DIFICULDADES-1: TÊM VALOR?

DIFICULDADES-1: AS DIFICULDADES TÊM VALOR?

As dificuldades da vida

– Não é fácil!

– Não é mesmo!

Quem pronunciou estas últimas palavras acabava de se aproximar de um grupo de amigos. Nada ouvira da conversa mantida entre eles, a não ser apenas a última frase: “Não é fácil!”… E, no entanto, mesmo sem saber de que estavam falando, sentiu-se impelido como que instintivamente a concordar. Seja qual for o assunto, não há dúvida de que, nesta vida, nada é fácil. Por isso, quem afirma que alguma coisa “é difícil”, ou que “não está fácil”…, presume-se que, independentemente da questão de que se trate, está com a razão.

“É difícil”. Eis uma frase que é como uma locomotiva, à qual se pode atrelar, sem inconveniente, qualquer vagão: é difícil… viver, trabalhar, ser honesto, ser casado, ser solteiro…

Nada há na vida, ou quase nada, que brote como a suavidade de uma fonte. Custa conseguir as coisas, custa conservá-las, custa não perdê-las, custa não estragá-las… As dificuldades misturam-se com o chão de todos os caminhos. Se elas brilhassem na noite, a estrada da vida ficaria toda pontilhada de luzes, como a longa pista de um aeroporto.

Pois bem, uma vez que se trata de uma companheira inseparável, vale a pena que nos perguntemos: será que a dificuldade é uma circunstância puramente negativa? Não terá nenhum sentido positivo, nenhum valor?

Ao longo de várias meditações, que irão aparecendo aqui no site, procuraremos alcançar um pouco de luz para essas interrogações. Mas, mesmo antes de entrarmos em maiores aprofundamentos, já podemos adiantar uma resposta geral às perguntas anteriores. Em si mesmas, as dificuldades não são nem boas nem más. O seu valor e sentido dependem da atitude que se adotar diante delas. Isto significa também – diga-se de passagem – que os homens podem conhecer muito acerca de si mesmos simplesmente dedicando-se a observar qual é a sua atitude perante as dificuldades. É um aspecto que, em outras reflexões, também haveremos de considerar.

Obstáculos para o nosso bem?

É fácil verificar que a palavra dificuldade aparece quase sempre, nos nossos pensamentos e nas nossas conversas, de braço dado com a queixa. Falamos das dificuldades reclamando ou lamentando-nos; e a aquiescência de quem nos escuta é uma solidariedade na lamentação; é a adesão incondicional de quem também tem motivos para reclamar, porque experimenta na sua própria carne que “a vida não é fácil”.

É evidente que, se nos queixamos, é porque vemos as dificuldades como um mal. São indesejadas e aparecem na nossa frente como pedras no meio do caminho, prontas para retardar ou complicar a consecução de algum bem que nós desejamos. Quase todos os bens que procuramos chocam-se com o empecilho das dificuldades: elas brotam, como plantas malignas, para atrapalhar o bom ambiente do lar (“agora que as coisas iam melhorando”), para entravar o bom andamento do trabalho (“isso veio justamente agora, para prejudicar a minha promoção”), para transtornar as boas expectativas de futuro…

Se quiséssemos expressar em poucas palavras o que nós pensamos a respeito das dificuldades, provavelmente poderia servir-nos esta breve definição: “Dificuldade é aquilo que surge como obstáculo para o nosso bem”.

Caso concordemos com essa definição, vale a pena que prestemos um pouco de atenção às reflexões que seguirão esta primeira, porque é possível que, depois de as ponderarmos, percebamos que a maioria das dificuldades nem surgem de repente – como uma nuvem de verão –, nem são um verdadeiro obstáculo, nem atrapalham o nosso verdadeiro bem.

Vale a pena meditar sobre isso.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus O valor das dificuldades