SALMOS: ASAS PARA FUGIR DO MAL

  1. ASAS PARA FUGIR DO MAL

Temor e tremor me invadem… Então digo: “Ah! Se eu tivesse asas como a pomba para voar em busca de descanso… Fugiria para longe (Salmo 55,6-8).

Todos nós, em momentos difíceis da nossa vida, sentimos o desejo de fugir. Às vezes, esse desejo foi bom. Outras vezes, ruim. Vamos ver – nesta e mais duas meditações – cara e coroa desse impulso de fuga.

É santo o desejo de fugir de tudo o que nos faz mal e prejudica os outros; fugir sobretudo do que nos afasta de Deus e nos leva a ofendê-lo.

Pensemos, por exemplo, em três fugas que certamente são boas:

  • Fugir das ocasiões de pecado. É o que São Pedro não fez, no início da Paixão de Jesus. Cheio de boa vontade, conseguiu entrar no átrio da casa do sumo sacerdote, onde Jesus estava detido e acorrentado e se iniciava o processo que o levaria à cruz. Queria acompanhar de perto o que iria acontecer com o Mestre.

Esqueceu-se, porém da sua fraqueza. Na Última Ceia, horas antes, havia prometido a Jesus: Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu jamais me escandalizarei (Mt  26,33). Bastou, no entanto, um primeiro embate, e caiu. Uma empregada da casa, quando o viu, disse-lhe: Também tu estavas com Jesus, o galileu. Pedro tremeu de medo (“vai ver que me denuncia, eu também vou ser preso”), e negou diante de todos: Não sei o que dizes!.

Ficou assustado, mas não se afastou da área de perigo, de maneira que, diante de mais duas interpelações recaiu, praguejando e jurando: Não conheço este homem!  O galo então cantou pela seguna vez, tal como Jesus havia anunciado, e Pedro, arrasado, saiu fora da casa e chorou amargamente (Mt 27,69-75).

Você não vê que essa passagem da vida de Pedro nos fala das nossas covardias, das nossas quedas, das traições com que negamos a nossa fé e o nosso amor?

Por que isso? Muitas vezes, simplesmente, porque não temos a coragem de fugir. Dessa coragem falam muitos santos:

«O último recurso que tenho – dizia santa Teresinha –para não ser vencida nos combates da vida é fugir… A minha última tábua de salvação é a fuga»[1].

E são Filipe Neri: «Na guerra contra a sensualidade, vencem os covardes», os que fogem da ocasião perigosa[2].

Da mesma forma, são Josemaria: «Não tenhas a covardia de ser “valente”; foge!»[3].

Quantas reincidências temos nós, por não seguir esse conselho dos santos! Difamamos e caluniamos o próximo, porque não temos coragem de sair de um grupo que só comenta intrigas e mexericos. Ou caímos porque não largamos a “balada” que sempre acaba nos levando a pecar contra a castidade e a fidelidade conjugal. Ou não damos um basta  ao vício da pornografia na internet, deletando e fugindo. Ou não sabemos segurar a língua para evitar uma discussão violenta, que pode ter consequências ruins.

  • Fugir da tentação das desculpas. Uma das fraquezas que mais amolecem o caráter e prejudicam a vida espiritual são os pretextos e as desculpas.

«Pretextos. – Nunca te faltarão para deixares de cumprir teus deveres. Que fartura de razões… sem razão! Não pares a considerá-las. – Repele-as e cumpre a tua obrigação»[4].

No capítulo 14º do Evangelho de são Lucas, há um relato de Cristo que poderíamos chamar “a parábola dos pretextos”. Fala de um homem (símbolo Deus) que deu um grande jantar e convidou a muitos… “Vinde, está tudo pronto!” Mas todos , unânimes, começaram a se desculpar. O primeiro disse: “Comprei um terreno e preciso vê-lo…; Outro lhe disse: “Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las”… Outro ainda disse: “Casei-me, e por esta razão não posso ir”.

O anfitrião, indignado, exclui-os da participação na sua mesa, símbolo da união com Deus: Eu vos digo que nenhum daqueles que haviam sido convidados provará o meu jantar” (Lc 14,16-24).

Será que nós não agimos, com demasiada frequência, como esses convidados relapsos?

Somos convidados por Deus para um encontro pessoal com ele na Eucaristia e na oração, ou ele nos pede melhorar o trabalho, ou colaborar com um serviço ao próximo, ou fazer um maior sacrifício em bem da família, ou levar a sério a formação cristã… , e fugimos, achamos desculpas, com máscara de razão e vestes esfarrapadas.

Faltam-nos asas de coragem e responsabilidade para fugir das desculpas.

  • Fugir da autossuficiência do ignorante. Só algumas palavras a respeito disso, começando por uns comentários realistas do cardeal Ratzinger. Falando do «resultado catastrófico da catequese moderna», dizia: «Sem querer condenar a ninguém, é evidente que hoje a ignorância religiosa é tremenda, é só conversar com as novas gerações (…). No posconcílio não se conseguiu, evidentemente, transmitir concretamente os conteúdos da fé cristã. Precisamos nos conscientizar de que não mais conhecemos o Cristianismo»[5].

Onde falta conteúdo, sobra conversa fiada, sobram opiniões sem fundamento, meros palpites religiosos; e, o que mais grave, falta uma “verdade” sobre a qual alicerçar a nossa fé. Daí a urgência de não nos acomodarmos na nossa ignorância religiosa, ficando assim vulneráveis ao contágio de  todos os erros, “interpretações” e confusões dominantes no ambiente.

Insisto. É preciso ter sinceridade e não andar nus – como o rei do famoso conto – imaginando que estamos vestidos. Faz-nos uma falta imensa, urgente, procurar a formação doutrinal católica que não recebemos e, portanto, não possuímos. E precisamos reconhecer que, para isso, é necessário ler, aprender, estudar constantemente, uma vez que nunca estamos suficientemente formados.

[1] Manuscrito C fol 14v-15r.

[2] Pietro Bacci, Vita de san Filippo Neri, 2,13,18

[3] Caminho, n. 132

[4] Ibidem, n. 21

[5] Dag Tessore: Bento XVI. Questões de fé, ética e pensamento na obra e Joseph Ratzinger. Ed. Claridade, São Paulo 2005, pág. 30