11 – A ALEGRIA DE SER FILHO DE DEUS

11 – A ALEGRIA DE SER FILHO DE DEUS 

Um velho que foi sempre jovem

O apóstolo são João, quando já era muito velho – perto dos noventa anos –, dizia como quem não conseguiu sair do seu assombro:

Caríssimos, desde já somos filhos de Deus! (1 Jo 3, 2)

Sentia-se emocionado – com o ardor de um jovem – ao anunciar aos seus discípulos  o que Cristo fez por nós. Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, proclamava no prólogo do seu Evangelho  (Jo 1, 12).

Como impressiona perceber que esse apóstolo, que começou a seguir Cristo sendo um adolescente, passados tantos e tantos anos, ainda estremecia de alegria ao escrever: Vede com que amor nos amou o Pai, ao querer que fôssemos chamados filhos de Deus. E nós o somos de verdade! (1 Jo 3, 1).

É a mesma alegria, cheia de vibração, que experimentava São Paulo ao pensar no mistério da nossa filiação divina. Veja só dois trechos de suas cartas:

Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher…para que recebêssemos a adoção de filhos. E a prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Abá, pai!” (Gl 4, 4-6).

“Abá” era a palavra carinhosa que os filhos – sobretudo as crianças – usavam para chamar o pai; palavra que jamais um judeu se atreveria a usar para invocar a Deus.

Não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos pelo qual clamamos: Abá, Pai! … E, se somos filhos, também, somos herdeiros, herdeiros de Deus e coherdeiros de Cristo (Rm 8,15.17).

Se compreendêssemos essa realidade, nunca mais ficaríamos tristes.

Uma luz inesquecível

            Quando os santos “descobriram” essa verdade, tiveram uma sensação parecida com a de uma pessoa que se julgasse órfã e, de repente, descobrisse que tem um pai e uma mãe amorosos, de quem foram arrancados criminosamente na infância, mas que andaram sempre à sua procura, ansiosos por achar o filho perdido, dispostos a dar a vida e mil vidas que tivessem para poder abraçá-lo e derramar nele todos os tesouros de amor que, nos anos de dura separação, não lhe puderam dar.

Pois bem. Isso não é telenovela. É o que Deus fez por nós, pecadores, enviando seu Filho para ser o nosso Salvador, e enviando o Espírito Santo para que nos desse a graça da adoção de filhos, da identificação com Jesus Cristo.

Consideremos, como uma ilustração disso, o exemplo de um santo, que viveu como poucos o sentido da filiação divina. Refiro-me a São Josemaria Escrivá.

─ Um primeiro momento

Criado num lar cristão, educado em escola de padres, desde criancinha rezava com devoção, juntamente com a mãe, a oração que Jesus nos ensinou: o Pai-nosso.

Na juventude, como ele conta, «não poucas vezes tinha por costume não utilizar nenhum livro para a meditação. Recitava, degustando-as uma a uma, as palavras do Pai-nosso, e detinha-me – saboreando – na consideração de que Deus era Pai, meu Pai, de que me devia sentir irmão de Jesus Cristo e irmão de todos os homens. Não saía do meu assombro, contemplando que era filho de Deus!»[1]

Foi este um primeiro passo que todo cristão deveria dar

Mas não é o “fim da linha”. Se perseverarmos numa vida de oração filial, o Espírito Santo irá acendendo na nossa alma novas luzes e alegrias, com os dons de entendimento e de sabedoria.

São Josemaria foi favorecido por Deus com uma efusão extraordinária desses dons, que o habilitaram a ser – como o Senhor queria – um grande pregoeiro do sentido da filiação divina entre os cristãos.

─ Um segundo momento

Este santo narra uma ação extraordinária do Espírito Santo na sua alma.  Era o dia 16 de outubro de 1931. Já tinha recebido de Deus, em 2 de outubro de 1928, luzes do Céu  para fundar o Opus Dei. Em 1931, contava apenas 29 anos.

─ Naquele dia 16 anotou à noite, no seu caderno de apontamentos íntimos, umas poucas palavras: «Dia de Santa Edwiges de 1931. Quis fazer oração, depois da Missa, na quietude da minha igreja. Não o consegui. Em Atocha [Madrid], comprei um jornal (o ABC) e tomei o bonde. Até este momento em que escrevo isto, não pude ler mais que um parágrafo do jornal. Senti afluir a oração de afetos, copiosa e ardente. Assim estive no bonde, e até a minha casa»[2]. O enlevo que ainda o dominava não lhe permitiu escrever mais.

Anos mais tarde, evocaria o fato com mais detalhe: «Senti a ação do Senhor, que fazia germinar no meu coração e nos meus lábios, com a força de algo imperiosamente necessário, esta terna invocação: Abba! Pater !– Abá! Pai! Estava na rua, num bonde… Provavelmente fiz aquela oração em voz alta. E andei pelas ruas de Madri talvez uma hora, talvez duas, não sei dizer, o tempo passou sem eu o sentir. Devem ter me tomado por doido. Estive contemplando com luzes que não eram minhas essa verdade assombrosa, que ficou acesa como uma brasa na minha alma, para nunca mais se apagar»[3].

“Como filhos muito amados”

Já citávamos em páginas anteriores as seguintes palavras de São Paulo: Sede imitadores de Deus como filhos muito amados, e progredi no amor (Ef 5, 1-2).

Este é o programa da vida dos filhos de Deus.

Primeiro. Tomar consciência de que Deus é mesmo nosso Pai e nos ama muito, «mais do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos» (Caminho, n. 267). Tanto amou Deus o mundo – dizia Jesus, após conversar com Nicodemos –, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16).

É o que São João resume em três palavras: Deus é amor (1 Jo 4, 8).

São Gregório de Nissa afirmava que «é necessário contemplar sem cessar a beleza do Pai e com ela impregnar a nossa alma» (em Catecismo, n. 2784).

Para outro santo, o abade João Cassiano, só o fato de olhar para a paternidade Deus «é um grande fogo de amor; a alma nele se dissolve de se abisma no santo afeto, e se entretém com Deus como com seu próprio Pai, bem familiarmente, com ternura de piedade toda particular» (Ibidem, n. 2785).

Diante disso, é lógico que São Cipriano, o bispo mártir de Cartago, escrevesse: «Quando chamamos a Deus de nosso Pai, precisamos lembrar-nos de que devemos comportar-nos como filhos de Deus» (Ibidem, n. 2784).

Segundo. Comportar-nos como filhos de Deus.

Consiste em corresponder com amor ao Deus-Amor.

Você conhece provavelmente a encíclica de Bento XVI Deus caritas est (“Deus é amor”)? Vale a pena que a leia ou releia de novo. Vou transcrever a seguir um extrato “telegráfico” (porém literal) de alguns trechos: «O mandamento do amor [o primeiro mandamento: “amar a Deus sobre todas as coisas”] só se torna possível porque não é mera exigência: o amor pode ser “mandado”, porque, antes, nos é dado». Bento XVI está glosando palavras da primeira carta de São João:  Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou primeiro e enviou seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados (! Jo 4, 10).

«Na história de amor que a Bíblia nos narra – continua a encíclica –, ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos…, incessantemente vem ao nosso encontro… Ele continua a ser o primeiro a amar-nos…, e dessa “antecipação” de Deus pode, como resposta, despontar também em nós o amor».

A seguir, mostra uma característica essencial que deve ter o nosso amor: « Querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor: um tornar-se semelhante ao outro, que leva à união do querer e do pensar. A história do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no fato de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade… Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-Se a nossa alegria» (cf. Sl 73, 23-28).

Terceiro. Tirar consequências dessa “união de vontades”, medula e essência do verdadeiro amor. Por exemplo:

─ Fé na Providência, aconteça o que acontecer. Vosso Pai vê, vosso Pai sabe. Não vos inquieteis. Não vos preocupeis, pequeno rebanho . Porque o Pai  faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (mesmo as que nos parecem mais incompreensíveis): cf. Lc 12, 22 ss. e Mt 6, 25 ss; e Rm 8, 28.

─ Confiança filial na oração: Ora a teu Pai q          ue vê em segredo (Mt 6, 6), que está presente no mais íntimo de nós. A esse Pai, se um filho lhe pedir um pão, não lhe dará uma pedra (Lc 11, 11).

─ Viver na presença de Deus. Todos nós, se tivéssemos fé, poderíamos dizer, como Jesus: O Pai … está comigo, e não me deixa só (Jo 8, 29). Com quanta razão diz São Josemaria: «É preciso convencer-se de que Deus está junto de nós continuamente. − Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. ― E está como um Pai amoroso − quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos −, ajudando-nos, inspirando-nos, abençoando e perdoando (Caminho, n. 267).

─ Sentir e viver entre nós a fraternidade dos filhos de Deus, dos irmãos, membros da família de Deus (Ef 2, 19), que participam do mesmo amor do Pai: Se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros (1 Jo 4, 11). Por sermos filhos e termos recebido o Espírito Santo – o Amor divino em pessoa – «estamos em condições de esbanjar carinho a mãos cheias entre os que nos rodeiam, porque nascemos para a fé pelo amor do Pai. Peçamos ousadamente ao Senhor este tesouro, esta virtude sobrenatural da caridade, para levá-la à prática até ao seu último detalhe» (Amigos de Deus, n. 229).

Se procurarmos fazer assim, se nos esmerarmos em imitar o amor filial de Cristo, poderão dizer de nós o que dizia de São Josemaria um bispo que o conheceu muito bem: «Tinha uma alegria constante, radicada – notava-se claramente – na profunda consciência da filiação divina. Nunca o vi triste nem abatido… Tudo avaliava sobrenaturalmente e de um modo otimista e positivo»[4].

 

 



[1] A. Vázquez de Prada,  O Fundador do Opus Dei, vol. I, p. 369

[2] A. Vázquez de Prada, op. cit., vol. I, pp. 355-356, em 2 de outubro de 1928,6

[3] Ibidem, p. 356

[4] D. José López Ortiz, Testimonios sobre el Fundador del Opus Dei, n. 6, p. 64