Exemplos e símbolos: Lições do conto João e Maria

PARA ONDE VAMOS?

Não se surpreenda se lembro aqui a história de Hänsel e Gretel  (no Brasil, João e Maria), que os irmãos Grimm recolheram de uma velha tradição popular e transformaram num dos seus famosos contos para crianças.

Os dois irmãozinhos – você sabe –, numa época de fome terrível, são enxotados pela madrasta até o lugar mais espesso da floresta, com apenas uma fatia de pão. Hänsel, percebendo a trama assassina da megera, vai jogando disfarçadamente migalhas de pão pelo caminho, com a ideia de deixar marcado com eles o rumo de regresso a casa. Cai a noite. À luz do luar, primeiro, e depois ao sol do amanhecer os dois irmãos buscam a trilha marcada pelas migalhas mas, como é lógico, não a encontram: os pássaros tinham comido tudo. Vagando pela selva, chegam por fim, esfomeados, a uma casinha linda, feita de doces, chocolates e açúcar-cande e se atiram felizes a ela. Mas era a moradia de uma feiticeira, que engordava crianças para devorá-las. Após algumas aventuras, conseguem se livrar da bruxa malvada, e o conto tem um final feliz.

Não há dúvida de que é uma história infantil. Mas eu quis trazê-la à tona porque ela me sugere algumas reflexões que acho interessantes para vocês.

 Não se sabe onde

O grande poeta Dante Alighieri, ao chegar aos trinta e cinco anos, declarou simbolicamente que «na metade do caminho da nossa vida/ encontrei-me numa selva escura/ pois o caminho direito o tinha perdido» [1].

É bem possível que você, leitor – pelo menos a maioria de vocês –, não tenha essa idade, mas pode estar mergulhando sem reparar no «sono» espiritual que, segundo Dante, foi a causa de ter «abandonado o caminho verdadeiro», la verace via (I,11 e 12).

Há um sono mortal que consiste em não pensar, em se deixar levar por escolhas, decisões ou influências imaturas para “não se sabe onde”…, para um vago “realizar-se” e “ser feliz”.

Não durma. Abra os olhos e perceberá facilmente que estamos no meio de um bosque de sinais confusos e contraditórios. São como placas de sinalização de estrada plantadas por um doido. Todas prometem levar ao mesmo ponto de destino – realização, felicidade –, mas  as direções, os rumos que indicam, são os mais opostos.

Para que vivo eu?

Enquanto não tivermos uma resposta a essa pergunta, uma resposta que nos mostre o significado da nossa existência – a nossa razão de viver, de amar, de lutar, de trabalhar… –, não seremos um autêntico ser humano. Porque Deus não nos criou como uma folha seca que dança a todos os ventos e não vai a parte nenhuma. Temos uma razão de ser, temos um fim, temos uma vocação pessoal, temos um destino – Deus, o Céu – e temos um Caminho, Jesus. Enquanto não descobrirmos isso, com um clarão de luz (de graça divina) dentro do coração, estaremos vagando a todo vento como uma folha que se desfaz.

 

[1] Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura/ che la diritta via era smarrita (Canto 1, 1-3)