EXEMPLO 9 – VIRTUDES PROVADAS

EXEMPLO  9 – VIRTUDES “PROVADAS”

O teste da provação

Para que as virtudes dos pais e educadores tenham a eficácia do exemplo, precisam de duas condições ou, melhor, têm que passar por dois testes de autenticidade: o teste da “provação” e o teste da “unidade de vida”. Comecemos pelo primeiro.

De uma maneira surpreendente, o apóstolo São Tiago começa a sua Carta dizendo: Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar por diversas provações. Na realidade, nós desejaríamos que as provações fossem as menos possíveis. Mas São Tiago não pensa assim, porque sabe que as dificuldades que nos põem a prova e nos fazem sofrer podem derrubar-nos, mas – e isso é o que interessa – podem também ser o meio de temperar,  de consolidar e fortalecer o amor e as virtudes. E, por isso, acrescenta que a prova produz em vós a constância; e a constância deve levar a uma obra perfeita (Tg 1, 2-4).

São Paulo é do mesmo parecer: Sabemos que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada e a virtude provada desabrocha em esperança (Rm 5, 3-4) [1].

Há coisa mais maravilhosa do que uma mãe sempre serena, com uma serenidade sorridente e ativa, que atravessa problemas financeiros, tribulações de saúde, preocupações com o marido e os filhos, sem mostrar abalo, infundindo sempre neles paz, segurança e uma visão esperançosa do futuro? Todos nós conhecemos e admiramos mães assim, forjadas na dificuldade como ouro testado no fogo (I Pd 1, 7); generosas sem alarde, heroicas, cuja lembrança nos arranca lágrimas dos olhos. Vimo-las até, por vezes, chegar ao extremo, à hora da morte, após longa e sofrida doença, derramando a mesma serenidade de sempre sobre os corações dos seus, esquecidas de si mesmas, consolando e animando a todos, e deixando atrás de si uma esteira de luz.

Não há virtudes fáceis. Não são luminosas as virtudes que são estrelas fugazes: aparecem nos momentos fáceis e desaparecem nos difíceis.

Mas também não há virtudes “especializadas”, só para certos ambientes e grupos de pessoas, ou só para determinadas ocasiões. Por isso, vale a pena enfrentar o segundo teste, o da “unidade de vida”.

O teste da unidade de vida

Infelizmente, não faltam pais que, quando estão com os amigos, os colegas de clube e algumas relações profissionais, praticam admiravelmente as virtudes da convivência. São amáveis, conversadores bem-humorados, prestativos, disponíveis. Chegam, porém, em casa, e parece que o mesmo homem virou “lobisomem”: seco, taciturno, antipático, mal-humorado, reclamando de tudo, isolado no seu jornal, na tv ou na Internet, incapaz de uma palavra ou de um gesto de carinho. Que aconteceu? Que as “virtudes” exibidas em ambientes sociais eram isso, sociais, fachada.

Não esqueçam que os filhos veem tudo desde crianças. Alguns lembram-se do título de um velho filme italiano, “I bambini ci guardano”, “As crianças nos olham”. É verdade. E não engolem truques. Eles percebem se o pai ou a mãe padecem do que São Josemaría Escrivá chamava a “esquizofrenia espiritual” [2], a dupla personalidade moral, e sentem repugnância quando, ao receber conselhos deles, têm a impressão de que são como as palavras dos hipócritas de que Cristo falava, que dizem e não fazem (Mt 23, 3).

Os filhos não querem pais que andem tentando educá-los com passes de mágica, para espectador ver; não querem pais que os envergonhem, porque ostentam virtudes formais e interesseiras, que em casa se apagam; querem pais que sejam sempre os mesmos, pois só o exemplo das virtudes praticadas a toda hora, em todos os ambientes, em qualquer lugar, é digno de admiração e move à imitação.

Seria bom que muitos pais, professores e padres escutassem no coração as palavras que, segundo se conta, Jesus disse num êxtase a Santa Catarina de Sena: “Que sejas tu mesma, Catarina, que sejas tu mesma”. Não uma agora, e “outra” depois, e “outra” depois.

Não sei se lembra um verso famoso de Mário de Andrade que reproduzo como ele escreveu: «Eu sou trezentos, trezentos e cincoenta… Mas um dia afinal eu toparei comigo». Você… quantos é, ou quantas é? Tente ver-se nos diversos ambientes em que se mexe, e reconheça sinceramente quem nem sempre é “você”, uma personalidade única e madura.

Pode ser que alguém que o veja numa festa tire a ideia de que é intemperante e atrevido, que “paquera” e não se controla na comida e na bebida; mas, no trabalho, talvez passe a imagem de uma pessoa controlada e muito correta. É possível que em muitos encontros com outras pessoas deixe a impressão de ser delicado, amável; mas, em outros, seja visto como pessoa grosseira, rude e boca-suja. Será que ainda não topou consigo mesmo?

Convença-se de que, se procura estar perto de Deus e se preocupa mais com o bem dos outros, em vez de querer “ficar bem” e “se entosar com os outros” (finos, grossos, religiosos, ateus), as diversas “imagens” (“eu sou trezentos”) irão encaixando, até deixar uma única figura, a da autenticidade cristã, a da harmonia das virtudes de um filho de Deus que não quer ser camaleão.

 

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A força do exemplo

 


[1] Cfr. F. Faus; O valor das dificuldades, Ed. Quadrante, São Paulo, 1989

[2] Questões atuais do Cristianismo,3ª ed., Quadrante, São Paulo 1986, pág. 180