UNIDOS À CRUZ REDENTORA

UNIDOS À CRUZ REDENTORA

A cruz que faz “corredimir”

Há umas palavras de São Paulo que encerram um grande mistério, ou seja, que encerram uma verdade muito sobrenatural e profunda sobre a vida nova do cristão. São as seguintes: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24).

A rigor, nada falta à Paixão de Cristo, pois o sacrifício de Jesus mereceu infinitamente a redenção de todos os crimes e pecados do mundo. Mas o Senhor quis que os cristãos, membros do seu Corpo Místico, “outros Cristos”, pudessem associar-se ao seu sofrimento redentor, unindo a ele os seus próprios padecimentos.

Na Carta Apostólica “O sentido cristão do sofrimento” (“Salvifici doloris”), o Papa João Paulo II, desenvolve uma bela reflexão sobre esta verdade: «O Redentor sofreu em lugar do homem e em favor do homem. Todo homem tem a sua participação na Redenção. E cada um dos homens é também chamado a participar daquele sofrimento, por meio do qual se realizou a Redenção; é chamado a participar daquele sofrimento por meio do qual foi redimido também todo o sofrimento humano. Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível da Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem tornar-se participantes do sofrimento redentor de Cristo» (n. 19).

E, mais adiante, glosando a frase de São Paulo que agora meditamos, este Papa santo complementava essa reflexão: «O sofrimento de Cristo criou o bem da Redenção do mundo. Este bem é em si mesmo inexaurível e infinito. Ninguém lhe pode acrescentar coisa alguma. Ao mesmo tempo, porém, Cristo, no mistério da Igreja, que é o seu Corpo, em certo sentido abriu o próprio sofrimento redentor a todo o sofrimento humano. Na medida em que o homem se torna participante dos sofrimentos de Cristo –em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história—tanto mais ele completa, a seu modo, aquele sofrimento, mediante o qual Cristo operou a Redenção do mundo» (n. 24).

Neste mundo em que, ao lado de tantas bênçãos de Deus e tantas almas boas, se deixam sentir com força os ventos e tempestades do pecado, as almas generosas que sofrem com amor, unidas ao Senhor, são como que “outros Cristos”, que contrabalançam com a sua “Cruz” o peso dos crimes do mundo. Tornados eles próprios uma só coisa com Cristo sofredor, são esses homens e mulheres bons –os santos, os mártires, os inocentes, os doentes, as crianças, os “humilhados e ofendidos”… – os que mantêm no mundo, como uma tocha acesa, a esperança da salvação. Uma só mulher humilde que oferece, na sua cama de hospital, seus sofrimentos a Deus, faz mais pelo bem do mundo do que muitos dos que o governam.

Estamos perante a dimensão mais alta a que a Cruz elevou as dores humanas.

Que alegria podermos dizer como São Paulo: “Estou pregado à Cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim!” (Gál 2, 19-20). Que alegria poder ter nos lábios e no coração as mesmas palavras de Cristo: “Eu vim para servir e dar a vida para a redenção de muitos!” (Mat 20,28).

Com esta visão grandiosa da fé, entendem-se os ardores dos santos. “Não peças perdão a Jesus apenas de tuas culpas –dizia São Josemaria –; não O ames com o teu coração somente… Desagrava-O por todas as ofensas que Lhe têm feito, que Lhe fazem e que Lhe hão de fazer…; ama-O com toda a força de todos os corações de todos os homens que mais O tenham amado…”. “Que importa padecer, se se padece por consolar, para dar gosto a Deus Nosso Senhor, com espírito de reparação, unido a Ele na Cruz…, numa palavra: se se padece por Amor?[1]

Agora já não nos parece estranha a sede de Cruz, de sofrimento, que tinham os grandes santos; um desejo que não era doentio, mas uma “chama viva de amor”, que lhes fazia ter ânsias de identificar-se com Jesus na Cruz.

É paradigmática a cena de São Francisco de Assis no Monte Alverne. Era a manhã de 14 de setembro de 1224, festa da exaltação da Santa Cruz. Retirado nas solidões dos Apeninos, o Poverello rezava ajoelhado diante da sua cela, antes de que raiasse a alva. Tinha as mãos elevadas e os braços estendidos, e pedia: «Ó Senhor Jesus, há duas graças que eu te pediria conceder-me antes de morrer. A primeira é esta: que na minha alma e no meu corpo, tanto quanto possível, eu possa sentir os sofrimentos que tu, meu doce Jesus, tiveste que sofrer na tua cruel Paixão! E o segundo favor que desejaria receber é o seguinte: que, tanto quanto possível, possa sentir em meu corpo esse amor desmedido em que tu ardias, tu, o Filho de Deus, e que te levou a querer sofrer tantas penas por nós, miseráveis pecadores».

A sua oração foi ouvida. Um serafim, que trazia em si a imagem de um crucificado, imprimiu-lhe as chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no lado. Francisco, até no corpo, tornou-se visivelmente “outro Cristo”[2].

 

Trecho do livro de F. Faus A sabedoria da Cruz

 


[1] Caminho, nn. 402 e 182

[2] Fioretti de São Francisco, 3 a. consideração, e Vita prima de Tomás de Celano