A MAIS ALTA PRUDÊNCIA

A MAIS ALTA PRUDÊNCIA 

  1. Prudências antagônicas

São Paulo fala de duas prudências contrapostas, inimigas uma da outra. A prudência da carne e a prudência do espírito.

A prudência da carne é morte – diz aos romanos –, ao passo que a prudência do espírito é vida e paz [1] (Rm 8, 6). Na carta aos gálatas escreve no mesmo sentido: Os desejos da carne são opostos aos do espírito, e estes aos da carne, pois são contrários uns aos outros (Gl 5, 17).

Que acha que significam essa duas palavras: “carne” e “espírito”? Dentro da cultura e da linguagem atuais, diríamos que a carne é o “corpo” e o espírito, a “alma”. Mas não é nada disso.

Na linguagem de São Paulo –que é a linguagem da Bíblia e da fé cristã  –, “carne” significa o ser humano inteiro (corpo e alma)[2] quando está privado da graça de Deus e vive atrás dos seus desejos egoístas; por outro lado, “espírito” refere-se ao filho de Deus – ao cristão – que tem o Espírito Santo presente a atuante em sua alma, e que, movido pela graça divina, avança pelo caminho do amor (cf. Rm 8, 14; 1 Cor 6, 19; Ef 5, 2).

─ Isso fica muito claro quando lemos o elenco dos “frutos da carne” que são Paulo enumera; ao lado de  fornicação, impureza, embriaguez, orgias…menciona também inimizades, ciúmes, iras, intrigas, rixas, discórdias, invejas…, vícios que nós não chamaríamos de “carnais”.

─ E, entre os “frutos do espírito” cita: caridade, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio… (cf. Gl 5, 18-22).

Santo Agostinho esclarece o termo “carne” no seu comentário à carta aos gálatas: «Diz-se que alguém vive segundo a carne quando vive para si mesmo. Por isso, neste caso, por carne entende-se todo homem. Já que tudo o que provém de um amor desordenado a si mesmo chama-se obra da carne»[3].

Não acha que o antagonismo “carne-espírito” poderia traduzir-se por antagonismo “egoísmo-amor”? «A História é no seu todo – dizia o Card. Ratzinger – a luta entre o amor e a incapacidade de amar, entre o amor e a recusa do amor»[4].

Deveríamos escrever Amor com maiúscula, uma vez que, na alma cristã, a capacidade de amar é infundida pelo Amor divino em pessoa, o Espírito Santo.

  1. Dois caminhos da prudência 

Desde o início do cristianismo, inspirando-se no Deuteronômio, a catequese falava dos dois caminhos: o da vida e o da morte, o da salvação e o da perdição (Dt 30, 19-20).

O mais antigo texto catequético do cristianismo, a Didaqué, compilado ainda no século I, inicia-se com estas palavras: «Há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande. O caminho da vida é o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois, a teu próximo como a ti mesmo»[5].

Moisés, no Deuteronômio diz: Escolhe, pois, a vida (Dt 30, 19). Jesus também nos incita a uma escolha livre e responsável: Se queres entrar na vida… Se queres ser perfeito… Se alguém quiser seguir-me…  (cf. Mt 19, 16 e 21; Mc 8, 34).

Aí está  grande desafio da prudência.

Para quem dedica a si mesmo um amor desordenado, egoísta, a prudência se transforma em astúcia ou manha, como víamos acima, e decide correr atrás dos “frutos da carne”: o culto ao prazer, a ambição, o comodismo, a idolatria do dinheiro, a vaidade que gera ciúmes e discórdias, etc.

Para quem é guiado pela  ”prudência do espírito”, o panorama muda completamente. A sua decisão é seguir o caminho do amor a Deus e ao próximo, sem medo de aceitar tudo o que esse amor traz consigo de abnegação, sacrifício, doação, cruz… Tudo vale a pena enfrentar e sofrer com alegre generosidade,  para que não nos percamos – como dizia alguém – «na solidão sem amor e no vazio de uma vida inútil».

  1. Prudência do espírito e dom de conselho

São Paulo nos dá luzes sobre o que é, na prática, a prudência do espírito:

Tudo o que para mim eram vantagens considerei perda por Cristo. Na verdade julgo como perda todas as coisas em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar a Cristo  e estar com ele (Fl 3, 7-9).

 Quanto a mim, de muito boa vontade darei o que é meu e me darei a mim mesmo pelas vossas almas (2Cor 12, 15).

Cuidai, pois, irmãos, de andar com prudência, não como insensatos, mas como pessoas esclarecidas…; não sejais imprudentes, mas procurai discernir bem qual é a vontade do Senhor (Ef 5, 15-17).

É prudente quem pensa, julga e decide sob a luz de Deus. Com os  olhos da fé e do amor postos em Deus, muitas coisas que o mundo julga positivas e sensatas aparecem-nos claramente como insensatas. A loucura de Deus é mais sábia do que os homens (1 Cor 1, 28).

Assim, por exemplo, a prudência do espírito vai nos dizer:

─ É melhor escolher um trabalho honesto e pouco lucrativo do que outro mais lucrativo mas moralmente inaceitável ou dúbio;

─ Não matricule o filho ou a filha numa escola tecnicamente boa, mas que transmite erros sobre a fé e a moral.  Matricule-os em outra, talvez menos conhecida, mas que não lhes prejudique a fé e a moral;

─ Não escolha ter só um ou dois filhos por comodismo. Se a saúde o permitir, escolha ter mais alguns – os que veja que Deus lhe pede – e aceite com alegria os sacrifícios e a dedicação que vão exigir.

Quantas vezes erramos os caminhos da vida por falta de prudência sobrenatural. Preferimos um prazer egoísta aos apelos de Deus. Preferimos dormir a ir ao encontro marcado com Cristo na missa dominical. Preferimos os vícios às virtudes. O próprio demônio se arranja para nos sugerir que colocar Deus em primeiro lugar é exagero, e assim vai nos amarrando aos vícios e ceifando os brotos de virtudes.

A pior imprudência do mundo é arriscar-nos a perder a verdadeira vida, a vida eterna, em troca dos bens efêmeros, de flores que murcham antes do próximo amanhecer. Que aproveita ao homem  − diz Jesus − ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a sua alma? (Mt 16, 26).

Pensem nisso os pais que combatem a possível vocação de entrega a Deus de um filho ou uma filha por motivos de egoísmo pessoal, por visão materialista ou por miopia na fé. Se, levados por essa cegueira, conseguirem afastar o filho ou a filha do caminho a que Deus os chama, cometerão talvez a maior e mais lamentável imprudência que um pai ou uma mãe possam cometer.

É muito lúcido o que comenta Pieper a este propósito: «Através do amor recebido [infundido na nossa alma pelo Espírito Santo], o homem atinge uma tal unidade com Deus, que recebe por assim dizer a capacidade de olhar as coisas do ponto de vista de Deus, de as “relativizar” e as “minimizar” como Deus, sem com isso as negar ou contestar a sua importância»[6].

Lembrávamos que o livro dos Provérbios chama à prudência sabedoria do coração (Pr 16,21). Comentando essa expressão bíblica, São Josemaria escrevia: «Verdadeira prudência é a que permanece atenta às insinuações de Deus e, nessa vigilante escuta, recebe na alma promessas e realidades de salvação.

»O motivo fundamental da prudência é o cumprimento da Vontade de Deus, que nos quer amigos da verdade … O coração prudente possuirá a ciência (Pr 18, 15). E essa ciência é a do amor de Deus, o saber definitivo, aquele que nos pode salvar, oferecendo a todas as criaturas frutos de paz e de compreensão e, a cada alma, a vida eterna»[7].

Por isso, Josef Pieper podia escrever: «A mais elevada e mais fecunda realização da vida cristã consiste na colaboração da prudência e do amor»[8]

Além de nos conceder a graça necessária, o Espírito Santo nos ajuda a viver essa prudência sobrenatural mediante o dom de conselho. É como um vento  suave e poderoso, que impele a nave da vida por rumos de claridade, dando-nos luzes divinas sobre o significado e o valor das coisas do mundo, sobre os problemas, os acontecimentos e as pessoas, e sobre nós mesmos. Ajuda-nos a viver dentro da verdade de Deus[9].

Como dizia Santo Tomás, «a prudência, que implica retidão da razão, é grandemente aperfeiçoada e auxiliada na medida em que é regulada e movida pelo Espírito Santo. E isso é próprio do dom de conselho»[10]

Esta é, afinal, a “mais alta prudência”: caminhar pela senda do amor, sob a luz da fé e seguindo os passos de Cristo, para viver o ideal que São Paulo propõe a todos os cristãos como “máxima prudência”: Sede imitadores de Deus como filhos muito amados, e caminhai no amor, como  Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós como oferenda e sacrifício de suave odor (Ef 5, 1-2).

 

 

[1] A expressão grega utilizada por São Paulo é “phronema”, que as antigas versões latinas traduzem por “prudentia”. Traduções atuais utilizam outros termos, que na realidade se complementam: “sabedoria”, “aspirações”, “desejo”, “interesse”, etc. O ensinamento fica sendo o mesmo.

[2]   O Antigo Testamento usa com frequência a palavra “carne” para designar simplesmente o ser humano.

[3] A cidade de Deus, XIV, 2

[4] O sal da terra.  Ed. Imago. Rio de Janeiro 1997, pp. 222-223

[5] Didaqué ou Doutrina dos Apóstolos, Ed. Vozes, Petrópolis 1971.

[6] Obra citada, p. 53

[7] Amigos de Deus, n. 88

[8] Obra citada, p. 51

[9] Cf. Dons do Espírito Santo, Ed. Cultor de Livros, São Paulo 2017, pp. 39-48

[10] Suma Teológica, II-II, 52, 2 c