QUARESMA: 4 – A CRUZ DA ABNEGAÇÃO

4 – A CRUZ DA ABNEGAÇÃO

Mais uma vez vamos meditar no convite de Cristo a tomarmos a Cruz: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mat 16, 24). Deixa-nos pensativos o fato de que essas breves palavras programáticas sobre a Cruz comecem  falando da abnegação: negue-se a si mesmo.

Bem sabemos que o caminho de Cristo é um caminho de Amor. Tudo o que Deus nos pede resume-se, de fato, no mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mat. 22,37-40).

“Caríssimos – insistia São João –, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (…). E nós temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (I Jo 4, 7-8.21).

Nestas palavras, sentimos bater o próprio coração de Cristo. Parece-nos ouvi-lo, na Última Ceia, a falar da sua próxima Paixão e a encarecer-nos: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15,12-13).

Dá a sua vida, dar-se aos outros. Isto é a abnegação: renunciar à força centrípeta do egoísmo e abrir-se à força centrifuga da caridade. Estamos aqui, talvez, no ponto mais alto da cruz voluntária: no amor sacrificado e generoso, que se esquece de si mesmo, que prescinde dos “direitos” que o egoísmo justiceiro anda sempre exigindo, e que sabe viver todo voltado para os outros, disposto a sacrificar-se para fazê-los felizes – na terra e depois no Céu -, sem cálculos nem cobranças.

Glosando a parábola do bom samaritano, figura-tipo da caridade cristã (Lc 10,25-37), são João Paulo II escrevia: «O bom samaritano da parábola de Cristo não se limita à simples comoção e compaixão. Estas transformam-se para ele num estímulo para ações que tendem a prestar ajuda ao homem ferido. Bom samaritano, portanto, é afinal todo aquele que presta ajuda no sofrimento, seja qual for a sua espécie; uma ajuda, quanto possível, eficaz. Nela põe todo o seu coração, sem poupar nada, nem sequer os meios materiais. Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio eu, ao outro. Tocamos aqui num dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo. Bom samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo»[1].

A abnegação cristã não se limita a fazer sacrifícios, mas é um espírito de sacrifício habitual. Não são abnegados os que fazem algumas mortificações e, ao mesmo tempo, se queixam da dureza da vida, dizem que não têm tempo de pensar nos outros e amargam as renúncias que são obrigados a fazer. São abnegados os que se entregam ao próximo com alegria, sem dar  importância à sua dedicação.

Este é o espírito de Cristo. Essas almas, que refletem de um modo especial a Cristo, vão espalhando pelo mundo a fecundidade do amor cristão. A elas pode-se aplicar o que Jesus dizia de si mesmo no Domingo de Ramos: “Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não se enterra e morre, fica só; se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24).

Como é grande o campo da abnegação cristã! Abnegação na família, abnegação no trabalho; dedicação generosa aos doentes, aos anciãos, aos necessitados; idealismo prático e atuante, que contribua para a solução dos problemas educacionais, habitacionais, sociais… São tantas coisas! Não queiramos ficar na teoria neste ponto –em nenhum ponto de vida cristã-, e concretizemos, da forma que seja mais adequada às circunstâncias e capacidades de cada um, os modos práticos de entrar na aventura da abnegação.

Não seríamos cristãos se nos omitíssemos, se não nos movesse, como um fogo interior, o desejo de servir a todos. Numa homilia sobre o Coração de Jesus, são Josemaria lançava esta mensagem vibrante: «Um homem, uma sociedade que não reajam perante as tribulações ou as injustiças, e não se esforcem por aliviá-las, não são nem homem nem sociedade à medida do Coração de Cristo. Os cristãos –conservando sempre a mais ampla liberdade à hora de estudar e de aplicar as diversas soluções, e, portanto, com um lógico pluralismo – devem identificar-se no mesmo empenho em servir à humanidade. De outro modo, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus»[2].

“Se alguém quer me servir –dizia Cristo-, que me siga; e, onde eu estiver, também ali estará o meu servidor” (Jo 12, 26). Ele nos precedeu e nos marca o caminho com os seus passos.

Este caminho, em todo o seu percurso, passa pela Cruz, faz-se autêntico quando o percorremos abraçados à Cruz. E essa Cruz, que parece aos olhos humanos o símbolo de destruição, de fracasso e de morte, na realidade é o símbolo do amor, da vitória e da vida eterna.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus A sabedoria da Cruz, Quadrante 2001, pp. 54-56.

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Ano da misericórdia:

«Abramos os nossos olhos  – diz o Papa Francisco – para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.

É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos (Bula Misericordiae vultus sobre o Jubileu da Misericórdia, n. 12).


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[1] Carta Apostólica Salvifici doloris, n. 28

[2] É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo 1975, pág. 220