DIFICULDADES-7: PARA CONHECER-NOS

As provas nos mostram como somos

Santo Agostinho, que possuía uma vasta experiência pessoal nesta matéria, tem toda a razão ao dizer que “ninguém se conhece a si mesmo se não for tentado”.

Aí temos, por exemplo, o caso de uma professora que sempre se julgou aberta e compreensiva, inclinada a relevar as faltas de alunos e colegas. Costumava dizer: “Todos somos humanos, todos temos defeitos, é preciso saber compreender e desculpar a todos”. E de fato, tinha uma afabilidade proverbial. Até que um belo dia começou a perceber alguma coisa estranha na escola: não mais a convocavam para reuniões de estudo e planejamento; alegando desculpas, tiraram-lhe uma das classes; percebia cochichos na sala de professores, que se calavam mal ela aparecia no local… Pouco demorou a perceber a manobra. Estavam armando uma intriga para “encostá-la” e colocar outra em seu lugar. A “panelinha dominante” tirava-lhe o tapete de sob os pés.

Começou a sentir que lhe faltava o ar. Uma onda quente subia-lhe à cabeça e se transformava num redemoinho, em que giravam vertiginosamente sentimentos de ódio, de vingança, de amargo ressentimento. Surpreendia-se maquinando revides. Deixou passar alguns dias, tentou acalmar-se, rezou. E então percebeu que, no momento da prova, a sua compreensão se lhe revelava mais fraca do que imaginara: sentia-se como que incapaz de viver, na hora da verdade, o que sempre apregoara. E assim, a tentação do ódio e do rancor a fez cair em si.

Teve que enfrentá-la. Teve que pedir ajuda a Deus para lutar, para vencer uma tentação fortíssima. Era uma luta muito difícil. Sem dúvida, precisaria defender a sua causa, que era justa, com os meios lícitos ao seu alcance, mas sem admitir que o ódio, a inimizade ou o espírito de vingança envenenassem seu coração.

Se, no caso hipotético dessa professora, ela – com a ajuda de Deus – vencesse, se teria transformado finalmente, graças a essa prova que lhe abriu os olhos para conhecer-se, numa cristã realmente boa e compreensiva, alguém que, sem abdicar da justiça, teria a grandeza “divina” de saber perdoar.

Nas palavras acima citadas, Santo Agostinho agradece ainda ao “inimigo” o favor que nos presta permitindo-nos a vitória. É um pensamento que faz lembrar o que escreve Saint-Exupéry, em Cidadela: “Só existimos na medida em que temos um inimigo”[1]. Em certo sentido, estas palavras encerram uma grande verdade. Moralmente falando, só “existimos” na medida em que lutamos contra os fortes “puxões” dos inimigos da virtude. E é esta, a virtude, que, fazendo força em sentido contrário a esses puxões – quer sejam os da inveja, os do amor-próprio ferido, os do comodismo, os da sensualidade… –, com o auxílio de Deus, se robustece e se afirma.

Em suma, podemos afirmar que um dos benefícios das tentações e provas é revelar-nos a fraqueza das nossas virtudes. Com isto, a tentação e a prova ajudam-nos a fazer uma coisa que nos é muito necessária: colocar a luta pelo aprimoramento moral lá onde é realmente necessária.

“Encontramos às vezes – diz Dietrich von Hildebrand – certos homens animados de grandes desejos de se aperfeiçoarem, mas que fazem incidir a sua atenção sobre faltas puramente imaginárias, deixando subsistir descuidadamente os seus verdadeiros defeitos […]. Quanta boa vontade malbaratada, quantas energias perdidas, quanto tempo desperdiçado, se nos entretivermos a lutar contra moinhos de vento, procurando as nossas faltas onde elas não estão! Muitos julgam descobrir os principais perigos onde nada os ameaça, e passam por alto os verdadeiros riscos. Devemos pedir e agradecer a Deus a graça de nos abrir os olhos para os perigos verdadeiros, indicando-nos onde devemos enrijecer a luta”[2].

 

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades

 

 

 

 


[1] Cidadela, Quadrante, São Paulo  1866, p. 294

[2] A nossa transformação em Cristo, Ed. Aster, Lisboa 1960, pp. 36 e 40