MARIA: 4 – AO PÉ DA CRUZ

MARIA: 4 – MARIA AO PÉ DA CRUZ 

Maria na hora-cume da nossa Redenção

Caná é o início da vida pública de Cristo. O sacrifício da Cruz é o seu fecho e a sua culminação. Procuremos agora aproximar-nos do coração de Maria e tentemos captar o que “Maria guardava no coração” naquela hora em que a salvação da humanidade se consumava por meio do sacrifício redentor de Jesus Cristo.

São João descreve a presença de Maria ao pé da Cruz, junto das santas mulheres, com uma palavra cheia de têmpera: stabat. Literalmente, também no original grego, significa “estar firme, de pé”. Mas o termo indica muito mais do que uma simples postura corporal. A expressão original empregada pelo Evangelho sugere um conteúdo moral, isto é, que Maria acompanhava o sofrimento do Filho com fortaleza de alma; e que, no seu coração, havia firmeza e plena adesão.

Nessa “hora” definitiva, em que o Filho dá a vida para a salvação de muitos (Mt 20, 28), a atitude espiritual de Maria é exatamente a mesma que no dia da Anunciação: fiat, “faça-se”. Adesão incondicional, plena, à vontade de Deus, e concretamente ao plano salvador que Cristo está realizando no mundo, plano com o qual Ela foi chamada a colaborar de forma estreita.

Muitas vezes já foi dito que o fiat, a união com a vontade de Deus, é a alma de Maria. Aquilo que faz dela a Mãe, no sentido mais profundo, não é apenas nem primariamente o fato de ter gerado fisicamente Jesus, mas o de se ter unido perfeitamente à vontade de Deus em cada um dos instantes da vida e da missão do Filho.

Lembremo-nos de que, certo dia, quando uma mulher da multidão louvou em voz alta o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram, Jesus lhe respondeu: Diz antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática (Lc 11, 27-28). Teria com isso desviado de Maria o louvor espontâneo daquela mulher? Não, sem dúvida, mas quis frisar que a Virgem foi quem melhor ouviu e cumpriu a palavra de Deus. Com isso, Cristo mostrava qual é a razão mais profunda para louvá-la.

A entrega de Maria, inseparável da entrega do Filho

Ao pé da Cruz, a adesão de Maria à vontade divina atinge o seu cume. A Virgem Santa conhecia bem – como todo judeu piedoso – as profecias que, de um fundo de séculos, prenunciavam o Messias como “Servo sofredor”, que seria levado à morte como manso cordeiro conduzido ao sacrifício: pelas suas chagas, todos nós seríamos curados (cf. Is 53, 1-7). Por isso, ao responder “faça-se” ao Anjo, Ela aceitou o destino do seu Filho.

Quando o apresentou no Templo o Menino Jesus a Deus Pai (Lc 2,22-24), o seu gesto foi uma antecipação do oferecimento definitivo que iria fazer ao pé da Cruz, aceitando a Paixão e a Morte de seu Filho pela nossa salvação; mais ainda, ao oferecer voluntariamente, com a alma transpassada de dor e numa completa generosidade, o sacrifício de Jesus por nós, Maria – por amor a Deus e por amor aos homens necessitados de redenção – aceitou morrer de dor, no íntimo da sua alma, juntamente com Cristo. Uniu-se assim a seu sacrifício redentor e assumiu-o como próprio. Por isso é chamada Corredentora.

Foi, de fato, na Cruz que Cristo, dando a sua vida, mereceu para nós a vida da graça e a glória do Céu. O seu holocausto de Amor, por ter um valor infinito – divino –, é uma inesgotável fonte de vida sobrenatural em favor dos homens. Pois bem, o Salvador quis associar tão intimamente a sua Mãe bendita ao sacrifício da Redenção que a Igreja pode afirmar que Maria mereceu com “mérito de conveniência” – como se diz na linguagem teológica – todas as graças que Jesus nos mereceu por justiça na Cruz[1]. Ela é, também por este título, a “Mãe da divina graça”. A vida sobrenatural, que brota copiosamente da Cruz, também é, de alguma maneira –secundária mas real –, vida que recebemos por Ela: isso a torna mais profundamente a nossa Mãe.

Convém lembrar ainda que Jesus Cristo, com os seus padecimentos, chegou ao cume do seu Amor e da sua doação por nós, e expiou assim – com a imensidade desse seu Amor – os nossos pecados: Fostes resgatados – escreve São Pedro – (…) pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e sem mancha (I Pd 1, 18-19). A Virgem Imaculada, unindo-se totalmente à entrega e aos sofrimentos do Filho participou da expiação pelos nossos pecados. Junto da Cruz, entregou a sua alma, fundida com a dor do sacrifício de Jesus, pela nossa salvação[2].

A dilacerante agonia do seu coração, junto do Crucificado, foi então como que um novo parto – desta vez com dor –, através do qual Maria nos deu à luz espiritualmente. Não se trata de uma frase poética, mas de uma inefável realidade: todos e cada um de nós, de certa forma, nascemos de Maria naquele momento. Aí, perto da árvore da Cruz, Ela se tornou plenamente a “nova Eva”, a nova e verdadeira “mãe dos viventes”, como gostava de repetir a piedade mariana dos primeiros séculos.

“Eis a tua Mãe”

Logo após as palavras pronunciadas por Cristo na Cruz – eis a tua Mãe, eis o teu filho –, conta o Evangelho que desta hora em diante, o discípulo a levou para sua casa (Jo 19, 27).

Esse “discípulo” – já o víamos antes – representava todos os discípulos: os que naquela altura seguiam Jesus e todos os homens chamados depois a segui-Lo, fazendo parte do Povo de Deus que é a Igreja.

O fato de o discípulo ter assumido ao pé da letra a “filiação” a Maria, “levando-a para sua casa”, reflete bem a intenção de Cristo – que João compreendeu – de que a Igreja, a que São Paulo chama o Corpo de Cristo (Cl 1, 18), tivesse sempre junto do coração, “em casa”, o carinho da Mãe de Jesus. Ela é a Mãe da Cabeça deste Corpo – de Cristo –, e é a Mãe dos membros deste Corpo, que somos nós. É a Mãe da Igreja, como a designou o Concílio Vaticano II.

Na mente de Deus, portanto, a Igreja é concebida também como uma família, como um lar que tem uma Mãe. E,no centro dessa família, pulsa o Coração da Virgem e nela irradia o aconchego da maternidade.

É muitíssimo significativo que a Igreja tenha nascido no dia de Pentecostes, quando os discípulos e as santas mulheres estavam reunidos no Cenáculo – em união de corações e de preces – com Maria, a Mãe de Jesus (At 1, 14). São Lucas, o evangelista que melhor captou o papel de Maria no começo da vida do Redentor, é o mesmo que nos Atos dos Apóstolos sublinha a presença central de Nossa Senhora nos começos da vida da Igreja, mostrando que a Igreja recebeu o Espírito Santo – a sua alma divina – estando aglutinada como numa reunião familiar de irmãos em volta da Mãe, Santa Maria.

 

 

Adaptação de um trecho do livro de F.Faus Maria, Mãe de Jesus (Quadrante 1987)

 



[1] São Pio X, Enc. Ad diem illum, de 02.02.1904; em Enchiridion Symbolorum, n. 1978.

[2] cf. Const. Lumen Gentium, n. 58.