BONDADE-9: ABRIR-SE AOS OUTROS

Ninguém é bom, ninguém é bondoso para si mesmo. A bondade dirige-se sempre aos outros: somos bons para alguém. Homem bom é aquele que está, de modo habitual e permanente, amorosamente aberto aos outros. Precisamente porque é bom – e, por isso, quer “fazer o bem” –, vive voltado para o próximo, dá-lhe valor e concede-lhe prioridade nos seus interesses. A bondade é sempre calor de coração, que envolve os seres humanos com uma doçura cheia de força. Vale a pena meditar sobre esse influxo benfazejo da bondade.

Para o homem bom, os outros não são nunca estranhos. Não os enxerga nunca como inimigos que ameaçam o recinto fechado do seu egoísmo, provocando interferências e criando incômodos. Nenhuma pessoa é alheia ao mundo do seu “eu”. Os outros, sejam eles quais forem, tenham os defeitos que tiverem, fazem parte do seu universo de afetos e interesses. Por isso não o aborrecem nem o surpreendem, pois tem o coração mais inclinado a amar do que a amar-se a si mesmo.

É próprio do egoísmo ver o próximo com uma ponta de reserva: o “outro” é, para o egoísta, um possível “inimigo” de que tem que defender-se ou, pelo menos, precaver-se. O egoísta tem o coração inteiramente ocupado pelo “eu”, denso e pesado como o chumbo. Admitir “outros” dentro de si significa ter de aceitar uma sobrecarga. Daí que esteja sempre com receio de que lhe perturbem os esquemas, de que lhe roubem o tempo, de que lhe tirem a tranquilidade, de que lhe exijam renúncias; e sofre por ter que aturar defeitos aborrecidos e limitações cansativas. O egoísta é mal-humorado e impaciente. Incapaz de dar, só sabe receber.

Bem expressiva é, a este respeito, a alegoria do mata-borrão e da fonte. Os egoístas assemelham-se ao mata-borrão: só sabem absorver, dos outros, o que favorece os seus interesses, o que lhes traz vantagens ou lhes causa agrado. Acontece, porém, que essa absorção egoísta, em vez de enriquecê-los, os destrói. O mata-borrão ensopado fica inservível, desmancha-se todo, e o seu destino final é a lata do lixo.

Outros homens, pelo contrário, podem ser comparados a uma fonte. O manancial dá-se incansavelmente, ignorando o que seja reter ou sugar. O esbanjamento generoso das suas águas não só não o empobrece, como o transforma num foco contínuo de fecundidade. À sua volta, a terra árida transforma-se num jardim e as plantas ressequidas experimentam um estremecer de vida. Para a fonte, viver é fazer viver.

Pois bem, o coração do homem bom, tal como a fonte, vive criando vida e frutos em todos os que o cercam. Não pensa que lhe tiram o que é seu – a sua paz, o seu sossego, o seu tempo, as suas energias –, porque o seu amor só sabe dizer, como o pai do filho pródigo: Tudo o que é meu é teu (Lc 15, 31). Tudo o que é dele está aberto aos outros, e é mais “dele” quanto mais é participado pelos outros. Assim acontece com Deus: quanto mais participamos de seu amor, mais dEle somos.

Texto do livro de FFaus: Reflexões sobre a bondade