SALMOS: ASAS PARA NOS REFUGIARMOS

ASAS PARA NOS REFUGIARMOS

Ó Deus, tem piedade de mim, pois em ti me refugio, abrigo-me à sombra das tuas asas (Salmo 57,1). Guarda-me como a pupila dos olhos, protege-me na sombra das tuas asas (Salmo 17,8). Tu foste o meu auxílio; exulto de alegria à sombra das tuas asas (Salmo 63,8).

A expressão simbólica do refúgio sob as asas de Deus, que se repete nos Salmos, evoca a imagem tocante da ave que protege a sua ninhada, estendendo as suas asas sobre ela. O próprio Cristo a utilizou. Olhando para Jerusalém, entristecido pela resistência que muitos de seus filhos lhe tinham oposto, dizia: Jerusalém, Jerusalém… quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das suas asas, e tu não o quiseste! (Mt 23,37).

Os Salmos convidam-nos esperar em Deus, a não virar-lhe as costas como as gentes de Jerusalém: Tu, que estás sob a proteção do Altíssimo, e moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus em quem confio” (Salmo 91,1-2).

Será que nós confiamos nele assim? Uma das primeiras coisas que Jesus quis incutir no nosso coração, bem no início da sua pregação, foi a confiança total no amor com que Deus nos ama (cf. Mt 6,25-34). Jesus, até a sua última hora, falou-nos com ternura dos desvelos do Pai para conosco: O próprio Pai vos ama (Jo 16,27).

Se Deus é por nós – concluía são Paulo −, quem será contra nós?  (Rm 8,31).

As palavras de Jesus encantam mas, ao mesmo tempo, pela fragilidade da nossa fé, podem desconcertar-nos: Não vos inquieteis com a vossa vida…, Olhai as aves do Céu, não semeiam nem colhem nem guardam em celeiros. No entanto, vosso Pai celeste as alimenta…Vosso Pai celeste sabe o que precisais… Olhai como crescem os lírios do campo… Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está aí e amanhã é lançada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? (cf. Mt 6,25-34).

São afirmações tocantes, mas ao meditá-las pode surgir na alma esta pergunta: “Não será isso como um conto de fadas?”. As tribulações da vida, as dores, as perdas, os fracassos, as injustiças, os desencantos… podem levar-nos a pensar: – “Deus se esqueceu, ele não olha, ele não cuida…”.

Quando Jesus fala de que Deus Pai nos vê, nos ama e cuida − não tenhais medo, pois valeis vós mais do que muitos pássaros? (Mt  10,31) –, ele está revelando o mistério da Providência divina.  Deus é Pai e quer o nosso bem. Ele sabe que, às vezes, reagiremos como a criança que berra e esperneia quando o pai lhe proibe o joguinho eletrônico durante as horas de estudo, ou quando o leva ao hospital para uma cirurgia pesada que lhe vai salvar a vida.

São Paulo, com uma vida cheia de trabalhos e sofrimentos, compreendia bem isso e a sua confiança filial não se abalava. Veja a certeza com que vivia e nós também deveríamos viver: Deus faz concorrer todas as coisas para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). Deus (se o amamos) encaminha todas as coisas para o nosso bem: as que parecem boas e ótimas, e as que parecem más e horrorosas.

Romano Guardini comentava assim as palavras de Jesus sobre os lírios do campo e os passarinhos: «Tudo isso significa: Na vossa existência, na vossa vida, em tudo o que voz diz respeito, estais envolvidos por uma bondade infinita. Aconteça o que acontecer… tudo dirige-se para o vosso bem, pois quem governa o curso das coisas é uma atenção cheia de amor, de que vós sois o objeto»[1].

A história do Cristianismo não é um conto de fadas, é uma história cheia de tribulações. Ao mesmo tempo, é um rio incessante de alegrias humanamente inexplicáveis[2].

Se quer ver um “armazém” transbordante de alegrias, leia a história dos mártires dos primeiros séculos, que iam aos leões do circo romano rezando e cantando; ou a da plêiade dos santos e santas de todas as épocas que foram perseguidos, encarcerados, torturados, incompreendidos, e mantiveram a paz no meio do sofrimento, felizes e serenos porque ninguém lhes podia roubar seu maior tesouro, o amor a Deus, o amor ao próximo, até mesmo o amor aos seus algozes.

Você conhece, por exemplo, a história de Santa Rita de Cássia? E a de São Thomas More, chanceler da Inglaterra e mártir? E, nos nossos dias, a de santa Edith Stein, morta na câmara de gás de Auschwitz? Ou a da ex-escrava sudanesa Josefina Bakhita, em cujo pobre corpo não sobrava mais lugar para cicatrizes? Ou a do arcebispo vietnamita François Xavier Nguyen van Thuân, treze anos preso, isolado e maltratado pelos comunistas? Ou a do Padre Pio? E, mais recentemente, a dos cristãos egípcios  degolados na Líbia pelo exército islâmico? Ou a dos trapistas do mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, decapitados por fanáticos na Argélia? … Leia a biografia de alguns deles. Seja qual for, em todas elas encontrará, no meio de sofrimentos que nós jamais desejaríamos, uma paz e uma alegria que talvez não tenhamos experimentado nunca.

Também milhares de outros santos e santas de vida simples, pessoas comuns, que, como todos nós, conjugaram satisfações e sofrimentos na rotina cotidiana, nos falariam de sua feliz segurança interior. Se escutasse sua oração, ouviria: Senhor, tu foste o meu auxílio; exulto de alegria à sombra das tuas asas (Salmo 63,8).

Sim. Aquele que vive sob a proteção das asas divinas, tem a experiência de que sofrer com Deus pode ser, às vezes, heroico; mas sofrer sem Deus é horrível.

Por isso, vale a pena acreditar em são Pedro que, na época das grandes perseguições e martírios, escrevia, com toda a paz: Descarregai em Deus a vossa preocupação, pois ele é quem cuida de vós (1 Pd 5, 7).

Tu que estás sob a proteção do Altíssimo e moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, em quem confio” (Salmo 91,1-2).

Texto do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

[1] O Deus vivo, Ed. Aster, Lisboa, pág. 27

[2] Ver F.F. As verdadeiras alegrias, Ed. Quadrante, 2016