DIFICULDADES-3: METAS ERRADAS

DIFICULDADES-3: METAS ERRADAS

Dois tipos de metas erradas

Víamos que conforme for a nossa meta, assim serão as nossas dificuldades. Para esclarecer melhor este ponto, será útil que meditemos sobre duas maneiras, muito reais, de gerar dificuldades subjetivas: ter uma meta errada e ter uma meta baixa. Se tivermos a infelicidade de seguir qualquer desses dois caminhos, não duvidemos de que aparecerão muitas dificuldades “inúteis”.

Já dizia Santo Agostinho que, na vida, se pode “correr bem”, mas “fora do caminho”. Bene curris, sed extra viam. É o que acontece com muitos que lutam e se esforçam, correndo atrás de ideais em que não encontrarão nunca a verdadeira realização. Poderão ter “sucesso”, mas será aparente. Não demorará muito a chegar a frustração.

Porém, o ângulo que agora nos importa não é o da frustração, mas o das dificuldades. Para aqueles que correm “fora do caminho” – fora do verdadeiro sentido da vida, que aponta para o bem e para Deus –, serão dificuldades (já o víamos) quaisquer oposições que encontrem para alcançar os objetivos do seu egoísmo. Até ousaríamos dizer que, na vida de quem optou por ideais materialistas e hedonistas, as maiores dificuldades são aquelas circunstâncias que se opõem aos seus vícios.

É preciso esclarecer que aqui empregamos a palavra “vício”, não conforme o uso vulgar, mas no sentido clássico cristão. É provável que nos lembremos da enumeração que faz o catecismo dos vícios capitais: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.

Se nos deixarmos dominar por qualquer deles, serão muitas as dificuldades que irão enxamear. Assim, por exemplo, para o sensual dominado pela luxúria, a maior dificuldade será ter de enfrentar a proposta de um amor fiel e sacrificado, feito de generosa doação… Justamente aquilo que é o ideal amável para um coração puro e reto. O casamento, para o primeiro, não deixará de ser uma fonte de problemas e restrições, que chegará a julgar insuportáveis. É isso o que produz a falsificação do amor; é o resultado de uma falsa meta na vida.

Pensemos no preguiçoso. De que dificuldades se queixa? Para começar, e de modo global, queixa-se de que as coisas custam: custa pensar, custa trabalhar, custa cumprir o dever. Atrás de cada um dos “custa” do preguiçoso, poderíamos colocar o nome de alguma virtude, que o cristão aprende a amar: diligência, ordem, responsabilidade, abnegação… Todas elas são metas boas para quem está dentro do verdadeiro caminho da vida. Para o preguiçoso, são aborrecimentos e incômodos, porque se desviou para uma meta falsa: o bem-estar comodista.

Em todos estes casos de corações voltados para metas erradas, as dificuldades subjetivas, que eles mesmos criam, são reveladoras: indicam pequenez moral, carência espiritual. Para dizê-lo de maneira mais clara, indicam uma mentira existencial, porque o ser humano não tem como fim e razão da vida essas metas do egoísmo, mas as do amor e da grandeza moral. Só elas o realizam.

Com efeito, se os valores da existência se invertem, toda a vida fica falseada. É penoso pensar que tal falsificação possa chegar a impor-se socialmente e ser servida como critério de conduta. Talvez seja isto o que torna enfermiça a sociedade hedonista de consumo. As virtudes, os valores morais, nesse ambiente, desaparecem do horizonte, passam a tornar-se “incômodos” e, por isso mesmo, a ser contestados ou rejeitados. A sociedade atual mostra-nos isso a cada passo. O ambiente consumista pode ensinar-nos muito sobre as “falsas dificuldades”.

As metas baixas

Se é perigoso andar atrás de metas erradas na vida, não menos perigoso é conformar-se com metas baixas.

Dirijamos agora o foco para os que, possuindo um sentido reto da existência, adotam como ideal de vida os valores cristãos. Muitos os aceitam de fato, mas não os assumem. Na prática, conformam-se voluntariamente com uma interpretação diluída do Evangelho, introduzindo um elemento redutor no ideal que, teoricamente, aceitaram: viverem as virtudes cristãs, seguindo os passos de Cristo.

Poderíamos dizer que, sem nos apercebermos disso, todos tendemos a colocar no autêntico ideal da vida uma barreira, um limiar de generosidade, que não nos decidimos a ultrapassar. Na prática da virtude, estamos dispostos a chegar “até um certo ponto”, mas não além. Alguma coisa por dentro nos sussurra que é melhor não exagerar, mas ser “prudente” e “comedido”, e acabamos por manter uma vela acesa a Deus e outra ao diabo, conformando-nos com “fazer média”.

É assim que muitos têm, na vida prática, um limiar de sacrifício – só “até aí” –, um limiar de paciência e compreensão – ir além seria “demais” –, um limiar de laboriosidade, de entrega às coisas de Deus ou de dedicação ao serviço do próximo. É como se se encerrassem dentro de umas fronteiras bem guardadas, que cuidam de não atravessar. E então qualquer exigência de virtude que for além dessa fronteira será uma dificuldade.

Qual é o nosso “limiar”?

Quais são os nossos limiares? No mundo atual, tem-se a impressão de que muitos cristãos tendem a colocá-los em um nível cada vez mais baixo. Influenciados pelas pressões de uma sociedade de “bem-estar a todo o custo”, sem ideais e sem fé, encolhem-se, abaixam a mira e refugiam-se num tipo de vivência moral acomodada, que evita qualquer estridência. O absurdo do caso é que passam a ser consideradas “estridentes” as manifestações sadias das virtudes cristãs e passa a julgar-se “exagero” aquilo que é normal.

Pensemos, por exemplo, que é normal uma família cristã amar os filhos e, por isso, desejar tê-los, e tê-los com visão e coração generosos. Quando o limiar do amor e da generosidade é alto, o número de filhos costuma ser os que realmente podem ser criados com amor dedicado e sacrificado…; e as dificuldades, no caso, são infinitamente menores que as que enfrenta um casal de limiar baixo, que não quer filhos e se consideraria “heroico” se, possuindo embora meios para  criar uma família maior, se tivesse limitado – sem razão justificada – a ter um, ou, no máximo dois.

Quem escreve estas linhas pode atestar, e sabe que o seu testemunho é corroborado pelo de muitos outros, que nunca viu lares tão felizes e tão “fáceis” de serem conduzidos – com bom humor, suavidade e alegria – como os lares das famílias numerosas. E pode atestar também que, pelo contrário, sempre viu cheios de angústias,  medos e apreensões os lares dos que não foram nada generosos com os filhos. O teto alto, o limiar alto, evita dificuldades: tudo se torna normal, porque o coração é grande e tudo aceita como um sacrifício e uma doação que considera lógicos, e para os quais está preparado.

Seria muito bom que meditassem nisto muitos casais que se sentem aflitos e sobrecarregados. Penso que, se um pai ou uma mãe que estivessem nestas circunstâncias se dirigissem a Deus pedindo-lhe consolo, talvez Ele lhes dissesse: “Não se queixe, depende de você. Todas essas dificuldades que o oprimem são insuficiências do seu amor. A sua alma foi feita para voos mais altos, a sua vocação cristã chama-o para metas mais elevadas. Para sair desse conflito interior precisaria resolver-se a quebrar o seu “teto baixo” e escancarar as portas da generosidade do coração. Então, muitas das dificuldades que o atormentam se desvaneceriam como uma leve fumaça”.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades