ESPELHO DOS SALMOS: CORAÇÃO ENGORDURADO

  1. CORAÇÃO INSENSÍVEL COMO A GORDURA

O coração deles é insensível como a gordura. Eu encontro as minhas delícias na tua lei (Salmo 119,70).

O salmista fala dos soberbos que não compreendem os caminhos de Deus e o perseguem, e utiliza uma imagem que já se encontra no profeta Isaías (Is 6,10), e que Cristo cita na parábola do semeador (Mt 13,15): a da gordura no coração.

Coração “espesso como a gordura” – essa é a expressão original – designa uma alma insensível às realidades divinas, às luzes e aos sentimentos espirituais. Entupido pela banha da vaidade, da ambição, da sensualidade, do hedonismo, do individualismo…, o coração (centro e raiz de tudo na pessoa: cf. Mt 15,19) é incapaz de enxergar, de se interessar e de aceitar as coisas de Deus.

É o que diz explicitamente são Paulo, quando fala de que o homem “animal” (puramente natural, materialista) não aceita o que vem do Espírito de Deus; é loucura para ele, não o pode compreender (1 Cor  2,14). A esse tipo de homens e mulheres fechados no seu egoísmo, com os olhos o coração cheios de gordura, aplicam-se as palavras proféticas: Haveis de ouvir, e jamais entendereis; haveis de enxergar, e jamais vereis (Mt 13,14).

Já desde o começo da sua pregação, Jesus ensinou que são felizes os puros de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5,8). Quer dizer que a pureza de coração é uma condição indispensável para ter a alma iluminada pela fé e, em consequência, capacitada para compreender e amar a Deus, e para ver os demais com o olhar amoroso de Deus.

O Catecismo da Igreja Católica explica em que consiste a “pureza de coração”: «Designa aqueles que entregaram o coração e a inteligência às exigências da santidade de Deus, principalmente em três campos: a caridade, a castidade ou retidão sexual, e o amor à verdade e à ortodoxia da fé» (n. 2518).

  • A caridade. Trata-se do amor que constitui o mandamento novo de Cristo: Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei (Jo 13,34).

No livro de Saint Exupéry O pequeno príncipe, a raposa ensina ao menino que «só se vê bem com o coração». Nós, com Jesus, deveríamos acrescentar: «com o coração puro». Pois bem, a primeira purificação do coração é o amor que espelha em si mesmo o amor de Deus. O coração que se purifica – no dizer de são Josemaria –  contempla tudo «com as pupilas que o amor dilatou».

São João desenvolve essa verdade: Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor… Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu Amor em nós é perfeito (1 Jo 4,8 e 12).

Quando procuramos viver assim, quando lutamos por amar, isto é, por estar desprendidos das amarras egoístas que nos afastam de dar-nos a Deus e ao próximo; quando nos decidimos a vencer a mesquinharia da alma e a ser generosos em vez de interesseiros, o coração – purificado também pela confissão – vai limpando a “gordura” e tornando-se transparente à luz divina. Chega a ser então bem-aventurado, feliz.

  • A castidade. É a segunda condição da pureza de coração de que fala o Catecismo. São Paulo olha com tristeza para os que, tendo conhecido Deus, se afastaram da verdade divina: Perderam-se em seus pensamentos fúteis – lamenta – e seu coração insensato ficou nas trevas (Rm 1,21).

A seguir, o mesmo apóstolo diz algo que, infelizmente, a nossa experiência cotidiana verifica todos os dias: Trocaram a verdade pela mentira… Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes (Rm 1,25-26). A gordura da sensualidade sem sentido, sem finalidade nem limite, entupiu tremendamente seu coração e seus olhos. A virtude da castidade – que eles não veem, nem valorizam nem entendem – parece-lhes, como tudo o que é autêntico e bom,  um ideal incompreensível, quando não – como dizia um conhecido ateu – uma “doença sexual”.

Esses homens e mulheres, muitos deles batizados, vivem ao pé da letra o que dizia o bom padre Vieira: como não querem mudar de vida, mudam de fé, «porque desta maneira, já que a vida não concorda com a fé, ao menos a fé concordará com a vida».

Neste ponto, é interessante constatar a ênfase com que são Tomás de  Aquino  repete que a cegueira espiritual  é causada principalmente por dois vícios: a luxúria (sensualidade desordenada) e a acídia (preguiça espiritual, o tédio e repugnância pelas coisas de Deus).

  • O amor à verdade e à ortodoxia da fé. A pureza de coração é honestidade e retidão na procura da Verdade; e, depois de recebermos a luz da fé, é fidelidade à graça e à verdade que nos vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17). Graça e verdade que Jesus entregou à sua Igreja para que a guardasse e a transmitisse em sua pureza, com a assistência do Espírito Santo. Falando do “depósito da fé”, são Paulo escrevia a Timóteo: Guarda o bom depósito, por meio do Espírito Santo que habita em nós (2 Tm 1,14).

O amor à verdade pressupõe pureza, retidão da consciência, jogar limpo. Não pretender que a Verdade se adapte aos nossos gostos, teorias, ideias e conveniências. Não colocar um filtro de “gordura” no nosso coração, que impeça a verdade de entrar ou só lhe permita chegar deformada.

Têm hoje grande vigência as palavras de são Paulo aos filipenses: Buscam os seus próprios interesses, e não os de Jesus Cristo (Fl 2,21). Mesmo aparecendo como cristãos, podam, silenciam ou maquiam a Verdade para adaptá-la à moda, ao politicamente correto, ao “gosto do consumidor”.

O coração puro abre-se à Verdade, à Palavra de Deus custodiada pelo Magistério autêntico da Igreja, como uma janela escancarada ao sol. Faz o que diz Jesus: Quem age segundo a verdade, aproxima-se da luz (Jo 3,18.21).

Quem se aproxima da luz, sente a urgência de aprofundar na fé com a inteligência – com leitura, meditação e estudo –, com o coração – tornando-se amigo de Deus – e com a vida. Assim os nossos olhos ficarão sempre fixos no Senhor (Salmo 25,15).