DIFICULDADES-6: AS TENTAÇÕES

A tentação é uma “prova”

As tentações nos experimentam. Este é, perante a nossa consciência, o sentido das tentações que nos assaltam. Pelo menos, é um dos seus principais significados positivos, dentro dos planos de Deus.

Entendemos por tentação tudo aquilo que, vindo de dentro ou de fora de nós, nos incita à prática – por pensamentos, palavras, ações ou omissões – de um mal moral, de um pecado.

Mas a circunstância de a tentação nos inclinar para o mal não significa que ela – quer proceda dos nossos desejos desordenados, quer de outras pessoas, quer do tentador – seja algo negativo aos olhos de Deus.

Se prestarmos atenção ao texto do Pai Nosso, perceberemos que, nesta oração, Cristo nos ensina a pedir de modo absoluto: “livrai-nos do mal”. Mas não ensina a mesma coisa em relação às tentações. Não nos faz pedir a Deus Pai que as elimine da nossa vida, mas que não nos “deixe cair” nelas. Parte da base de que as tentações hão de existir, e de que o que importa é que Deus nos ajude a vencê-las.

Isso porque a tentação, que é uma dificuldade na prática da virtude, pode ser-nos muito útil – como acontece com as outras dificuldades – para firmar-nos no bem. É um “benefício” que a própria palavra tentação sugere, pois a sua tradução mais exata seria “prova”: uma prova, um “teste” da autenticidade da virtude. É neste sentido que São Tiago diz, cheio de otimismo: Feliz o homem que suporta a tentação. Porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus promete aos que o amam (Tg 1, 12).

A tentação prova-nos como o fogo prova o ouro, escreve São Pedro (1 Pe 1, 7). É a mesma ideia que se encontra no Livro da Sabedoria: falando dos justos que tiveram de enfrentar sofrimentos e provações, afirma que Deus os provou e os achou dignos de Si. Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto (Sab 3, 5-6).

Toda virtude é testada

As nossas virtudes estão sendo testadas constantemente. Todos os dias encontramos incentivos para agir mal: para perder a paciência, para abandonar um dever, para nos ferirmos uns aos outros com palavras ou atitudes, para nos deixarmos arrastar pela sensualidade e pelas desordens do coração…

Aqueles que se esforçam por viver uma vida cristã digna, lamentam-se com frequência desta presença constante das tentações, que parecem desbaratar os melhores propósitos. Pensam: “Estas tentações só me atrapalham e me perturbam”. Deus, com certeza, pensa de outra forma. Bem sabe Ele a finalidade por que permite as tentações: não para que nos impeçam a prática do bem, mas para que, testando-nos, nos incentivem a praticá-lo com mais força e com maior autenticidade, nos movam a tornar mais puro – mais decidido e consciente – o ouro das virtudes.

Se na vida tudo discorresse suavemente, sem que nada nos incentivasse a praticar o mal, seria muito fácil acomodarmo-nos numa bondade inercial, e imaginar que estávamos caminhando bem, quando na realidade talvez nos estivéssemos afogando insensivelmente na rotina. Não fosse a tentação – a prova – que vem despertar-nos do sono, seria fácil entregarmo-nos à sonolência e até mesmo à morte espiritual, da mesma maneira que se entrega à morte física, sem o perceber, aquele que à noite aspira dormindo as emanações de um escapamento de gás. A tentação sacode, desperta, obriga-nos a lutar e, com a graça de Deus, a vencer.

Virtudes e sentimentos

Uma das grandes vantagens das provas por que passamos é o fato de que elas nos libertam dos enganos da bondade sentimental. As virtudes não consistem em sentimentos, e menos ainda em sentimentalismos, mas em bons hábitos práticos, que devem ser vividos em todas as circunstâncias, favoráveis ou adversas. “Sentir-se bom”, experimentar o gosto pelos bons sentimentos de amor e de bondade, não quer dizer “ser bom”. A bondade mede-se, não o esqueçamos, pela prática de atos de virtude, especialmente dos atos de virtude difíceis.

Não pode ser considerada paciente uma mulher que sente os seus nervos calmos e inalterados durante umas semanas em que, por qualquer motivo, ninguém a perturba. Será paciente se souber manter-se serena e equilibrada no meio de uma chuva de contrariedades: falta de dinheiro, os filhos que se tornaram impossíveis, o marido que acaba de perder o emprego e, coincidentemente, o preço da cesta básica que subiu…

“Existem alguns – dizia São Gregório Magno, no século VII – que querem ser humildes, mas sem serem desprezados; querem contentar-se com o que têm, mas sem padecer necessidade; ser castos, porém sem mortificar o corpo; ser pacientes, mas sem que ninguém os injurie. Quando querem adquirir as virtudes, fugindo ao esforço que as virtudes trazem consigo, é como se, ignorando e nada querendo saber dos combates no campo de batalha, quisessem ganhar a guerra vivendo comodamente na cidade”[1].

Um sentimento não provado pode ser falso; e tem o perigo de induzir-nos à vaidosa autocomplacência de quem pensa: “Como sou bom!”, e se deixa invadir pelas emanações do orgulho, como um perfume enganoso destampado no coração.

A tentação, portanto, é boa. Em certo sentido, é até necessária. Santo Agostinho chega a dizer que “nesta peregrinação em que consiste agora a nossa vida, não pode deixar de haver tentações, porque o nosso melhoramento realiza-se através da tentação. Ninguém se conhece a si mesmo se não for tentado; ninguém pode ser coroado se não tiver vencido; não pode vencer se não tiver lutado; e não pode lutar a não ser tendo tido tentações e inimigo”[2].

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades

 

 


[1] Moralia, 4,28,34

[2] Homilias sobre os Salmos, 60,3