DIFICULDADES-10: A LUTA PURIFICA

A luta que purifica

Há mais um benefício que as dificuldades nos proporcionam, quando sabemos enfrentá-las com grandeza de espírito.

Não creio que nenhum de nós tenha a pretensão de ser “puro”. Por pouco que nos conheçamos, temos a consciência de que mesmo as nossas melhores qualidades andam misturadas com “impurezas”, isto é, com deficiências, imperfeições e defeitos. Dentro dos nossos ideais mais elevados, não raro se encontram sombras de vaidade ou ambição. O próprio afeto que dedicamos aos outros apresenta ainda “rebarbas” de egoísmo. E até a nossa vida religiosa não deixa de estar sombreada por interesses menos puros: desejamos amar a Deus, mas ainda o procuramos demais como “instrumento” do nosso bem-estar interior; não o amamos por Ele, com puro amor.

É claro, por isso, que as nossas “melhores qualidades”, quando nos esforçamos por exercitá-las, deparam com dificuldades. Neste caso, as dificuldades podem ter o efeito benéfico de um choque que, ao fazer saltar a faísca, ilumina um ponto de escória que se achava escondido no meio do ouro: evidenciam uma impureza de que não tínhamos consciência, e com isso nos abrem o caminho para começar a eliminá-la da nossa vida.

Lembro-me de certa pessoa que, à semelhança de um dos casos anteriormente citados, desejava ardentemente espalhar à sua volta, entre os que com ela conviviam, uma maior bondade e alegria. Para tanto, começou por fazer o propósito de dar a todas as suas palavras e conversas um tom positivo: não criticar, não contradizer futilmente o que os outros dissessem, não externar opiniões pessimistas. Pôs mãos à obra com a maior boa vontade… e comprovou, com certo desapontamento, que tudo continuava praticamente na mesma.

Seu desejo de fazer o bem chocava-se com a dificuldade da incompreensão, da falta de receptividade por parte dos outros. Pôs-se a refletir sobre o aparente enigma desse fracasso. Deu-se a faísca e a luz: pela primeira vez na vida, percebeu que – com a melhor das intenções – falava demais. Tentava eliminar comentários negativos, mas não tinha atinado com a necessidade de limpar a sua tendência pouco pura de inundar os outros com uma torrente de palavras e de falar demais de si mesma. O “choque” levou-a à atitude humilde de escutar mais e falar menos, de não pensar tanto em amar os outros “à moda dela”, mas em amá-los “à moda deles”, quer dizer, tendo muito mais presente o que cada um deles precisava. A dificuldade trouxe-lhe uma maior pureza, e o seu desejo de espalhar alegria tornou-se mais eficaz.

Mencionávamos acima que até a vida religiosa – a nossa relação com Deus – pode estar tingida de interesse. É uma “impureza” que dificilmente perceberá quem não leve as coisas de Deus a sério. Basta, porém, que nos empenhemos em melhorar o nosso trato com Deus para que comecemos a tropeçar com dificuldades até então não experimentadas. Por exemplo, a aridez ou a facilidade com que nos distraímos nas orações, que agora desejaríamos tornar mais intensas e constantes. Essas “novas” dificuldades poderão ser-nos de uma grande utilidade.

Inicialmente, talvez nos desanimem. Se persistirmos em nossos bons desejos, virá a luz: descobriremos que procurávamos Deus “para nós”, amávamos a oração porque nos envolvia em paz e tranquilidade, e a prática religiosa porque nos cumulava de gosto. A dificuldade da aridez poderá abrir-nos os olhos e levar-nos a compreender que nada há de mais belo do que manter-se fiel às práticas religiosas – com gosto ou sem gosto – para “agradar a Deus”. E assim poderemos limpar a nossa vida religiosa da “impureza” do egoísmo espiritual, ou, como diziam os antigos, da “gula espiritual”.

Deus intervém

Há, ainda, um outro caminho – melhor que o que acabamos de mencionar – para conseguirmos a purificação progressiva daquelas virtudes que em nossa vida já são “boas”: as contrariedades que fazem sofrer.

Não é nossa intenção, nestas páginas, abordar o tema do sentido cristão do sofrimento[1]. Por isso, limitamo-nos aqui a focalizar as contrariedades cotidianas, entendendo por “contrariedade” o pequeno acontecimento desagradável que sobrevém sem que nós tenhamos responsabilidade ou influência sobre ele: desde o osso do pé trincado ao escorregarmos na escada até uma chuva torrencial que intercepta o trânsito ou a desagradável descoberta de que nos foi furtada, no ônibus, a carteira com todos os documentos.

Em si, acontecimentos deste tipo parecem sem sentido nenhum. Quando muito, atrapalhações absurdas, que devemos aceitar – que remédio! – sem deixar que os nossos nervos fiquem excessivamente abalados. Podemos reagir dizendo: “Paciência, são contrariedades inevitáveis, temos que aprender a conviver com elas”.

Se realmente tivéssemos fé, iríamos além. Não vamos dizer que essas contrariedades tenham sido sempre “enviadas” diretamente por Deus. Mas devemos pensar que nelas está, sim, a mão de Deus. Se Deus não as enviou – e certamente Ele não queria um pecado, como o furto no ônibus –, Ele as “permitiu”. Não teria deixado que acontecessem se, na sua sabedoria infinita, não visse que nos podiam trazer um bem.

Mais de uma doença grave foi o começo de uma conversão. Em ponto pequeno, cada contrariedade pode ser ocasião de uma pequena conversão. Acabar sorrindo após um furto, ao pensar nos reais perdidos e na burocracia que nos espera para reaver os documentos, é um ato de liberdade e desprendimento que engrandece a alma. Encarar com bom humor o gesso no pé, com a perspectiva de ficar quarenta dias sem poder jogar futebol nos fins de semana, é algo que também nos pode purificar, ajudando-nos a abraçar com paz este sacrifício e a entender que há na vida coisas boas – por exemplo, o futebol – que não são realmente “essenciais” e das quais não depende a nossa autêntica felicidade. Um repouso de gesso e muleta pode contribuir para que agradeçamos melhor a Deus os verdadeiros bens – os espirituais –, que nenhuma escorregadela na escada nos pode arrebatar. É mais puro quem compreende isso e se volta com mais interesse para esses bens que a traça não consome nem o ladrão desenterra e rouba (cfr. Mt 6, 20).

É claro que Deus, na sua sabedoria e no seu amor, pode ir mais longe, permitindo contrariedades de maior vulto. Seja como for, não esqueçamos que todas elas têm – nos planos dEle – uma finalidade positiva. Podemos não entendê-las, mas devemos estar certos de que “nos convêm”. «Não te queixes, se sofres – lemos em Sulco –. Lapida-se a pedra que se estima, que tem valor. – Dói-te? – Deixa-te lapidar, com agradecimento, porque Deus te tomou nas suas mãos como um diamante… Não se trabalha assim um pedregulho vulgar» (n. 235).

Quando se entende isto, a alma enche-se de confiança. Cada contrariedade, uma vez passado o desconcerto inicial, mostra por transparência um sorriso de Deus, que parece dizer-nos: “É isto o que te convém. Eu te estou tratando como um pai trata o seu filho”.

 

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades

 

 

 


[1] Pode-se encontrar um comentário amplo no livro de F. Faus, A sabedoria da Cruz, Quadrante 2001