7 – A ALEGRIA E O SACRIFÍCIO

7-A ALEGRIA E O SACRIFÍCIO

Um amor chamado sacrifício 

Vamos completar aqui o capítulo anterior, meditando um pouco sobre um ingrediente essencial do amor que dá e que se dá:  o sacrifício. Naturalmente estou falando do sacrifício voluntário, que vai unido a um ideal de vida abnegada e generosa.

O modelo neste ponto, como em todas as outras coisas, é Cristo. Você se lembra da parábola do Bom Pastor, que é um autorretrato do Senhor? Ele faz alusão à sua próxima morte na Cruz e diz: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas… Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade (Jo 10, 11 e 18).

Cristo veio para isto:  para levar o amor [de Deus] até ao extremo (Jo 13, 1), para servir e dar a vida para a redenção de muitos (Mt 20, 28).

Sacrifício. Todas as formas de sacrifício são positivas? Não. O sacrifício  pode ser bom ou mau. Tudo depende do por quê e para quê nos sacrificamos.

Podemos sacrificar-nos por mera necessidade (sacrifício inevitável, suportado, para manter um emprego), ou por ambição (de dinheiro, de prestígio, de cargos), ou ainda por vaidade (beleza física, procura do aplauso), e até mesmo por prazer (um esporte radical).

Nenhum desses é aquele sacrifício de que Jesus fala quando diz: Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser guardar a sua vida, a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim, a encontrará (Mt 16, 24-25).

O ideal que Jesus nos propõe é  o da abnegação amorosa, do sacrifício abraçado para «ir atrás do Amor» (Caminho n. 790).

Abnegação alegre

Vamos ver o que diz o dicionário sobre a “abnegação”: «Ato caracterizado pelo desprendimento e altruísmo, feito em benefício de uma pessoa, superando as tendências egoístas».

Provavelmente você se recorda de que Jesus comparava a abnegação à “morte” do grão de trigo: Se não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem não faz conta da sua vida nesta terra, vai guardá-la para a vida eterna. Se alguém quer me servir, siga-me (Jo 12, 24-26).

Há pessoas que não souberam sacrificar-se nunca para o bem dos outros (deram apenas algumas ajudazinhas, como quem joga moedas de centavo entre pobres de rua); e, quando chegaram ao fim da vida, por doença ou por velhice, olharam para trás e sentiram e tristeza do seu vazio: “Agora já é tarde, não dá mais” . Teria sido tão bom semear sacrifícios com abnegação para colher espigas de alegria e amor! Nos que vivem dominados pelo egoímo, cumpre-se o ditado italiano que é citado nos Fioretti de São Francisco: «Chi non dà quello che li duole, non riceve quello que vuole – quem não dá o que lhe dói, não recebe o que quer».

Será que ainda não nos convencemos de que o egoísmo (proteger tanto o “eu, eu, eu!”) enforca a alegria? E o pior é que achamos que ser egoísta é uma esperta sensatez, muito útil para viver bem no mundo de hoje.

O problema é que nos falta – muito ou pouco − aquela loucura de que falava São Paulo: Cristo crucificado é escândalo e loucura…; mas o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens (1 Cor 1, 23.25).

E maio de 1974, São Josemaria Escrivá estava em São Paulo. Numa reunião com estudantes, um rapaz bem jovem lhe perguntou por que, como e quando, em tempos idos, o tinham chamado de “louco”. O santo respondeu:

− Você nunca viu um louco?

− Não, Padre.

− Não? Nunca viu ninguém que esteja louco?… Então, olhe para mim. Faz muitos anos diziam de mim: Está louco! Tinham razão. Eu nunca disse que não estivesse louco. Estou louquinho perdido de amor a Deus! E desejo a você a mesma doença[1].

Os “sensatos” e “sabidos”são calculistas. Poupam-se. Evitam sacrifícios que julgam exageros, ”loucuras”. Com a calculadora ligada, nunca conseguirão experimentar o verdadeiro amor.

Corações generosos

Há outros que, pelo contrário, foram generosos, não optaram – voltemos ao dicionário–,  por «defender-se, acautelar-se, proteger-se» dos sacrifícios.

O Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri, médico e professor universitário de grande prestígio, foi um deles. Fundador, com outros colegas, da Faculdade de medicina da Universidade de Navarra, hoje tem encaminhado seu processo de Beatificação.

Quando já sabia do câncer que o aproximava do fim, foi entrevistado por um jornalista. A entrevista é longa e tocante. Transcrevo a seguir só uns trechos:

O repórter escreve que o Dr. Eduardo, ao longo dos seus cinquenta anos de exercício da medicina, «espremeu sua vida, atendendo a uns quinhentos mil doentes para os quais não tinha limite de horários. “Às três da madrugada – dizia o doutor – pode-se salvar uma vida que, se a deixarmos para atender às nove horas, só vai dar para exarar um atestado de óbito”».

O professor conta o seu encontro com o Opus Dei, em 1952, e a sua conversão juntamente com a da esposa. Faz balanço da vida e conclui com simplicidade: «Tentei passar pela vida fazendo todo o bem que pude. Tentei, digo, mas não quero que me digam que consegui, porque me assusta a possível vaidade. Quero ir para o céu e lá não há lugar para os vaidosos»[2].

Foi um homem bom, um bom cristão, que se esforçou por viver o que pregava São Josemaria Escrivá, que para ele era um pai espiritual venerado: Quando vivemos em união com Deus, «o nosso coração se dilata e revestimo-nos de entranhas de misericórdia. Doem-nos, então, os sofrimentos, as misérias, os erros, a solidão, a angústia, a dor dos outros homens, nossos irmãos. E sentimos a urgência de ajudá-los em suas necessidades e de lhes falar de Deus, para que saibam tratá-lo como filhos e possam conhecer as delicadezas maternais de Maria» (É Cristo que passa, n. 146).

Assim, a vida se “complica”. Mas sacudimos o comodismo, a rotina morna e a “vidinha” aconchegada, saímos à procura do bem dos outros, e o sacrifício generoso se torna o bater do nosso coração.

O perfume do incenso 

«Nenhum ideal se torna realidade sem sacrifício» (Caminho, n. 175).

«O amor – diz belamente São Josemaria – traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz… Uma dor que é fonte de íntima alegria, porque supõe vencer o egoísmo e tomar o amor como regra de todas e cada uma de nossas ações» (É Cristo que passa, n. 43).

É assim que o cristão é feliz. Das cinzas do egoísmo que vai queimando, sobe até Deus um perfume de incenso, uma oferenda que Ele acolhe e retribui com as suas  bênçãos e a bem-aventurança terrena e eterna.

Veja o que conta o autor de uma breve biografia da Madre Teresa de Calcutá: «Nenhum hospital aceitaria as escórias humanas que ela aceita e acolhe com alegria sincera na sua casa, a dois passos do templo da deusa Káli, em Calcutá. E com que nome pensa você que uma ex-leprosa de Benares se tornou religiosa professa entre as Missionárias da Madre Teresa? Com o nome de Irmã Alegria. É toda uma radiografia desse espírito de felicidade no sacrifício».

«Nós nascemos – declarava a Madre Teresa – para amar e ser amados, e isso é muito mais forte do que tudo o que destrói o poder de amar». «Uma noite – contava –, alguém me disse:  “A senhora não fala nunca das dificuldades que encontra na sua tarefa diária”. E a minha resposta foi que eu não tinha nem tenho necessidade de falar das dificuldades e obstáculos que se apresentam – claro que se apresentam! – no nosso trabalho diário, porque todos sabem que isso acontece e que é normal que seja assim… O importante é dar a própria vida, sabendo que morrer não é senão ir para casa, voltar para casa, onde nos espera o Pai, com Jesus, com o Espírito Santo e com a Santíssima Virgem»[3].

Tomara que esses belíssimos exemplos nos movam a fazer um profundo exame da nossa vida e a acreditar, com fé viva, no que escreve São Paulo: Deus ama a quem dá com alegria (2 Cor 9, 7)?


[1] F.Faus, São Josemaria Escrivá no Brasil, 1ª ed., Quadrante, São Paulo 2007, p. 25

[2] Luis Ignacio Seco, La herencia de Mons. Escrivá de Balaguer. Ed. Palabra, Madrid 1986, pp. 98-109

[3] Miguel Ángel Velasco, Madre Teresa de Calcutá, Quadrante 1996, pp. 34 e 54