15 – A FELICIDADE DA ORAÇÃO

15 – A FELICIDADE DA ORAÇÃO

A oração, fonte de alegria

A oração é uma grande fonte de alegria. Disso vamos tratar no presente capítulo. O título está tomado de uma catequese do Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney:

«Deus não tem necessidade de nós: se ele nos pede que rezemos é porque deseja a nossa felicidade, e essa felicidade só pode ser encontrada na oração…».

Vou transcrever a seguir trechos da pregação de três santos sobre a oração. Não escolhi nenhum dos grandes místicos – monges, religiosas contemplativas, etc. –, que têm muitas páginas admiráveis sobre as alegrias da oração, porque fiz questão de escolher três sacerdotes que, no meio do mundo, pregavam para cristãos comuns, gente da rua, homens e mulheres iguais aos que hoje frequentam as Missas de domingo nas cidades e na roça.

Pode ser que você se impressione ao ler estes três textos de pregação ao povo, achando que são elevados demais. Talvez lhe aconteça isso porque ainda não se convenceu de que – como a Igreja ensina – todos os batizados somos chamados à santidade, ou seja, a uma vida de muito amor e intimidade com Deus, que transborde em amor ao próximo.

Será bom, por isso, lembrar o que escrevia São João Paulo II quando entramos no terceiro milênio. Indicava que era preciso voltar a propor a todos a «medida alta» da vida cristã, com uma «pedagogia de santidade», e esclarecia: «Para essa pedagogia de santidade, há a necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração […]. Seria errado pensar que o comum dos cristãos possa contentar-se com uma oração superficial, incapaz de encher a  sua vida» (Carta apostólica No início do novo milênio, nn. 33 e 34).

Sob esse foco, meditemos, pois, agora nos três testemunhos de que falava antes.

São João Crisóstomo

Nascido na primeira metade do século IV, foi ordenado Bispo, e veio a ser Patriarca de Constantinopla. Seu “sobrenome”, Crisóstomo (“boca de ouro”) lhe foi dado pelo povo pelas suas extraordinárias qualidades como pregador. As suas homilias ocupam muitos volumes. De uma delas, que trata da oração, selecionei os seguintes trechos:

«O bem supremo é a oração, o colóquio com Deus, porque é relação com Ele e união com Ele. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando veem a luz, a alma voltada para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas provém do coração; que não se limita a ocasiões ou horas determinadas, mas está dia e noite em contínua atividade…

»A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus… Pela oração, a alma se eleva aos céus e abraça o Senhor em inefáveis amplexos… Exprime seus desejos e recebe dons superiores  a toda a natureza visível.

»A oração, pela qual nos apresentamos em adoração diante de Deus, traz alegria e paz ao coração… Semelhante oração é uma riqueza que não pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se no desejo eterno de Deus, como de um fogo devorador que abrasa o coração. Entrega-te, pois, à oração…, e adorna-a com boas obras…» (Homilia n. 6 sobre a Oração).

São João Maria Vianney

Este humilde pároco da pequena cidadezinha de Ars, na França, atraiu muitos milhares de almas, que acorriam de toda a parte às suas Missas, catequeses e confissões,  porque era muito santo. Como dizia um descrente, que se converteu só de vê-lo uma vez: “Eu vi Deus num homem”.

Pregava muito aos seus paroquianos, na maioria lavradores daquele povoado perdido no mapa. Trabalhou até ao esgotamento – sobretudo atendendo horas e horas de confissões –, mas rezou ainda mais : muitas horas de oração diante do sacrário; e fez muita penitência pela conversão dos pecadores. Isso explica que um padre como ele, simples e sem muita cultura, tenha obtido frutos pastorais incríveis e seja hoje o padroeiro de todos os párocos do mundo.

Vamos meditar sobre algumas palavras das suas deliciosas catequeses:

«Prestai atenção, filhinhos meus; o tesouro do cristão não está na terra, está nos céus. Por isso, volte-se o nosso pensamento para onde está o nosso tesouro. É esta a linda profissão do homem: rezar e amar. Se orais e amais, aí está a felicidade do homem sobre a terra.

»A oração é toda a felicidade do homem. Quanto mais se reza, mais se quer rezar: é como um peixe que nada na superfície da água e logo se submerge até o mais profundo do mar. A alma se abisma, mergulha no amor do seu Deus.

»A oração é simplesmente união com Deus. Se alguém tem o coração puro e unido a Deus, sente uma suavidade e doçura que inebria, envolve-o numa luz maravilhosa. Nesta íntima união, Deus e a alma são como duas ceras fundidas juntas, que ninguém pode separar. Coisa linda, a união de Deus com a sua pequenina criatura; felicidade impossível de se imaginar…

» A oração nos antecipa o gozo do céu, faz descer algo do paraíso até nós. Jamais nos deixa sem doçura; e um mel que flui na alma e tudo adoça. Na oração bem feita, os sofrimentos se dissolvem como a neve ao sol…» (Catechisme sur la prière, em A. Monnin, L’Esprit du Curé d’Ars, pp. 87-89).

São Josemaria Escrivá

            A grande luz de Deus que São Josemaria recebeu em 1928 – uma luz que ficou plasmada na fundação do Opus Dei – era um apelo divino para proclamar por todos os cantos do mundo que Deus chama todos os batizados, seus filhos, à santidade; e para anunciar que a santidade é acessível a todos, pois os cristãos comuns podem alcançar essa meta – santificar-se e fazer apostolado em meio ao mundo – através da santificação do trabalho profissional, da vida familiar e dos demais deveres cotidianos do cristão.

Bem no começo de uma homilia que intitulou Rumo à santidade, da qual citaremos a seguir alguns trechos, São Josemaria dizia: «Sentimo-nos atingidos, com um forte estremecimento no coração, ao escutarmos atentamente o grito de São Paulo: Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação (1 Ts 4, 3). É o que hoje, uma vez mais, proponho a mim mesmo, recordando-o também a quantos me ouvem e à humanidade inteira: esta é a Vontade de Deus, que sejamos santos».

Repisando esse chamado universal à santidade, explicitava a seguir que Deus «chama cada um à santidade e a cada um pede amor; a jovens e velhos, a solteiros e casados, a sãos e enfermos, a cultos e ignorantes; trabalhem onde trabalharem, estejam onde estiverem. Só há um modo de crescer na familiaridade e na confiança com Deus: ganhar intimidade com Ele na oração, falar com Ele, manifestar-lhe – de coração a coração – o nosso afeto» (Amigos de Deus, nn. 294 ss.). Apresentava assim a oração e a santidade como realidades inseparáveis. E, depois, marcava rumos:

«Começamos com orações vocais, que muitos de nós repetimos quando crianças … Primeiro, uma jaculatória, e depois outra, e mais outra…, até que parece insuficiente esse fervor, porque as palavras se tornam pobres…, e se dá passagem à intimidade divina, num olhar para Deus sem descanso e sem cansaço. Vivemos então como cativos, como prisioneiros. Enquanto realizamos com a maior perfeição possível, dentro dos nossos erros e limitações, as tarefas próprias da nossa condição e do nosso ofício, a alma anseia escapar-se. Vai-se rumo a Deus, como o ferro atraído pela força do ímã. Começa-se a amar Jesus de forma mais eficaz, com um doce sobressalto…

»Uma oração e uma conduta que não nos afastam das nossas atividades habituais e que, no meio dessas aspirações nobremente terrenas, nos conduzem ao Senhor. Elevando todos os afazeres a Deus, a criatura diviniza o mundo. Quantas vezes não tenho falado do mito do rei Midas, que convertia em ouro tudo o que tocava! Podemos converter tudo o que tocamos em ouro de méritos sobrenaturais, apesar dos nossos erros pessoais» (Ibidem, nn. 296, 308).

Após comentar diversas condições da vida de oração, sublinhava que a oração deve penetrar suave e fortemente no cotidiano, de maneira que o cristão comum não separe a vida ordinária da oração (da Missa, Comunhão, leituras cristãs, meditação, lectio divina, Santo Rosário, etc.[1]). Não são dois compartimentos separados nem separáveis:

 

«Quando a fé vibra na alma, descobre-se que os passos do cristão não se separam da própria vida humana corrente e habitual. E que essa santidade grande, que Deus nos reclama, se encerra aqui e agora, nas coisas pequenas de cada jornada…

» Rogo ao Senhor que nos decidamos a alimentar na alma a única ambição nobre, a única que vale a pena: caminhar ao lado de Jesus Cristo, como fizeram sua Mãe bendita e o santo Patriarca [São José], com ânsia, com abnegação, sem descuidar nada. Participaremos na felicidade da divina amizade – num recolhimento interior compatível com os nossos deveres profissionais e com os de cidadãos – e lhe agradeceremos a delicadeza e a clareza com que nos ensina a cumprir a Vontade do nosso Pai que habita nos céus» (Ibidem, nn. 300, 312).

Na Missa solene em que João Paulo II canonizou São Josemaria, lembrava à multidão de fiéis presentes na praça de São Pedro: «São Josemaria foi um mestre na prática da oração… Recomendava sempre: “Em primeiro lugar, oração; em segundo lugar, expiação; em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, ação”(cf. Caminho, n. 82)… Este é, no fundo, o segredo da santidade e do verdadeiro sucesso dos santos» (Homilia, 6/10/2002).

Depois disso, talvez não esteja fora de lugar encerrar este capítulo com as célebre frase de Leon Bloy: «A única tristeza que existe é a de não ser santo».

 

 

 

 

 

 

 



[1] Sobre a oração e as suas diversas formas, vale a pena ler os números 2558 a 2865 do Catecismo da Igreja Católica, edição típica vaticana (Ed. Vozes e Loyola). Pode ajudá-lo a exercitar-se praticamente nas diversas formas de oração cristã o livro de F. Faus Para estar com Deus, Ed. Cultor de Livros/ Cléofas.