4 – A ALEGRIA E A LEI

4- A ALEGRIA E A LEI

O jardim encantado

            O Livro dos Salmos é, na Bíblia, como um jardim encantado, onde florescem as preces e os sentimentos espirituais mais puros, e onde cintilam as luzes de Deus.

Prosseguindo na nossa expedição à procura da alegria, penetremos nesse jardim, e ouçamos o que o salmista (o piedoso compositor dos salmos, sob a inspiração divina) canta em louvor da santa Lei de Deus.

Leia devagar e medite a seleção que reproduzo a seguir:

● O salmista anseia pela Lei de Deus:

Mostra-me, Senhor os teus caminhos, faz-me caminhar na tua verdade (Sl 25,4-5).

Minha alma se consome desejando os teus mandamentos o tempo todo (Sl 119,20)

Abre-me os olhos para contemplar as maravilhas da tua lei. Dá-me inteligência para que observe a tua lei e a guarde de todo coração (Sl 119, 18 e 34)

● O salmista medita nos mandamentos de Deus e sente-se seguro e feliz:

Feliz o homem cujo prazer está na lei do Senhor, e medita em sua lei de dia e de noite (cf. Sl 1, 1-2).

Os preceitos do Senhor são retos, alegram o coração; o mandamento do Senhor é claro, ilumina os olhos (Sl  19,9)

Lâmpada para os meus passos é a tua palavra e luz no meu caminho. Jurei, e o confirmo, guardar as tuas justas normas (Sl 119, 105-106)

● E só o pensamento de que há muitos que desconhecem e desprezam a lei de Deus, lhe faz subir as lágrimas aos olhos:

Não entendem, não querem entender; caminham no escuro (Sl  82, 5)

Meus olhos derramam torrentes de lágrimas, por causa dos que não guardam a tua lei (Sl 119, 136).

O salmista fala da lei de Deus com o enlevo de um enamorado. Você entende isso?

Talvez me diga: “Não entendo muito, não. Regular a vida pela lei, pelos preceitos morais, me parece enfraquecer a liberdade, a espontaneidade do coração. Eu preferiria que me falassem menos dos mandamentos e mais do amor”.

Compreendo. Mas deixe-me expor umas considerações, que podem ajudá-lo a perceber que justamente os mandamentos são a estrada do amor.

A estrada e suas sinalizações

            Imagine uma moderna autoestrada. Bem traçada e protegida, pode ser percorrida em alta velocidade e com o mínimo risco. Para isso, tem muros, guard-rails, faixas bem pintadas, acostamentos amplos, e placas que sinalizam: umas indicam rumos (a tal cidade, a tal outra); outras, com a barra vermelha transversal, assinalam uma contramão e evitam que você se choque frontalmente com os veículos que vêm por ela); outras avisam de perigo (trecho em obras, curvas acentuadas, pista escorregadia) e sugerem moderar a velocidade.

Você diria que essas sinalizações, muros, avisos, restrições de velocidade, etc, são um abafamento da liberdade de movimentos dos motoristas que por lá trafegam? Só se estiver mal da cabeça. Liberdade de quê? Liberdade para quê? Para fazer despencar o carro por um barranco? Para estraçalhar o veículo e os ocupantes entrando na contramão?

Você já percebe para onde aponta essa comparação. A estrada é o caminho da vida rumo a Deus e à felicidade eterna. As sinalizações, mesmo quando dizem “não” ou “proibido”, estão garantindo uma viagem segura, rápida, isenta de perigos, rumo a um destino feliz.

Qual é o destino?

Apliquemos a comparação à nossa vida cristã. Qual é o destino, a meta?

Abra o Evangelho. Procure o capítulo 22 de São Mateus, e vai encontrar este diálogo. Um doutor da Lei de Moisés, com a intenção de pôr Jesus à prova, pergunta-lhe: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei”. Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento”. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo lhe é semelhante: “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22,35-40).

O que Deus manda é amar. Como diz Bento XVI, «o amor pode ser mandado, porque primeiro nos foi dado» (Enc. Deus caritas est, n. 14). Deus nos amou primeiro, amou-nos até o fim, dando a vida por nós antes de que lhe déssemos nada (cf. 1 Jo 4, 7-10).  Para Deus, o amor é tudo. Para nós é o sentido da vida e da morte: Quem não ama permanece na morte (1 Jo 3, 13).

Por isso, São Paulo afirma categoricamente que, por mais que façamos coisas difíceis e valiosas, se não temos amor, essas obras ficam vazias: se não tivesse amor, eu nada seria; se não tivesse amor, de nada me aproveitaria (cf. 1 Cor 13, 1-3).

Pensando nisso, entende-se muito bem o que diz São João Paulo II, na encíclica Veritatis splendor: “Deus, que é o único bom (cf. Mt 19, 17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos» (n. 35). Com os mandamentos, Ele nos ama, nos ensina a amar, marcando o caminho.

E a sinalização?

O amor é como o arco íris, desdobra-se em muitas cores. É isso, no fundo o que Jesus lembrou àquele jovem rico, idealista teórico, que já encontramos no segundo capítulo:

Chega correndo o moço, atira-se aos pés de Jesus, e pergunta: – Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?

Conheces os mandamentos – responde Jesus –: não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, não cometerás fraudes, honra teu pai e tua mãe.

Os diversos mandamentos da Lei de Deus, bem como os da Igreja, são o espectro da luz do amor. Por isso, Jesus dizia ao doutor da Lei: Desses dois mandamentos  – do amor a Deus e ao próximo – dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22, 40). Todos e cada um dos dez mandamentos particulares são modos de garantir os dois maiores: o amor a Deus e ao próximo.

Como? – talvez pergunte você –  Amor por meio de uma porção de proibições, de uma série de negações: não farás, não cometerás, não desejarás…?

Esses “não” são tão positivos e afirmativos como a sinalização das boas estradas. Não cometerás erros ao volante, não te afastarás da pista…, porque assim estarás conseguindo – como dizíamos – a plena afirmação: garantirás boa viagem e final feliz.

Não sei se reparou, mas cada proibição, quando bem entendida, é o “não” imprescindível para poder dizer um “sim” amoroso. Se Deus nos proíbe que odiemos, é para que fiquemos liberados para um amor sem limites. Se Deus nos diz: “Não pecarás contra a castidade”, “Não cometerás adultério”, é para que, dizendo “não” ao sexo egoísta, possamos dizer “sim” ao amor grande e fiel, vivido com a alma e com o corpo, dentro do matrimônio santo, generoso e fecundo; é “afirmar jubilosamente” – como dizia São Josemaria Escrivá – que a castidade é própria de enamorados que sabem entregar-se, que aprendem a dar-se e a iluminar o mundo com a sua doação sorridente…”

Isso nos leva a recordar o Ieimotiv destas páginas. Afirmávamos que a alegria é a irradiação do amor. Pois bem, todos os mandamentos – quando brotam como ramos vivos daqueles dois “primeiros” – são a estrada do amor.

Talvez agora entendamos melhor aquelas palavras do Salmo 19, que citávamos no começo: Os preceitos do Senhor são retos, alegram o coração.