IMAGENS E SÍMBOLOS: PRISÃO DE ESPELHOS

NA PRISÃO DOS ESPELHOS

Faz já bastantes anos, assisti a um curta-metragem francês. Era a história breve de um egoísta fechado em si mesmo, que um dia descobriu o que era o amor.

Quando isso lhe aconteceu, ele abriu a alma com palavras semelhantes a estas:

«Eu era um homem que vivia encafuado num quarto rodeado de espelhos. Por todos os lados, só via e buscava o reflexo de mim mesmo, do meu “eu”: nas pessoas, no trabalho, nos planos, nos projetos de vida… Só me procurava a mim mesmo. Apenas enxergava o que eu gostava, o que eu desejava, o que me interessava, o que me oferecia vantagens ou prazer. Pessoas e coisas não passavam de bens consumíveis. Caso não servissem, eu os descartava.

»Até que um dia descobri o amor: alguém de uma bondade que nunca imaginei que pudesse existir. Foi algo de novo que eu, pobre egoísta, desconhecia. O meu pedestal tremeu, e pela primeira vez senti a necessidade de quebrar todos os meus espelhos e transformá-los em janelas para poder olhar para fora de mim, de transformá-los em portas que me permitissem sair do cativeiro e dizer à pessoa amada: – “Tudo o que é meu é teu. Só o quero para dar, para te fazer feliz e irradiar essa felicidade nos outros?”».

 

Adaptação de um trecho do livro As verdadeiras alegrias