DIFICULDADES-2: A DIFICULDADE NOS FAZ BEM

DIFICULDADES-2: COMPREENDER O QUE NOS FAZ “BEM”

O ideal e o bem

Voltemos à “definição” primária de dificuldade: “Dificuldade é aquilo que surge como obstáculo para o nosso bem”.

Comecemos pelo último ponto da definição. Qual é, na realidade, o nosso verdadeiro bem? Não há dúvida de que o conceito que temos do bem depende sempre do ideal que norteia a vida. Para um materialista, que reduz a existência à avidez dos desejos, o bem é aquilo que simplesmente o satisfaz, o que lhe dá prazer, mesmo que porventura acabe redundando num mal ou num prejuízo para os outros. O egoísta sensual, por exemplo, quer ser “feliz”, e coloca o seu bem na saciedade do egoísmo carnal, ainda que para alcançá-lo tenha que deixar mulher e filhos em situação penosa.

Para o cristão, pelo contrário, o bem – a verdadeira realização de si mesmo – não é a satisfação do egoísmo, mas aquilo que a doutrina católica denomina com precisão, desde tempos muito antigos, o bem da virtude[1]. O amadurecimento das virtudes, com a ajuda de Deus, é o que realiza o autêntico bem do homem e, por isso mesmo, faz arraigar nele uma felicidade cada vez mais profunda, cheia de paz e de plenitude interior.

Quando conseguimos adquirir esta perspectiva cristã, as dificuldades começam a encarar-se de uma maneira diferente da do egoísta. Já de início, podemos fazer uma descoberta muito interessante, que a experiência se encarregará de confirmar: a rigor, não existem dificuldades que, sozinhas, sem a nossa cumplicidade, possam atrapalhar o bem da virtude, isto é, possam impedir a consecução da caridade, da bondade, da paciência, da coragem, da fidelidade…, daquilo que nos faz ser bons e nos dá, por isso mesmo, a alegria.

De certa forma, poderíamos dizer que a virtude é invulnerável e, além disso, é “onívora”, porque ela de tudo se alimenta e nada a prejudica, se nós não a prejudicarmos. A mesma dificuldade que arrasa o egoísta fortalece o santo. Dizia Santo Agostinho que “o mesmo fogo faz brilhar o ouro e fumegar a palha” [2]. Para aquele que cultua o conforto como finalidade de vida, uma doença inesperada e grave constitui uma adversidade destrutiva e pode até produzir um esmagamento brutal, que conduza ao desespero. Pelo contrário, para um homem que crê firmemente em Deus, que pauta a sua vida pelo amor a Deus e o amor ao próximo, essa mesma doença grave pode chegar a ser uma grande ajuda para o aprimoramento do seu amor, um meio de purificação, crescimento e fecundidade.

Uma dificuldade econômica pode introduzir numa família uma fumaça asfixiante, que vai penetrando nos corações, desgastando a paciência e envenenando os nervos, até transformar o convívio num inferno de apreensões, queixas e mau humor. Pelo contrário, em outra família construída sobre o alicerce da fé e do amor, a mesma dificuldade financeira pode ser o grande momento de união, em que todos aceitam o sacrifício sem um lamento, apoiando-se mutuamente e procurando tornar mais amável a vida dos outros, ao mesmo tempo que cobrem com um sorriso o seu próprio sofrimento.

Como se pode então dizer que as dificuldades devem ser encaradas como um obstáculo para o bem? Quando temos a consciência clara de que o verdadeiro bem se encontra na virtude, percebemos que a virtude só pode ser minada pela nossa infidelidade pessoal, e não pelas dificuldades. Ao contrário, estas podem nutri-la e fazê-la crescer, de modo que, em vez de aparecerem como obstáculos, se mostrem como meios para o autêntico bem moral.

As dificuldades e a virtude

Começa, pois, a ficar claro que é mais do que duvidosa a definição que inicialmente talvez nos parecesse exata: “aquilo que surge como obstáculo para o nosso bem”. Acabamos de ver que nenhuma dificuldade pode tolher o bem da virtude.

Sendo assim, deveríamos perguntar-nos por que é que as dificuldades nos repugnam e nos incomodam. Talvez seja um tanto rude o que vamos comentar, mas parece exato: a dificuldade aborrece-nos não tanto porque obstaculiza o bem, mas exatamente pelo contrário, porque o exige; não por ser um empecilho para a virtude, mas por ser um entrave ao comodismo, à vida fácil

Se abrirmos bem os olhos, descobriremos que cada uma das nossas dificuldades concretas está a exigir a prática de alguma virtude concreta.

Suponhamos, por exemplo, que estamos passando por uma situação de excesso de trabalho, que nos faz sentir angustiados. O tempo de que dispomos parece insuficiente para embutir nele tudo o que é preciso fazer. Essa circunstância, essa dificuldade, está provavelmente marcando o momento em que se nos pede que pratiquemos melhor do que nunca a virtude da ordem, que aprimoremos os ritmos de trabalho e a intensidade com que aproveitamos o tempo.

O problema pode ser uma dificuldade familiar. O filho, que até agora nunca tinha causado preocupação, torna-se problemático: não quer estudar, revolta-se contra as menores indicações dos pais, e há fortes suspeitas de que a turma com que anda está envolvida em drogas… Esse problema, essa dificuldade, pode ser o sinal forte de que é preciso que os pais se deem mais ao filho, amadurecendo nas virtudes que tornam eficaz a sua ajuda: mais compreensão, mais diálogo, dedicação de tempo mais sacrificada.

Numa palavra, as dificuldades são um apelo à virtude e, portanto, à autorrealização.

As dificuldades subjetivas

Nos exemplos que acabamos de mencionar, tínhamos em vista dificuldades objetivas, isto é, situações independentes da nossa vontade, que nos colocam perante a alternativa de sofrer um abalo ou enfrentar com coragem um maior nível de exigência moral.

Mas haveria muito que dizer, muito mesmo, sobre um outro tipo de dificuldades que nada têm de objetivas: as dificuldades subjetivas, que vão sendo geradas, não pelas circunstâncias ou pela má vontade alheia, mas pelo nossa própria fraqueza moral, pela falta de amor, de firmeza e de generosidade.

Muitas vidas tristes – cheias de lamentações – estão povoadas destas dificuldades que não têm nenhuma base real e, no entanto, tornam as pessoas infelizes. Não pensemos apenas nas dificuldades imaginárias das pessoas doentias, que preveem o negativo – “o possível de outras adversidades”, diria Guimarães Rosa[3] – mesmo antes de terem começado a agir. Tais pessoas foram denominadas com justeza “vitimadas prévias”, que em sua mente angustiada gemem com as dores do atropelamento antes de terem posto um pé na rua ou avistado um carro.

Pensemos em nós. Talvez percebamos que a maior parte das dificuldades e contratempos que sofremos não surgem – aqui está outra palavra duvidosa daquela definição anterior –, mas somos nós que as fazemos surgir.

É óbvio que, para o homem mole, qualquer exigência normal do dever – ter que trabalhar submetido a prazos, ter que dedicar-se aos filhos no fim do expediente – é uma “dificuldade”. É comum as pessoas chamarem problemas às manifestações mais comuns dos deveres diários. Dir-se-ia que, para elas, o conceito de normalidade consiste na lei do mínimo esforço. Caberia lembrar a essas pessoas, modificando-o um pouco, o conhecido refrão: “Dize-me de que dificuldades te queixas, e dir-te-ei como és”. Seria muito bom que nos déssemos conta de que, com frequência, as nossas queixas e reclamações são traços que desenham o autorretrato do nosso egoísmo.

Com isso, passamos a uma ideia já apontada, quando dizíamos que o sentido das dificuldades depende da atitude que tomemos diante delas. Agora podemos perceber que a própria existência de dificuldades depende da atitude que adotemos diante da vida. Vale a pena que, agora, façamos a nós mesmos uma pergunta bem direta: Que é que eu procuro na vida?

A resposta da maioria de nós será, provavelmente, que na vida procuramos muitas coisas. Mas, de fato, há algumas delas que são como que a meta, o cerne, o centro último das aspirações, desejos e sonhos. Assim como uns têm como meta primordial passar os seus dias no maior conforto possível, sem complicações nem desgostos, ou têm a ambição de ser alguém ou de amealhar uma fortuna, há outros que têm o ideal de amar e serem úteis – esses são “cristãos” –, ao qual tudo subordinam e sacrificam com alegria. Pois bem, dependendo da nossa meta, assim serão as nossas dificuldades. E é evidente que cada meta, cada ambição egoísta, será uma usina geradora de específicas dificuldades de egoísta.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades



[1] Ver o livro de F. Faus A conquista das virtudes, 2ª ed.  Cultor de livros/Cleófas 2015

[2] A cidade de Deus, 1,8

[3] Primeiras estórias, J. Olympio, 1962, p. 6