3 – A ALEGRIA E A ESTRELA

3- A ALEGRIA E A ESTRELA

Uma imensa alegria

Você conhece a história dos Magos, narrada pelo evangelho de São Mateus (Mt 2,1-12). Pode ser até que em criança, nos dias de Natal, tenha colocado e movimentado com carinho as suas figurinhas no presépio.

A viagem dos Magos é um episódio que culmina numa das maiores alegrias de que fala a Bíblia. Chegados a Belém, a estrela que tinham visto no Oriente ia à frente deles, até parar sobre a casa onde estava o Menino. Ao verem de novo a estrela, alegraram-se com uma imensa alegria.

É admirável a simplicidade com que, após uma longa e dura viagem, chegam a Jerusalém dizendo: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo (Mt 2,2).

Atrás da estrela, compreendida por eles como um sinal e um apelo de Deus, enfrentaram desertos e rochedos, bosques fechados e perigos sem conta, incompreensões e canseira, mas não pararam até chegarem a Jesus. Felizes por terem sido fiéis à mensagem da estrela, resumiram a sua aventura com a singeleza de dois verbos: “vimos” e “viemos”. Pronto. Para eles era lógico, após ver a luz de Deus, segui-la simplesmente até o final.

Assim, eles foram os primeiros pagãos a reconhecer o Salvador, a prostrar-se a seus pés, a adorá-lo e a levar a boa nova de Cristo às suas terras. A tradição diz que, graças a eles já havia em seus países almas preparadas para receberem a mensagem do Evangelho quando alguns dos apóstolos e discípulos de Jesus lá foram em missão.

Todos temos a nossa estrela

Para os Magos aquela estrela foi uma chamada do Céu, e agora é uma mensagem para nós. Deus, no íntimo da alma, diz-nos: “Por acaso você pensa que não tem estrela? Acha que eu não conto com você nos meus planos? Pensa que há algum filho de Deus que não tenha um chamado e uma missão a cumprir nesta terra? Ou será que você veio à toa e sem finalidade a este mundo?…” É claro que não.

«Deus – dizia São Josemaria – aproximou-se dos homens, pobres criaturas, e disse-nos que nos ama… Nenhum homem é desprezado por Deus. Todos nós, seguindo a sua própria vocação – no seu lar, na sua profissão ou ofício, no cumprimento de suas obrigações… –, todos somos chamados a participar do reino dos céus» (É Cristo que passa, n. 44).

A todos Deus nos manda uma estrela – a nossa – para que nos guie e vá indicando o que Ele espera de nós. Se soubermos acolhê-la com boa vontade, perceberemos que o seu fulgor se desdobra em três raios luminosos.

Primeiro: A luz da fé, que abre os olhos a todas as outras luzes. Que nos diz a luz da fé? “Deus te ama. Deus te chama. Deus quer contar contigo para irradiar o seu amor pelo mundo”. Cristo sempre nos fala ao coração: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12).

Você se lembra do episódio do cego Bartimeu. Pedindo esmola às portas de Jericó, dizem-lhe que por lá está passando Jesus, e cheio de esperança começa a gritar: Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim. Cristo o chama: Que queres que eu te faça? O cego respondeu: Mestre, que eu veja. Jesus disse: Vai, a tua fé te salvou. No mesmo instante ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho, cheio de alegria, louvando a Deus (Mc 10, 46-52 e Lc 18,43).

Talvez você e eu precisemos pedir como o cego: que eu veja! Para que aumente a nossa fé e Deus nos dê a luz da vida.

Segundo:  A luz da vocação. Se acolhermos a luz da fé, “veremos” a nossa vocação. Todos temos vocação. A todos chama Deus para uma vocação de amor, cada qual com as suas características, mas com o denominador comum de que fala São Paulo: Sede imitadores de Deus como filhos muito amados, e progredi no amor, como Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós (Ef 5,1).

Para uns, é a chamada a santificar-se e a servir vivendo a vocação matrimonial; para outros, é uma vocação de entrega plena a serviço de Deus e dos irmãos; para outros, a dedicação idealista e generosa a uma boa causa. Para todos, é uma vocação de amor.

«A vocação – escrevia São Josemaria – acende uma luz que nos faz reconhecer o sentido da nossa existência. É convencermo-nos, sob o resplendor da fé, do porquê da nossa realidade terrena» (É Cristo que passa, n. 45).

Com a luz da vocação, fica claro o sentido da vida: todas as peças – como as pedras de um mosaico – passam a ocupar o seu lugar: as alegrias e as tristezas, o passado e o presente, os sonhos, o trabalho, o amor, as dificuldades, tudo…, tudo fica mais claro e se harmoniza.

Terceiro: A luz da nossa missão. Se sabemos acolher a luz da fé e a luz da vocação, veremos com clareza que Deus nos confiou uma missão na terra. De algum a maneira, Deus nos diz a todos: Eu vos escolhi de vos designei para que vades, e deis fruto, e que o vosso fruto permaneça (Jo 15, 16).

Assim, quando um casal cristão descobre que o seu casamento é uma vocação, e que o próprio Deus lhes confiou uma grande missão – a bela missão de fazer, de edificar uma família –, esse casal já viu os três fachos da luz da estrela. Em qualquer momento de crise, de dificuldade ou de cansaço, o coração lhes dirá: “Olha para a estrela. Ela te marca o caminho. Deus te chama. Sê fiel à tua estrela e serás feliz!”

A mesma coisa pode-se dizer de todas as outras vocações cristãs. São chamada, são missão, são fecundidade. Para quem é fiel, são garantia de amor e, portanto, de alegria. 

Não troque a estrela pelos vagalumes 

No romance “A elegância do ouriço” de Muriel Barbery, que deu filme, a protagonista , uma menina precocemente desiludida pela triste experiência familiar, julga os adultos. Ela os vê desorientados, atordoados após terem andado atrás de ambições que acabaram afundando-os numa “vida inútil”… «As pessoas creem perseguir as estrelas e acabam como peixes vermelhos num aquário».

Com precoce cinismo, escreve no seu diário que «aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não queriam ir» (p. 19).

Que fizeram? O que muitos fazem e que Deus nos livre de fazer. Em vez de caminhar seguindo a estrela de Deus, com seus três grandes fulgores, foram atrás dos vagalumes do orgulho, do prazer, do sucesso, do dinheiro, do egoísmo, dos brilhos sedutores que piscam no escuro do coração, ora aqui, ora acolá, mas sempre são mutáveis e efêmeros. E acabam deixando no oco da vida a vertigem do vazio, a tristeza da falta de sentido, a ausência de frutos que permitam dizer: “Obrigado, meu Deus, valeu a pena viver”.

Peço a Deus que você e eu e muitos outros, ao chegarmos ao final da viagem terrena, possamos fazer essa ação de graças. E, como os Magos, saborear aquela imensa alegria que os inundou para sempre ao encontrar o Menino de Belém.