas palavras. O pecado é sempre um “não”, um não a Deus, um “não” ao próximo,portanto, um “não” ao amor; e é um “sim” egoísta a nós mesmos.

Façamos um pouco de exame de consciência. Uns questionamentos, que eu também dirijo a mim mesmo:

─ Se você só reza ou vai à Missa quando tem vontade, se recorre a Deus com insistência quando tem alguma aflição, mas não se lembra de lhe oferecer essa cruz, essa contrariedade, unido à Cruz onde Ele se entregou por você; se esquece dar-lhe graças por mil coisas boas, você está sem dúvida na prisão dos espelhos.

─ Se você, todas as noites, faz um exame do dia que passou e, depois de pedir perdão a Deus por tê-lo amado pouco, pensa “que melhora, que oração, que sacrifício em bem do próximo posso oferecer a Deus amanhã?”, você quebrou o espelho e abriu uma janela. Sua alegria vai crescer um pouco mais.

─ Se você nota que, quando está sozinho, a sua imaginação gira sobretudo à volta de si mesmo, daquilo que deseja, do que o aborrece, dos motivos que tem de reclamação e de ressentimento, você é prisioneiro dos espelhos.

─ Se você, porém, saindo da órbita do “eu”, cada vez mais pensa no que pode fazer de bom com as pessoas que encontrar, no que vai perguntar ou comentar lá em casa para desanuviar preocupações e aumentar alegria do lar, você já pisa em cima dos cacos do espelho quebrado e está saindo pela porta do amor, rumo à alegria.

─ Se você só pensa no futuro em termos de realização, de sucesso, de alcançar mais do que os outros conseguem, de usufruir o que você pretende conquistar, tenha cuidado, que os espelhos estão apertando o cerco e podem asfixiá-lo.

─ Pelo contrário, se você sonha no seu futuro como um ideal de dedicação, de serviço; como uma sequência de passos generosos que o levem a construir uma família unida e feliz, a fazer o bem enquanto avança nos anos, ajudando o próximo com iniciativas sólidas e fecundas, então você, sem dúvida, já saboreou a alegria de entrar no futuro pela porta do amor.

─ Pense, enfim, se ficou mais feliz praticando boas ações que lhe custaram muito; ou se ficou alegre – contente mesmo – dizendo “não” para não sofrer.