8 – A ALEGRIA E O PRAZER

8 – A ALEGRIA E O PRAZER

“Parábola”da estrada, o ídolo e o fogo

Na estrada da vida, muitas vezes encontramos sinais que nos convidam, como o piscar de uma seta luminosa que indica: “Ao prazer”. E acrescenta: “Rumo à felicidade”.

Muitos enveredam por essas bifurcações. Chegam assim a uma clareira de gramado fino esmaltado de  flores, no meio da qual se ergue um pedestal. Em cima dele, há um ídolo dourado que nos sorri. Letras de bronze o nomeiam: “O deus-prazer”.

Quando dele nos aproximamos, uma voz esotérica nos diz que, para obter os favores do deus sorridente devemos oferecer-lhe sacrifícios, à semelhança dos povos antigos. Para isso, ao pé do pedestal há uma pequena fossa escavada de onde saem chamas dançantes.

A voz meiga sussurra: “Atira na fogueira do sacrifício o que os tolos chamam Amor!” Obedecemos, ansiosos pelos favores do prazer. Imperceptivelmente, pouco a pouco, a fogo lento, o Amor vai se volatilizando em cinzas.

“Agora – voltamos a ouvir a doce voz –, sim, eu te guiarei para a liberdade e serás feliz. O deus-prazer será a estrela que te guie em todos os teus passos, será a finalidade das tuas procuras, o objeto dos teus anseios, o sentido da tua vida.”

 

Asas ou grilhões?

Há muitas pessoas que, desde a infância e a juventude cultuaram o prazer como seu único deus e senhor, sem incômodas barreiras moralistas. Foram incentivados a isso por adultos tortos, pregadores de falsos psicologismos, antropologismos, pedagogismos, panssexualismos, liberdades, e outros marketings sedutores, num clima de aparente seriedade cultural, científica, midiática, televisiva, etc.

Sentiram-se “livres” sem as amarras da moral (“é proibido proibir”), das convenções sociais, das imposições e deveres chatos, das renúncias e das fidelidades obsoletas que só prendem e traumatizam.

Passou-se um tempo – não muito, em geral – e acabaram se encontrando (mesmo que jamais o tenham reconhecido) transformados em escravos do ídolo dourado. Amarrados de tal maneira, que já não se podem livrar dele.

Tudo o que era estrada aberta para a felicidade, foi-se enevoando de desilusão, porque a seta sorridente do deus-prazer conduziu-os, inexoravelmente, para becos sem saída.É lógico. O prazer é insaciável. Sempre pede mais. Empurra para novas experiências, pede mais dose (de sexo, de álcool, de drogas, de frenesi dançante), e o acúmulo desses êxtases voláteis torna-se corrente de aço com que o ídolo escraviza.

Já não conseguem mudar, não têm mais forças. Tentam em vão quebrar a cabeçadas os muros do cárcere estreito em que seu deus os encerrou. Mas tudo neles – mente, coração e vontade – está doente. Os sentimentos, os valores, a capacidade de amar viraram pó na fogueira do ídolo. Alucinados, descobrem que os seus vícios (este é o nome exato), agora são armas letais que lhes ameaçam ou destroem o coração, os pulmões, o fígado, o sangue … e a consciência.

─  Só Deus – com maiúscula –, e o amor sacrificado dos outros (o tipo de amor que eles excluíram) podem, a grande custo, ajudá-los a se libertarem.

Na sua autobiografia, o escritor britânico C. S. Lewis conta que, antes da conversão, procurava e obtinha mesmo o prazer. Mas isso o deixava insatisfeito, «era como um cão de caça que perdeu o rastro […] Ao terminar de construir um templo para o prazer, descobri que o deus do prazer tinha ido embora». Comprovou que o prazer é fugaz e só o amor que se entrega dá a felicidade duradoura[1].

 

Um contraste

Dominique Lapièrre, outro escritor, conheceu e acompanhou de perto o trabalho da Madre Teresa de Calcutá. Num dos seus relatos, descreve os últimos dias de Josef, um doente de aids que, após várias experiências de vida, veio ser recolhido pelas irmãs da Madre Teresa.

Prostrado no leito, ficou maravilhado pelo brilho de felicidade que viu nos olhos da Irmã Ananda,  uma humilde indiana, filha espiritual da Madre Teresa, que cuidava  dele. Fulgurava naqueles olhos um alegria constante. E era fácil intuir que vinha do amor de um coração simples e abnegado.

Já agonizante, Josef conseguiu dizer à Irmã: «Vocês estão muito além do Amor!». Essa frase foi escolhida por Lapièrre como título de um livro[2].

Aquele rapaz que procurou o prazer na vida, veio encontrar à beira da morte uma migalha de alegria, na alma feliz de uma moça pobre que, para dar-se plenamente a Deus e aos irmãos, tinha renunciado a tudo o que homens e mulheres, deslumbrados pelo ídolo, consideram imprescindível neste mundo.

Tinha razão São Josemaria Escrivá quando respondia a uma jornalista: «O que verdadeiramente torna uma pessoa infeliz – e até uma sociedade inteira – é a busca ansiosa de bem-estar»[3].

Pensamento que se conjuga plenamente com estas palavras de uma carta da Bem-aventurada Isabel da Trindade: «O segredo da paz e da felicidade consiste em “desocupar-nos” de nós mesmos» (24 de novembro de 1904).

 

Dor, alegria e prazer

Jesus lembrava aos apóstolos, na Última Ceia, que há dores que nos levam à alegria. Falando do mistério da sua próxima paixão e ressurreição, dizia-lhes: Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores pela alegria de ter vindo um homem ao mundo (Jo 16, 20-21).

O exemplo é muito expressivo do que já comentamos acima sobre a alegria que procede do sacrifício e do sofrimento abraçados com fé. Cristo escolheu o exemplo perfeito, pois a mãe sofre e se alegra única e exclusivamente por amor.

A verdadeira “seta” que indica, sem enganos, o caminho da felicidade é a que nos orienta a “desocupar-nos” de nós mesmos, a esquecermos a “ânsia de bem-estar”, e a “sacrificar”, no altar do Deus vivo  e santo, as obsessões do nosso egoísmo.

─ E o prazer? É mau? Não. Andam erradas as pessoas que pensam, com pouco critério cristão, que só tem mérito e valor o que envolve sacrifício. Mais sacrifício, acham, mais santidade. Não. Mais amor, mais santidade!: este é o critério certo.

É verdade, naturalmente, que muitas vezes só haverá mais amor se houver um sacrifício maior e mais generoso.

Mas outras vezes haverá muito amor com agradável prazer: a alegria do amor conjugal, do convívio familiar, da contemplação da natureza e da arte, da partilha com amigos de alegrias esportivas, culturais, científicas e até culinárias. Lembre-se de que São Paulo, que fazia jejuns, também dizia: Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus (1 Cor 10, 31). E a seu discípulo Timóteo: Não bebas mais somente água; toma também um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas fraquezas frequentes (1 Tm 5,23).

São momentos muito agradáveis e felizes, que Deus abençoa. Se vividos com ordem e caridade, dão-nos uma alegria que não trocaríamos por nenhum prazer material.

Pense que o prazer está no lugar querido por Deus quando reúne as seguintes qualidades:

─ Quando é um coadjuvante dos atos e serviços de amor, de virtude, de perfeição nos deveres, nos trabalhos, no sadio descanso. Colaborador, não dono e tirano. O prazer não é um fim a ser procurado por cima de tudo – como fazem os adoradores do ídolo dourado –, mas um meio útil e bom para a prática do bem que Deus nos pede. Não empurrará os outros fora do ninho, como o chupim, mas compartilhará o calor do ninho com todos.

─ Quando o prazer é vivido com moderação, isto é, com a virtude da temperança, sem abuso nem exagero. As coisas agradáveis, praticadas com equilíbrio e medida, dão mais prazer ainda[4].

 

Uma bela experiência

Permita-me contar-lhe uma experiência pessoal. Em alguns feriados, quando o clima e o dever o permitem, gosto de passear umas poucas horas com um ou dois amigos por um parque que se encontra em uma zona periférica de São Paulo. Tem cinco ou seis quadras de futebol, muitos quiosques com churrasqueira rústica, parquinhos para crianças, pista para bicicross, e uma grande extensão de bosque, sem nada mais que um riachinho e umas trilhas, onde os amantes das árvores, plantas e pássaros passamos momentos agradabilíssimos, e não deixamos de rir dos ateus, ao extasiarmo-nos perante tanta beleza criada por Deus: “Tudo por acaso!”, comentamos brincando.

Os frequentadores do parque, muito numerosos, pertencem praticamente todos à que se convencionou chamar classe “C”. Famílias simples, muitas – pais, filhos, avós, tias… –, pessoas simples, enxames de crianças se embalando nos balanços, pedalando tropegamente na minibicicleta, colocando terra e areia num baldezinho de plástico, se encarapitando em rústicas escadinhas … Não há luxo. Não há aparelhos caros. Não há brinquedos eletrônicos de última geração…

Pois bem, os admiradores da botânica, ficamos felizes ao comprovar a alegria daquele povo, incomparavelmente superior à que se pode achar somando quase toda a população dos bairros mais “A” da cidade. É a alegria das coisas simples, das brincadeiras ingênuas, da harmonia familiar. Ficamos encantados, e pedimos a Deus que mostre a muitos hedonistas e consumistas tristes, sempre insatisfeitos, o segredo dessas risadas puras e dessas alegrias singelas que talvez nunca tenham conhecido.

 



[1] Cf. C. S. Lewis, Surpreendido pela alegria, Ed. MC, São Paulo 1998

[2] Muito além do amor, Ed. Salamandra, São Paulo 1992.

[3] Questões atuais do Cristianismo, 3ª ed. Quadrante, São Paulo 1986, p. 150

[4] Sobre a virtude da temperança, ver o livro Autodomínio-Elogio da temperança, Ed. Quadrante, São Paulo 2004.