DIFICULDADES-11: MESTRAS DE ESPERANÇA

Mestras de esperança

Nesta última meditação, consideraremos um quarto benefício das dificuldades, que não é certamente o menor.

É bem verdade que as dificuldades – como víamos – são um bom desafio, que nos convida a ultrapassar os nossos “limites”, mas também é certo que são com frequência uma comprovação evidente da limitação das nossas forças.

Nem todas as dificuldades são facilmente superáveis, mesmo havendo a melhor das boas vontades. É perfeitamente plausível imaginar um leitor que, após ter tentado sinceramente praticar os conselhos que se recolhem nas meditações anteriores, venha de asa caída dizer: – “Esforcei-me, procurei encarar as dificuldades com espírito esportivo, mas não estou conseguindo senão sucessos muito parciais e fracassos muito frequentes. O ideal das virtudes cristãs é uma montanha, e falta-me fôlego para galgar a encosta”.

Talvez pareça estranho, mas não hesitaria em dizer que essa experiência das “limitações” e “fracassos” é altamente positiva. Sem ela, todas as ideias contidas nas anteriores meditações ficariam incompletas e, em boa parte, desvirtuadas.

Vamos ver por quê. Talvez o pior dos enganos em que possa incorrer um cristão seja imaginar que a sua realização espiritual e moral deve ser obtida exclusivamente “fazendo força”, como resultado do empenho da sua inteligência e da sua vontade.

Há um paradoxo da vida cristã que, utilizando uma frase já proverbial, se poderia resumir desta maneira: devemos esforçar-nos como se tudo dependesse de nós, e devemos ao mesmo tempo rezar convencidos de que tudo depende de Deus.

Cristo, que nos incentiva constantemente a dar o melhor de nós mesmos, e nos diz que devemos conquistar o Reino de Deus à viva força (Mt 11, 12), também nos diz, sem contradizer-se: Sem mim, nada podeis fazer (Jo 15, 5).

A bondade, a perfeição cristã, consiste em corresponder generosamente à graça de Deus. Deus é o artista, o artífice do nosso aperfeiçoamento. Nós somos os seus colaboradores: ajudantes de Deus, diz São Paulo (1 Cor 3, 9).

A nossa força e a força de Deus

Certamente, devemos empregar-nos a fundo e com o mais sincero empenho por melhorar. Mas esse esforço pode ser comparado à mão que um alpinista, em equilíbrio precário numa rocha escarpada, e esticando ao máximo os seus músculos, estende para o chefe da expedição que, numa posição mais alta e mais firme, o guindará até o novo patamar.

Esta comparação, como todas as imagens, é insuficiente para expressar o jogo em que se unem a graça de Deus e os nossos esforços, mas reflete de algum modo a verdade. Tudo o que nós fazemos é levantar a nossa mão, mas quem nos eleva até à meta é a mão de Deus – a graça –, se sabemos agarrar-nos firmemente a ela.

Só com a nossa “força de vontade”, nada podemos fazer. Neste sentido, as dificuldades que experimentamos na nossa ascensão espiritual evidenciam que, por nós mesmos, sozinhos, não somos “capazes”. Mas essa consideração não é um convite ao desânimo, não é uma simples verificação da nossa pequenez. Pelo contrário, é como uma janela aberta para a esperança: sozinho, não posso, mas, com Deus, posso tudo. Tudo posso naquele que me dá forças (Filip 4, 13), essa era a conclusão de São Paulo, quando se sentia incapaz de vencer as suas dificuldades (cfr. 2 Cor 12, 7-10).

Costuma-se dizer que a esperança é a virtude do caminhante. É muito significativo que não se diga que é a experiência. Esta poderia levar-nos ao desalento e, portanto, a fazer com que deixássemos de ser “caminhantes”. Fracasso, insuficiência, falhas, como contraponto das conquistas e sucessos: isto é o que a experiência nos mostra a cada passo. A esperança fala uma outra linguagem: diz-nos que, apesar de todas as nossas limitações e fracassos, podemos contar sempre com a bondade e o poder infinito de Deus, que Ele coloca amorosamente à nossa disposição, desde que o procuremos com confiança. «Todos devem colocar uma esperança bem firme no auxílio de Deus porque, assim como Ele começou em nós o bom trabalho, assim também o tornará perfeito e o levará a bom termo, a não ser que não se coopere com a sua graça»[1].

Sempre que nos sintamos, portanto, encurralados, “limitados” pelo peso das dificuldades, procuremos – sem desistir do esforço – apegar-nos mais a Deus, agarrando firmemente a sua “mão” mediante a oração e os Sacramentos (Confissão e Eucaristia). Não demoraremos a experimentar que – com a força poderosa da esperança – nós também poderemos dizer o que afirmava, cheio de otimismo, o Apóstolo São Paulo: De todas estas coisas – dificuldades sem conta – saímos mais que vencedores por Aquele que nos amou… Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rom 8, 37 e 31).

E é assim que as próprias dificuldades se tornarão trampolim, mais uma vez, para saltar mais alto. Desta vez, serão o trampolim de Deus.

Em suma – e para concluir estas reflexões –, é pelo caminho das dificuldades que o cristão avança até à meta da sua realização. Paradoxalmente, as dificuldades, que aparecem na vida com o rosto do inimigo, quando encaradas com espírito cristão revelam-se excelentes amigas, que nos prestam inestimáveis serviços. De modo que, se entendermos as coisas com a perspectiva da fé, haveremos de terminar dizendo: “Obrigado, meu Deus, pelas dificuldades que tanto me ajudam”.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, O valor das dificuldades

 

 


[1] Concílio de Trento, Sessão 6, Cap. 13