14 – A ALEGRIA NO ESPÍRITO SANTO

14 – A ALEGRIA NO ESPÍRITO SANTO

Templos do Amor

            Quando São Paulo escreveu aos cristãos de Roma, por volta do ano 57, já tinha notícia de que, também lá na capital do Império, alguns recém convertidos sofriam com dúvidas acerca da obrigação ou não a abster-se de certos alimentos proibidos pelos seus antigos ritos religiosos.

São Paulo os tranquiliza e lhes diz que não precisam se preocupar, pois o Reino de Deus [a nova vida divina trazida por Cristo] não é comida e bebida, mas santidade e paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14, 17).

Alegria no Espírito Santo! São Paulo gostava de alegrar os primeiros cristãos comunicando-lhes a boa nova de que nós, os batizados, já somos agora “templos de Deus, templos do Espírito Santo”. Ele insiste especialmente nisso quando escreve aos coríntios, entre os quais tinham surgido confusões: Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Cor 3,16). E ainda: Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós? (1 Cor 6, 19).

Você lembra que, no capítulo anterior, falávamos de que Cristo vive em nós, no centro da alma em graça, e esclarecíamos que, onde está o Filho estão também o Pai e o Espírito Santo, está a Trindade inteira. Por que, então, Paulo frisa tanto que é o Espírito Santo quem habita em nós? A resposta é simples e bela: porque, no seio da Trindade, o Espírito Santo é o Amor substancial de Deus, a “corrente divina de Amor” (como diria São Josemaria), que vai do Pai ao Filho e do Filho ao Pai. E Paulo sabia bem que o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5).

A alegria da intimidade divina

            Já sabemos – e é bom repeti-lo – que a alegria é a irradiação do amor. Tendo, pois, em nós o Amor divino, isso significa que o Espírito Santo nos dá a capacidade sobrenatural (para além das forças humanas) de alcançarmos alegrias divinas, incomparavelmente superiores às alegrias humanas.

A principal alegria é descobrir que podemos ter uma intimidade muito grande com o Deus-Amor que veio habitar em nós. E que – como aos Apóstolos depois de Pentecostes –, esta chama de Amor inflama o desejo e a coragem de levar a alegria de Deus a muitos outros (cf. At 2,14 ss).

Esta descoberta, esta luz da fé, levou Santo Agostinho a dirigir-se a Deus com estas palavras: «Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde de amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu, fora… Estavas comigo e eu não estava contigo… Chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste a minha cegueira; exalaste perfume e respirei, e anelo por ti; provei, e tenho fome e sede; tocaste-me, e ardi por tua paz» (Confissões 10, 27.38).

Não sei se você conhece a Bem-aventurada Elisabete da Trindade. É uma santa carmelita que captou, com uma clarividência deslumbrante, o mistério da presença da Trindade na alma. Ela dizia: «Encontrei o meu céu na terra, pois o céu é Deus e Deus está na minha alma. No dia em que o compreendi, tudo se tornou luminoso para mim e eu gostaria de confiar este segredo, bem baixinho, àqueles que amo».

Na véspera da sua morte, a jovem Elisabete escreveu o seguinte bilhete: «Acreditar que um Ser, que se chama Amor, habite em nós a qualquer momento do dia e da noite e que nos pede que vivamos em comunhão com ele, eis o que transformou a minha vida num céu antecipado»[1].

A fonte e a brasa

Perto da sua Paixão, Jesus comparava o Espírito Santo a uma fonte interior, aberta por Deus na alma, que não para de derramar em nós as suas águas vivificantes: No último e mais importante dia da festa [festa dos Tabernáculos], Jesus, de pé, exclamou: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Do seio daquele que acredita em mim, correrão rios de água viva, como diz a Escritura. Jesus disse isso falando do Espírito Santo, que haviam de receber os que acreditassem nele» (Jo 7, 37-39).

O Espírito Santo, que Jesus enviou como fruto da sua redenção na Cruz, é a fonte viva de todas as graças. Une-nos a Deus, identifica-nos com Cristo, implanta na alma a capacidade de atingir Deus com as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade; impregna de amor sobrenatural as outras virtudes, infunde em nós os seus dons, inspira-nos e impele-nos a fazer a vontade de Deus, e faz amadurecer na alma os seus frutos: caridade, alegria, paz… (cf. Gl 5, 22).

Por isso, quando, com a ajuda da graça, mergulhamos neste abismo de luz, pela fé e o amor, a nossa vida muda:

─ Ganhamos uma intimidade com Deus que nos enriquece e ilumina. A Igreja suplica, cantando: «Vinde, Pai dos pobres, / vinde, doador das graças, / vinde, luz dos corações»[2].

─ A alma fica inundada por uma luz de fé cada vez mais cativante: «Ó luz felicíssima, / enchei até o íntimo / os corações dos vossos fiéis».

─ O fogo do Espírito Santo nos purifica; ele vai limpando e queimando as nossas misérias: «Lavai, pois o que está manchado, / ao que tem sede, dai-lhe água, / curai o que está enfermo. // Abrandai o que é duro, / aquecei o que tem frio, / guiai o que anda errado».

─ Ele nos consola e anima nas dificuldades, tristezas e cansaços: «Ó Consolador perfeito, / doce hóspede da alma, / suave refrigério».

─ Ele nos ensina constantemente que o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo: da doação aos demais, da misericórdia, do consolo, do auxílio que lhes prestamos em suas necessidades materiais e espirituais (cf. 1 Jo 2, 9-10; 3, 14-17; 4, 11).

Por isso, sempre, quem corresponde generosamente à graça do Espírito Santo e se deixa invadir pela sua luz e o seu calor, torna-se ele mesmo luz e calor para os outros. Quando São Josemaria Escrivá esteve no Brasil, em uma das reuniões com muitas pessoas alguém lhe perguntou como viver o dever cristão da caridade e do apostolado. Era a solenidade de Pentecostes, dia 2 de junho de 1974. São Josemaria respondeu:

— «Todos os cristãos temos a obrigação de levar o fogo e Cristo a outros corações… Olhe, você e eu somos pouca coisa. No fundo do meu coração vejo-me a mim mesmo como uma espécie de nada. Vamos dizê-lo com uma comparação: vejo-me a mim mesmo como um carvão que nada vale: preto, escuro, feio… Mas o carvão, metido no fogo [estava falando do fogo do Espírito Santo], se acende e se converte numa brasa: parece um rubi esplêndido. Além disso, dá calor e luz: é como uma joia reluzente. E caso se apague? Outra vez carvão! E caso se consuma? Um punhadinho de cinza, nada.

» Meu filho, você e eu temos de inflamar-nos no desejo e na realidade de levar a luz de Cristo, a alegria de Cristo, as dores e a salvação de Cristo a tantas almas de colegas, de amigos, de parentes, de conhecidos, de desconhecidos – sejam quais forem as suas opiniões em coisas da terra –, para dar a todos um abraço fraterno. Então, seremos rubi aceso, e deixaremos de ser esse nada, esse carvão pobre e miserável, para sermos voz de Deus, luz de Deus, fogo de Pentecostes!»[3].

Quem enxergar as verdades que hoje meditamos, entenderá muito bem que São Paulo tenha dado aos primeiros cristãos o ”mandamento” da alegria: Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos! O Senhor está perto. Não vos preocupeis com coisa alguma … E a paz de Deus, que supera todo entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus (Fl 4, 6-7).

Bento XVI dizia que «o amor pode ser mandado, porque, antes, nos é dado» (Enc. Deus caritas est, n. 14). A mesma coisa podemos dizer da alegria: ela pode ser “mandada” porque, antes, nos foi dada pelo Espírito Santo.

 



[1] Cf. Elisabete da Trindade, A Trindade que habita em nós, E. Paulinas 1984, 3ª edição. São Paulo 1984, pp. 13 e 58

[2] Os versos citados neste parágrafo e nos seguintes são da Sequência litúrgica da Missa do dia de Pentecostes.

[3] F. Faus, São Josemaria Escrivá no Brasil, 1ª ed., Ed. Quadrante, São Paulo 2007, p. 35