SALMOS: COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS

 

SOU COMO UMA CORUJA ENTRE RUÍNAS

         ─ Inclina para mim o teu ouvido; quando te invoco atende-me depressa. Pois meus dias se dissipam como fumaça… Pareço um pelicano no deserto, sou como uma coruja entre ruínas (Salmo  102, 3-4.7)

Conversava há pouco com um amigo sobre a triste estatística de suicídios de adolescentes e jovens, que cresce de ano para ano.

Veio-me então à memória o caso de uma menina de 16 anos, morta após despencar de um dos últimos andares de um prédio, onde uma turma de colegas consumia drogas. Era agosto de 1990. Recortei e conservo uma reportagem da Folha de São Paulo, que reproduz umas linhas escritas pela pobre criatura pouco antes de morrer, como um desabafo. Transcrevo uns trechos:

«Em 1º lugar, eu queria viver, mas eu vivo o problema não é esse. O problema é ter que viver para quê? Ou para quem? Eu quero encontrar algo que me faça querer viver eternamente… Me sinto às vezes tão vazia, que quero botar tudo para fora mas não consigo».

Naquela conversa com o amigo, falamos desse vazio. Quanta gente jovem cresce hoje sem ideais, sem fé, sem valores. Não sabem encontrar um sentido para a vida. Então, como a menina, se apegam a algo, a alguém, até que percebem que “não é isso o que meu coração procura”. Tudo volta então ao mesmo vazio, e aumenta a vertigem interior. A menina sentia isso, e escreveu, literalmente: «Por quê será que eu fico com raiva dos meninos que eu fico?».

Penso que as imagens do salmo que encabeçam esta meditação podem nos dar alguma luz.

  • Pareço um pelicano no deserto. Não sei se teve oportunidade de assistir a uma reportagem televisiva muito interessante sobre o deserto da Namíbia, no sudoeste da África. A desolação quase total do deserto, ao chegar a época das chuvas, transforma-se em uma paisagem de vegetação florescente, com riachos, lagoas e lagos, que atraem numerosa população animal.

A reportagem mostrava uma das lagoas em que os peixes resurgiam com as chuvas. Estava repleto de pelicanos que até ali migravam na época da reprodução. Pouco depois, porém, vinha de novo, rapidamente, a seca. As aves fugiam, dirigindo-se para outras latitudes, mas alguns filhotes retardatários, que haviam  ficado na lagoa já seca definhavam tristemente e morriam.

Um pelicano no deserto, se não achar a rota salvadora de outras águas, é um condenado a morte na solidão e no ardor implacável do sol.

Não acha que essa é uma imagem muito expressiva da juventude sem rumo e, em geral, do ser humano sem norte nem sentido para a vida?

Nos Irmãos Karamázovi, Dostoiévski escreve: «A essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para alguma coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se»[1].

Assim andava, sem rumo, André Frossard, filho do primeiro secretário-geral  do Partido Comunista francês, até que Cristo, inopinadamente, o “apanhou”. «Eu não tinha identidade – escreveu –. Deus foi o primeiro a dar-me um nome, assim como no íntimo te chama a ti que me lês e que, grande ou pequeno, célebre ou humilde, só és conhecido por Ele»[2].

Só Deus pode nos mostrar o rumo que salva do deserto. Só ele pode nos dar um nome novo (Ap 2,17), e derramar na nossa alma as águas vivas da graça do Espírito Santo, que saltam até a vida eterna (Jo 4,14). E,com elas, a paz e a alegria (Gl 5,22).

  • Sou como uma coruja entre ruínas. No Velho Mundo é frequente ver corujas aninhadas em velhas ruínas de cidades ou de construções antiquíssimas.

A coruja é ave noturna, inimiga da luz. Na luz, seus olhos abertos pouco enxergam. À noite percebem muito bem as lagartixas, ratinhos e outros bichos de que se alimentam.

A nossa vida tem finalidade, mas é preciso ter olhos para vê-la. Cada ser humano veio ao mundo para ser protagonista de um programa divino. Deus não nos lançou à toa no mundo, tem um projeto para cada um de nós, que nos vai dando a conhecer de muitos modos com a sua graça. Depende da nossa liberdade aceitá-lo, dizendo “sim” a cada apelo divino, ou recusá-lo, e mergulhar na noite de um labirinto sem guia. Então será lógico que sintamos como o protagonista de outro salmo: Sou como os que dormem nos sepulcros (Salmo 88,6).

Impressiona ler o que escreveu sobre Deus, numas páginas autobiográficas, Simone de Beauvoir: «Deus? Uma noite, eu o apaguei». Não será por isso que a sua vida, como a de seu companheiro Jean-Paul Sartre, se transformou em La Nausée?

Quando nos sentirmos perdidos e solitários, como cegos rodeados de ruínas, temos de pedir a Deus que nos ajude a fazer um duplo tratamento espiritual:

─ Por um lado, um tratamento oftalmológico. Cuidar das vistas da alma. Pedir a Jesus, como o cego Bartimeu: Senhor, que eu veja! (Lc 18,41). Ou como os apóstolos: Aumenta-nos a fé (Lc 17,5). E, ao mesmo tempo, esforçar-nos por conhecer a fundo, cada vez melhor, o “desconhecido” de muitos cristãos: Jesus, o Cristo, a Luz verdadeira que, vindo ao mundo, ilumina todo homem (Jo 1,9).

─ Por outro, um tratamento cardíaco. Abrir-nos aos poucos ao Amor, que é Deus, porque sem amor nada se entende. Eu vos chamei amigos, dizia Jesus antes de dar a vida por nós (Jo 15,15). Ele no ama e nos oferece a sua amizade. E nós? Às vezes, parece que perambulamos estonteados no meio de ruínas. Só o coração disposto a amar a Cristo e a ganhar intimidade com ele – na oração, na Eucaristia, no próximo necessitado com quem ele se identifica – é que nos pode tirar dos escombros e iluminar a existência, até os menores dos nossos atos.

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

[1] Os Irmãos Karamázovi, Liv. José Olympio, Rio de Janeiro 1955, vol. III, pág. 491

 

[2] Há um outro mundo, Ed. Quadrante 2003, p.13