19 – A ALEGRIA ETERNA

19. A alegria eterna

O inefável

Todas as verdadeiras alegrias da terra são pequenos reflexos da Alegria eterna, ou seja, de Deus, o Amor eterno.

Lembra-se do samba-canção Chão de estrelas, que Sílvio Caldas gostava de cantar? Ele evoca com saudades «meu barraco no morro do Salgueiro», e – muito poeticamente −, diz: «A porta do barraco era sem trinco, mas a lua, furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão…».

São versos bonitos e sugestivos. Porque todas as alegrias deste mundo são como esses pontinhos de luar que − no claro-escuro da fé − se filtram dentro da alma, a iluminam, e despertam em nós ânsias de uma alegria total. Um dia, se formos fiéis, o Sol divino que empresta sua luz ao luar,  iluminará para sempre a nossa alma com esplendor de meio-dia.

Mas agora, enquanto estamos na terra, só vemos − como diz São Paulo− num espelho, confusamente; depois [no Céu], veremos Deus face a face (1 Cor 13, 12).

Agora vemos só luz entre sombras e as palavras não conseguem exprimir a beleza e a grandeza de Deus. Mesmo algumas almas que receberam a graça extraordinária de pregustar por uns instantes um pouco de Céu, ao quererem narrar a sua experiência não acharam palavras, todas lhes pareciam pobres, como pretender encerrar o mar dentro de um copo.

A grandeza e a beleza de Deus são “inefáveis”, isto é, inexprimíveis com a linguagem limitada dos homens. Só a poesia consegue, às vezes, uma aproximação.

Vislumbres

Pode-se ter, por exemplo,  uma aproximação do mistério do Céu (o Céu é Deus!) quando, num momento de contemplação admirativa da criação, ficamos extasiados, e nos parece captar por uns instantes o toque da mão do Criador na beleza das realidades do universo. As coisas criadas, dizem os teólogos, são “vestígios de Deus”; e os seres humanos são “imagem de Deus”(Gn 1, 27). Nas obras de Deus, captamos fulgores da sua grandeza, do seu amor e da sua alegria, mas logo se desvanecem como os reflexos de um bosque na água.

Alguns autores espirituais comentam, fazendo uma analogia, um episódio bem conhecido das aventuras de Robinson Crusoé. Um belo dia, na praia de sua ilha deserta, Robinson viu as marcas de uns pés humanos. Para ele tudo mudou, pois ficou sabendo que não estava sozinho, “alguém” estava perto dele. Assim, os vestígios de Deus no mundo nos falam de Alguém que já vive conosco, e que algum dia veremos como ele é (1 Jo 3, 2).

Santo Agostinho, num dos seus Sermões, exorta assim os ouvintes: «Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e difunde, interroga a beleza do céu… interroga todas essas realidades. Todas elas te respondem: “Olha-nos, somos belas”. Sua beleza é um hino de louvor. Essas belezas sujeitas à mudança, quem as fez senão o Belo, Deus, não sujeito à mudança» (Sermão, n. 241).

São João da Cruz, numa das mais altas poesias da história, o Cântico espiritual, encantava-se imaginando Deus que passava pelo meio da sua criação, e escrevia: «Mil graças derramando, passou…// Só com sua figura// a todos [a todos os seres criados] revestiu de formosura».  E comentava assim esses versos: «Deus criou todas as coisas, deixando nelas um rastro de quem Ele é» (Canção V). E, de modo parecido, no comentário à Canção IV dizia: «A alma inclina-se muito ao amor de Deus, seu Amado, pela consideração das criaturas, vendo que são feitas diretamente pela mão dele ».

Também São Josemaria convidava a abrir os olhos a essa transparência de Deus no mundo: «Considera o que há de mais formoso e grande na terra…, o que apraz ao entendimento e às outras potências…, o que é recreio da carne e dos sentidos… E o mundo, e os outros mundos que brilham na noite: o Universo inteiro.E isso, mais todas as loucuras do coração satisfeitas…, nada vale, é nada e menos que nada, ao lado deste Deus meu! – teu! -, tesouro infinito, pérola preciosíssima…» (Caminho, n. 432). 

A fé que ilumina a razão 

Ainda que com uma pobre aproximação do mistério do Céu, o raciocínio dos teólogos e o Magistério da Igreja transmite-nos a essência do que Deus nos revelou sobre si mesmo e, concretamente, da vida eterna no Céu. 

            O Compêndio do Catecismo sintetiza-o com estas palavras: «Por Céu se entende o estado de felicidade suprema e definitiva. Os que morrem na graça de Deus e não têm necessidade de ulterior purificação são reunidos em torno de Jesus e de Maria, dos anjos e dos santos. Formam assim a Igreja do Céu, onde veem a Deus “face a face” (1 Cor 13, 12), vivem em comunhão com a Santíssima Trindade e intercedem por nós» (n. 209). 

Por sua vez, o Catecismo define o Céu como «vida perfeita com a Santíssima Trindade, comunhão de vida e de amor com ela, com a Virgem Maria, os anjos e os bem-aventurados […] O Céu é o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva […] Viver no Céu é “viver com Cristo” (cf. Jo 14,3). Os eleitos vivem “nele”, mas lá conservam – ou melhor, lá encontram− sua verdadeira identidade, seu próprio nome (cf. Ap 2, 17) […] Deus só poderá ser visto tal como é quando Ele mesmo abrir o seu mistério à contemplação direta do homem e o capacitar para tanto. Esta contemplação de Deus em sua glória celeste é chamada pela Igreja “visão beatífica”» (nn. 1024-1028). 

Quando Santo Tomás de Aquino pregou ao povo de Nápoles sobre o Credo, ao falar da vida eterna, traçou uns traços simples da felicidade do Céu, que resumo a seguir:

─ Na vida eterna o homem se une a Deus, que é o prêmio e a felicidade de todos os nossos trabalhos aqui na terra.

─ Esta comunhão com Deus consiste na perfeita visão e no supremo louvor: “Haverá gozo e alegria, ação de graças e vozes de louvor” (Is 51, 3). 

            Na vida eterna há a perfeita saciedade dos desejos. Nunca um bem criado sacia o desejo humano de felicidade. Somente Deus o pode saciar, e o faz excedendo infinitamente: “Serei saciado quando entrar na vossa glória” (Sl 16, 15). 

─ Tudo o que há de deleitável haverá aí plena e superabundantemente, porque será o deleite que provém da posse do sumo bem, de Deus.

─  A vida eterna consiste também na perfeita segurança. Não haverá nem tristeza, nem trabalhos, nem temor.

─ E ainda a vida eterna consistirá na sociedade alegre de todos os  bem-aventurados, em que cada qual possuirá todos os bens em comunhão com os outros, e se alegrará no alheio como se fosse seu; quanto mais crescerem o gozo e a alegria de um, tanto mais aumentará o gozo de todos. 

No final, Santo Tomás conclui modestamente dizendo: «Tudo o que aqui foi descrito, os justos terão no Céu e, além disso, muitos outros bens inefáveis» (Exposição do Credo).

Glosando o Catecismo (n. 1025), o Papa Bento XVI descrevia o Céu com umas palavras em que a reflexão teológica se funde com a melhor poesia: «Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria. Assim o exprime Jesus, no Evangelho de João: “Eu hei de ver-vos de novo; e o vosso coração se alegrará e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” (16,22) (Encíclica Spe salvi , n. 12). 

Umas palavras finais 

O Céu, ao qual nos chama a nossa vocação de cristãos, não pode ser descrito – volto a dizer −, mas pode ser desejado e preparado. São Paulo teve um experiência mística indescritível: Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado até o terceiro céu. Se foi no corpo, não sei. Se fora do corpo, também não sei; Deus o sabe. E sei que este homem… lá ouviu palavras inefáveis, que não é permitido a um homem repetir(2 Cor 12, 2-4). 

            Citando o profeta Isaías, ele já tinha falado aos coríntios do Céu: É como está escrito: “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam (1 Cor 2, 9).

Ele via esses bens do Céu – afinal, o amor eterno da Trindade − como uma “meta” para a qual devemos avançar nesta terra, lutando com vigor e esperança, e acelerando o passo: Correi de tal maneira que o consigais (1 Cor 9, 24). Não desanimamos – confidenciava outra vez −; mesmo se o nosso físico vai se arruinando, o nosso interior, pelo contrário, vai-se renovando dia a dia (2 Cor 4, 16).

Na carta aos filipenses, explicitava mais esse pensamento: Não pretendo dizer que já alcancei a meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que eu também fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo (Fl 3, 12-14).

Este programa que São Paulo se propunha, deveria ser o seu programa seu e o meu. E, com isso, a nossa expedição à procura da alegria chega ao fim.

Acho que, se afinarmos o ouvido, escutaremos Deus que nos diz: “Vale a pena”. Vale a pena viver, lutar, amar, servir os outros e trabalhar de olhos postos nessa meta, onde acharemos a plenitude do Amor e, com ele, o cume das “verdadeiras alegrias”.