PRUDÊNCIA: VIRTUDES HUMANAS E CRISTÃS

CULTIVAR AS VIRTUDES HUMANAS E CRISTÃS

«Persuadi-vos – escreve São Josemaria – de que um cristão, se de verdade pretende conduzir-se retamente diante de Deus e diante dos homens, precisa de todas as virtudes, pelo menos em potência»[1].

Tenhamos presente o que dizia o Pe. Antonio Vieira: «Os olhos veem pelo coração; e assim como             quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações»[2].

Onde o Pe. Vieira diz “humores”, coloquemos “vícios”, que são o contrário das virtudes. Para alcançar a clareza do olhar, do julgamento de que a prudência precisa (cf. Mt 6, 22-23), é necessário limpar esses “humores”, e eles só se limpam com a luta pelas virtudes, ajudados pela graça de Deus.

─ Em primeiro lugar – porque têm uma função básica −, precisamos esforçar-nos por cultivar as virtudes humanas[3] já mencionadas antes, ou seja as “virtudes morais”: prudência, justiça, fortaleza, temperança… e as outras virtudes ligadas a elas. Essas virtudes já foram comparadas à estrutura óssea de um corpo. Sem ela, o corpo se esparramaria no chão como uma ameba. Pois bem, sem virtudes, só pode haver  homens e mulheres “amebas”, incapazes de segurar a direção prudente da vida.

─ Não duvide de que as quatro virtudes cardeais são inseparáveis. Sem fortaleza, não há autodomínio, quer dizer, não há temperança. Essa moleza impede também que a prudência utilize, com constância e firmeza,  os “meios”. Por sua vez, a falta de temperança nos prazeres corporais, ofusca a mente e escurece a prudência, e também enfraquece a vontade desfibrando assim a fortaleza. Finalmente, sem justiça a alma se corrompe e confunde o certo com o errado; deixa de ter, então, um norte que lhe oriente a prudência.

─ Acima das virtudes humanas, e vivificando-as todas, estão as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Essas três virtudes, diz o Catecismo da Igreja, «informam e vivificam todas as virtudes morais» (n. 1813). Elas criam a abóbada luminosa onde a prudência é guiada com segurança pela “estrela” de Deus, como na história dos Magos.

─ Quando a alma vive sob o influxo dessa constelação de virtudes – teologais e morais −, os valores da vida se enxergam de uma forma mais alta, e a prudência, que agora já é “prudência sobrenatural”, toma rumos bem mais elevados.

Vale a pena recordar uma cena evangélica, que fala da vida de um jovem, que fracassou pela falta de prudência sobrenatural.

O Evangelho nos mostra um rapaz idealista e impetuoso. Empolgado, ao ver e ouvir Jesus, correu ao encontro dele e se lhe jogou aos pés dizendo: Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?  Queria estar com Deus, muito perto de Deus e para sempre. Jesus indicou-lhe o caminho dos dez Mandamentos da Lei de  Deus. Satisfeito, o jovem respondeu: Eu os tenho observado desde a minha adolescência.

Jesus então – diz São Marcos – olhou para ele com carinho, e lançou-lhe um apelo: Ainda te falta uma coisa. O que faltava era largar tudo e segui-lo, como fizeram Pedro, João, Mateus, Tiago…. Mal ouviu o apelo da vocação, o jovem ficou pesaroso e foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens. Ficou com o seu dinheiro e a sua tristeza, talvez para sempre… (cf. Mc 10, 17-22).

Fez uma inversão de valores. Mais do que acolher o amor de Deus e o privilégio da vocação divina, preferiu aconchegar-se nos seus bens materiais, no dinheiro. Bem dizia Jesus que ninguém pode servir a dois senhores… Não podeis servir a Deus e à riqueza (Mt 6, 24)

Duas virtudes auxiliares

Há uma série de virtudes que Santo Tomás chama “partes integrantes” da prudência, porque só com elas a prudência funciona bem[4]. Vamos considerar duas delas:

─ A docilitas (palavra ligada ao verbo latino docere, ensinar)

«A prudência – diz o santo doutor – refere-se às ações particulares, nas quais a diversidade é quase infinita. Não é possível que um só homem seja plenamente informado de tudo o que a isso se refere, nem em um curto tempo, senão em um longo tempo. Por isso, no que se refere à prudência, em grande parte o homem tem necessidade de ser instruído por outros»[5].

Docilitas é a arte de consultar a quem pode aconselhar-nos – como lembrávamos acima, e de acolher os seus conselhos e sugestões de mente aberta, com ponderação e sem preconceitos.

Como é difícil a arte de “escutar”. Passamos grande parte da vida escutando-nos a nós mesmos. Ao fazer isso, substituímos a razão objetiva pela subjetividade dos nossos desejos, caprichos e vontades. É lógico que, assim, muitos “juízos” e “decisões” pessoais saiam deturpados.

É próprio do prudente consultar e escutar. Pelo contrário o vaidoso fala, fala, fala, impõe seus pontos de vista, nem que seja na base de gritar mais alto do que os outros. Assim impossibilita o diálogo, ignora a troca enriquecedora de pareceres. Quem não sabe ouvir se empobrece. Isso é muito ruim na família, é ruim entre amigos, é ruim na empresa, é ruim no esporte, é ruim na Igreja …

─ A previdência. É outra “parte integrante” da prudência. Dela, Santo Tomás afirma, entre outras coisas: «Deve-se dizer que todas as vezes que muitas coisas são requeridas para uma ação, uma delas é necessariamente a principal à qual todas as outras se subordinam»[6].

No mundo atual, é normal estar envolvido em muitas coisas, numa complexidade de ocupações e deveres. É necessário ordená-los. Não permitir que o secundário ocupe o lugar do principal, ou que o nosso tempo se organize de forma a deixar de lado os deveres primordiais.

Para mencionar um exemplo comum, lembre-se do grande número de pais e mães que, pela dedicação “desordenada” (ou seja, não necessária nem inevitável) ao trabalho profissional, não deixam espaço para o convívio familiar, não acham tempo para a conversa entre mulher e marido, nem para o diálogo e a vida compartilhada com os filhos.

Isso tudo é uma desordem na hierarquia de valores. Uma imprudência séria, que – por falha na formação da consciência moral −  é praticada por muitos como a coisa mais natural do mundo.

O prudente decide sobre os fins e os meios mantendo a ordem de importâncias: ao que é primeiro, deve dedicar-se a melhor atenção e empenho, ainda que não se lhe possa dedicar o maior tempo.

Quer uma ordem hierárquica clara?

─ primeiro, Deus (e os mais necessitados, espiritual e corporalmente, que Jesus identifica consigo: cf. Mt 25, 40)

─ segundo, a família, a “começar” pela mútua dedicação do casal

─ terceiro, os deveres profissionais e sociais, e a responsabilidade pelo bem comum

Dissemos desde o começo que a pessoa prudente tem que decidir quais os fins certos e os meios adequados que deve escolher. Falta-nos apenas refletir sobre a ação, sobre a decisão de agir, de pôr em prática esses meios. É o que veremos nos próximos capítulos.

 

[1] Amigos de Deus, m. 161

[2] Sermão da quinta quarta-feira, 1669

[3] Cf. A conquista das virtudes, Coedição Cultor de Livros e Cléofas, 2ª ed., São Paulo 2015

[4] S. Tomás chama-as partes integrantes pois são, diz ele, como «as paredes, o teto e as fundações que são parte de uma casa» (Suma Teológica, II-II, 48 c)

[5] Suma Teológica, II-II, 49, 3 c)

[6] Ibidem, II-II, 49, 6, 1