5 – A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS

5-A ALEGRIA E AS LÁGRIMAS

A alegria do perdão

Feliz aquele cuja culpa foi cancelada e cujo pecado foi perdoado… (Sl 32, 1).

O filho pródigo, quando voltou à casa do pai, após anos de devassidão e desvarios, experimentou a verdade destas palavras do Salmo 32. Você seguramente se lembra de sua história, uma das mais belas parábolas de Cristo (Lc  15, 11-32).

O filho mais novo pede ao pai a herança adiantada, foge para longe, abusa de todos os prazeres, esbanja os bens recebidos e fica na mais abjeta miséria. Então, caindo em si, lembra-se da casa do pai, onde até os empregados têm pão com fartura. Diz então para si: Vou voltar para meu pai e dizer-lhe: “Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados”.

Envergonhado, apenas com um fio de esperança volta à casa do Pai. E quando chega perto, um choque indescritível lhe abala o coração: Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e, tomado de compaixão, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos. Não lhe deixa sequer pronunciar as palavras de arrependimento que havia preparado. Nem uma palavra de recriminação. Só alegria e festa: Trazei depressa – diz o pai, com o alento cortado pela emoção – a melhor túnica para vestir meu filho; colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei um novilho gordo e matai-o, para comermos e festejarmos; pois este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.

Muitos comentaristas do Evangelho, entre eles Bento XVI, dizem que esta parábola, em vez de se chamar “a parábola do filho pródigo”, deveria chamar-se “a parábola do pai misericordioso”. Toda ela, deliciosa em seus detalhes, é a voz de Cristo falando-nos da alegria do perdão.

Alegria de quem?

Não custa muito pensar que, uma vez refeito da surpresa, o filho pródigo tenha começado a chorar lágrimas vivas de sincero arrependimento e de gratidão. Soluços misturados com risos. Acabava de descobrir o que antes nunca vira: a imensidão do amor do Pai.

O pródigo ficou alegre, mas a sua alegria não foi a principal. Deixa-nos pasmados perceber que Jesus ensina que, quando um pecador se arrepende, quem fica mais alegre é o próprio Deus. Mencionamos há pouco a alegria festiva do pai, que simboliza Deus. Antes desta parábola do pródigo, Cristo narrou outras duas parábolas, a da ovelha e a da moeda perdidas, também sobre o perdão de Deus, e as conclui assim: Eu vos digo: haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento. Haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte  (Lc 15, 7 e 10).

Uma das melhores meditações sobre o filho pródigo é a de Henri J. M. Nouwen, no precioso livro A volta do filho pródigo (Paulinas, 1997). «Pode parecer estranho – comenta o autor –, mas Deus deseja tanto me encontrar, ou mais, do que eu a Ele. Sim, Deus precisa de mim tanto quanto eu preciso dele… Não seria bom acrescer a alegria de Deus, deixando que Ele me encontre, me carregue para casa e celebre com os anjos a minha volta? Não seria maravilhoso fazer Deus sorrir por lhe dar a chance de me encontrar e me amar perdidamente?» (p. 116).

Leia, por favor, o capítulo 15 do Evangelho de São Lucas. Devagarzinho, meditando  frase por frase. Vai descobrir, com a ajuda do Espírito Santo, que existe uma alegria enorme à sua espera, se você se decide a ser humilde, sincero, para reconhecer como o pródigo: Pai pequei!  E a pedir-lhe perdão sem amargura nem humilhação, dispondo a sua alma para receber uma alegria que possivelmente nunca experimentou:  a alegria de Deus, seu Pai, que quer partilhar com você sua felicidade; a que Jesus chamava minha alegria, que ninguém vos poderá tirar (Jo 15,11 e 16,22).

Se quer o testemunho de um sacerdote que já atingiu seis décadas após a sua ordenação e atendeu em confissão milhares de pessoas, creia que esse padre viu poucas alegrias tão grandes como as das pessoas que, depois de muitos anos afastadas – numa terra longínqua, como diz a parábola do filho pródigo –, se levantaram após uma confissão bem preparada, contrita e bem feita, palpitando de gozo, com lágrimas de alegria incontíveis. E pensar que alguns acham a confissão desnecessária ou absurda!

Um novilho gordo e um cabrito

Na parábola do filho pródigo, há uma sombra. A reação do irmão mais velho, que ferve de inveja do irmão e de indignação com o pai. Emburrado, nega-se a participar da festa que o pai preparou. E quando este o anima carinhosamente a entrar, explode: Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Mas quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo!

Esse irmão está triste. Pior do que isso, amargurado. Creio que tem razão aquele que dizia que a nossa tristeza se pode medir pelo número das nossas reclamações.

Veja como reclama. Apresenta a sua folha de serviços – há tantos anos que trabalho para ti  –, e cospe o fel do ressentimento por um fato sem transcendência: queria fazer uma festa com amigos, e o pai não gostou de que matasse um cabrito para isso. Que importância tem um churrasco frustrado ao lado de um irmão perdido?

É bem antipática a figura do irmão incapaz de se alegrar com o resgate do caçula. O que ele demonstra? Que trabalhava, sim, que cumpria os deveres, que seguia o figurino, que obedecia. Mas tudo isso, para ele, era uma carga mal suportada, que o oprimia . Via seus dias com o ar resignado de quem suporta um peso, uma obrigação a que não pode fugir. Não fazia as coisas com amor. Por isso, não podia estar alegre.

Não é verdade que há muitos que se parecem com ele? São boa gente, cumpridores, corretos, tanto no lar como no trabalho. Mas são tristonhos e desagradáveis. Não é grato trabalhar nem conviver com eles. Fazem-me pensar naquele bispo que quando lhe falavam de um padre e lhe diziam que era muito bom, perguntava: “Bom, para quê?” Esses são “corretos”, mas não são bons para o mais importante: o primeiro mandamento, o mandamento do Amor.

Um homem ou uma mulher que “cumprem”, que se julgam irrepreensíveis, mas que fazem tudo sem carinho, reclamando, remoendo invejas, são como uma granada de gás lacrimogêneo para os que vivem perto deles, e fazem pensar no retrato do tíbio, que Jesus faz no Apocalipse: Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te da minha boca (Ap 3, 15-16).

É duro pensar que a atitude do medíocre egoísta enoja Deus. Mas é tocante, ao mesmo tempo, comprovar a bondade de Cristo, que logo após sacudi-lo e abrir-lhe os olhos para seu erro, anima-o a comprar um colírio para curar teus olhos, a fim de que vejas, e, como o pai do pródigo, se adianta a perdoar:  Eis que estou à porta de teu coração e bato… (cf. Ap 3, 17-20).

Assim como Cristo é o pai da parábola. Após a diatribe do filho, diz-lhe carinhosamente: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.

Se você for capaz de compreender a beleza do arrependimento e o amor do nosso Pai Deus, também encontrará a alegria.