13 – JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS

13- “JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS”

Qual é o Cristo que tu vês?

Provavelmente você já se deliciou alguma vez escutando a cantata 147 de Bach, Jesus, alegria dos homens.  É belíssima, na sua simplicidade, e resume o que vamos meditar neste capítulo. Lembra-se dos dois primeiros versos? Traduzidos, dizem: «Jesus continua sendo a minha alegria, / o conforto e a seiva do meu coração?»

Se você é cristão, será que pode repetir sinceramente esses versos? Se não pode, pense que ainda não encontrou Cristo. Talvez deva aplicar a si mesmo estas palavras: «Esse Cristo que tu vês não é Jesus. – Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… » (Caminho, n. 212).

Todos aqueles que o “viram”, que o conheceram, conservaram a vida toda uma alegria incomparável e definitiva. Os apóstolos, por exemplo.

 O que nós vimos…

─ São João, o adolescente que seguiu Jesus, passado muito tempo, quando era um ancião de mais de noventa anos, continuava a desejar ardentemente que outros partilhassem da sua alegria: O que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam no tocante ao Verbo da vida [Jesus, o Filho de Deus, o Verbo feito carne], isso que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que vós tenhais comunhão conosco. Nós vos escrevemos estas coisas para que a vossa alegria seja completa (cf.1 Jo 1, 1-4).

─ Veja como são tocantes também as palavras de São Pedro: Este Jesus vós o amais,sem o terdes visto; credes nele, sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Pd 1, 8).

─ E São Paulo,  o perseguidor “conquistado” por Cristo ressuscitado às portas de Damasco (cf. At 9, 4-6; Fl 3, 12: Pelo conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo (Fl 3, 8). E ainda: A minha vida atual na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gl 2, 20).

Onde está Jesus?

Quando Cristo é “encontrado” – hoje como há dois mil anos –, ele se torna a fonte da máxima alegria. Digo “encontrado”, mas não sei se isto já aconteceu conosco. Olhe que podemos ser como os discípulos de Emaús que, tendo junto deles Jesus ressuscitado, conversando com ele, tendo-o sentado à mesa com eles, tinham os olhos como que vendados, incapazes de reconhecê-lo (Lc 24, 16). Quando Jesus se deu a conhecer, seus olhos se abriram e o reconheceram. Então um disse ao outro: “Não é verdade que o nosso coração estava ardendo quando ele nos falava pelo caminho? (Lc 24, 31-32). Imediatamente voltaram correndo para Jerusalém, ansiosos por transmitir a sua felicidade – Jesus vive! – aos demais.

Sim. «Cristo vive!  – exclama São Josemaria numa homilia de Páscoa –. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé» (É Cristo que passa, n. 102). Vive e está muito mais perto de nós do que muitos católicos praticantes conhecem ou imaginaram nunca.

Se abríssemos por completo o leque da nossa fé, deveríamos dizer: Cristo está na alma em graça; Cristo está na Eucaristia; Cristo é quem atua e confere a graça em todos os Sacramentos; Cristo age também, como cabeça de sua Igreja, em cada ação litúrgica; Cristo está nos irmãos sofredores que ajudamos (“a mim o fizestes”); Cristo vive na Igreja, que é o seu Corpo Místico, inseparável da Cabeça; Cristo está presente onde dois ou mais oram em seu nome…

Não é possível glosar neste capítulo essa riqueza imensa de presenças. Vamos deter-nos apenas nas duas primeiras formas de presença que mencionamos. Só aprofundando nelas, podemos encontrar tesouros inesgotáveis da alegria.

No centro da nossa alma em graça

Jesus está no centro da nossa alma em graça. Entende o que isso significa? Ouçamos Jesus.

Na Última Ceia, quando se despedia – num clima de emoção e expectativa – manifestou mistérios inefáveis aos apóstolos. Entre outras coisas, garantiu-lhes que a sua morte na Cruz não o separaria deles; ao contrário, ficaria muito mais perto deles do que antes.

Em verdade vos digo: chorareis e lamentareis… Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria… Eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria (cf. Jo 16, 20-22).

Nessa mesma noite da Ceia, fez-lhes uma promessa inaudita, que deve ter deixado os apóstolos pasmados: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada (Jo 14, 18.23).[1]

Jesus disse o que quis dizer. Isto é, que se amamos a Jesus, se cumprimos seus preceitos e guardamos sua palavra, se nos mantemos na graça de Deus, ele virá à nossa alma e ficará “morando” nela! Você entende? Jesus virá com o Pai e o Espírito Santo, mas virá como quem é, divino e humano, com olhar de carinho, com coração humano, amoroso… Onde quer que nós estejamos, sempre poderemos dizer-lhe: “Creio firmemente que estás aqui, que estás em mim, que me vês, que me ouves…” E poderemos experimentar a verdade anunciada: “o vosso coração se alegrará.”

Peça a graça de crer firmemente, e conquistará a alegria de tê-lo tão intimamente presente, de se sentir acompanhado por ele em tudo, de poder-lhe falar do que você faz e sente: na rua, na sua casa, no ônibus, na biblioteca, na lanchonete, no clube, na praia …? Sim. Como dizia São Josemaria: «nos nossos corações há habitualmente um Céu»[2].

Na santíssima Eucaristia

Ao pensar na Eucaristia, estamos nos aproximando do cume máximo do amor de Cristo por nós. Como a Igreja repete, do «ápice e centro da vida cristã».

«A santíssima Eucaristia – dizia Bento XVI – é a doação que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem… Jesus continua a amar-nos “até o fim”, até o dom do seu corpo e do seu sangue. Que enlevo se deve ter apoderado do coração dos discípulos à vista dos gestos e palavras do Senhor durante aquela Ceia! Que maravilha deve suscitar também no nosso coração o mistério eucarístico»[3].

Pense com que emoção os discípulos, depois da Ascensão do Senhor, repetiriam – tal como Cristo lhes havia mandado – o milagre da Última Ceia: Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós ― Este é o cálice do meu sangue, derramados por vós e por muitos para remissão dos pecados. Palavras que o próprio Jesus continua pronunciando – por intermédio dos sacerdotes – e que realizam exatamente o que dizem: tornam o pão no Corpo e o vinho no Sangue do Salvador, fazendo presente o ato supremo da sua entrega por nós na Cruz.

Na sua Encíclica sobre a Eucaristia, São João Paulo II escreveu: «Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central da salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção” (n. 11).

A Missa – dizia ainda –, «o sacrifício eucarístico, torna presente não só o mistério da paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-se “pão da vida”, “pão vivo”, na Eucaristia (cf. Jo 6, 35.48.51)» (n. 14).

Esta é a nossa fé. «Eis o mistério da fé». Na Eucaristia, Jesus se faz presente “com seu corpo, seu sangue, sua alma e sua divindade”. Ele se oferece por nós, dá-se como alimento na Comunhão, e fica permanentemente presente, à nossa espera, no Sacrário.

É uma presença que traz consigo não só Jesus, mas toda a sua obra de salvação, pois «tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente» (Catecismo, n. 1085).

Estamos diante de um mistério muito grande! Fascinante! Veja só algumas das alegrias que nos pode infundir:

─ Na Missa, na celebração da Eucaristia, eu – você, todos – posso estar vivendo “realmente” junto do Presépio, adorando Jesus Menino, no tempo do Natal. Posso acompanhar “realmente” Jesus, ao lado de Nossa Senhora, enquanto sobe ao Calvário para dar a vida por nós, na Semana Santa. Posso alegrar-me com a Virgem, com Madalena, com os apóstolos, na Páscoa, e reviver “realmente” com eles a ressurreição de Jesus, unindo-me ao júbilo dos que proclamam: “ressuscitou verdadeiramente”!  …

─ Na Comunhão recebo Jesus em pessoa – deixe-me repetir  –, “com seu corpo, seu sangue, sua alma e sua divindade!” Quantas coisas não lhe posso dizer! Quantos atos de adoração e amor! Quantas ações de graças e petições confiantes! Compreendo que os santos ficassem extasiados diante da Hóstia Santa e dissessem, como São João Maria Vianney, o Cura d’Ars: «Se soubéssemos como Nosso Senhor nos ama, morreríamos de felicidade. Não creio que haja corações tão duros como para não o amar, sentindo-se eles tão amados… A única felicidade que temos na terra é amar a Deus e saber que Ele nos ama»[4].

─ Em todos os sacrários –nas igrejas, nas capelas e oratórios –, está Jesus realmente presente. Não se cansa de nos esperar. Como dizia São Josemaria: «Quando te aproximares do Sacrário, pensa que Ele! … faz vinte séculos que te espera (Caminho, n. 537). Basta entrar cinco, dez, quinze minutos para visitá-lo e abrir-lhe o coração… Vale a pena!

Tomara que possamos repetir muitas vezes a saborosa experiência de São João Paulo II: «É bom demorar-se com ele e, inclinado sobre seu peito como o discípulo predileto (cf. Jo 13, 25), deixar-se tocar pelo amor infinito de seu coração… Como não sentir a necessidade de permanecer longamente em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio!» (Encíclica sobre a Eucaristia, n. 25).

Quer ter muita alegria? Acredite nas promessas de Jesus. Simplesmente, saiba que são verdadeiras. Ele as cumpre, hoje e sempre:

Eu vos chamo amigos. Como o Pai me ama, eu também vos amo. Permanecei no meu amor. (Jo 15, 15.9).

Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28, 20).



[1] Pouco antes, falara do Espírito Santo, que permanecerá convosco e estará em vós (Jo 14, 17). É a presença da Trindade em nós, o mistério que a teologia chama “a habitação da Trindade na alma do justo”.

[2] Cf. o livro São Josemaria Escrivá no Brasil, 1ª edição, p. 30

[3] Exortação Apostólica Sacramentum caritatis, nn. 1 e 2

[4] Marc Joulin, Vida del Cura de Ars, Ed. Rialp, Madrid 1987, p. 82