OS SALMOS: COM DEUS SALTO O MURO

 

UNIDO AO MEU DEUS SALTAREI O MURO

─ Eu te amo, Senhor, minha força… Contigo sinto-me forte para o ataque, com o meu Deus venço qualquer barreira (Salmo 18,1.30)

Na Nova Vulgata, versão oficial latina dos Salmos, que buscou a plena fidelidade ao original hebraico, lemos: in Deo meo transiliam murum, literalmente: “Unido ao meu Deus, saltarei o muro”.

Este verso do Salmo fez-me lembrar a reportagem de uma reunião de são Josemaria Escrivá com jovens, em outubro de 1972, no centro esportivo BRAFA de Barcelona. São Josemaria comentou aos assistentes algo que tinha visto recentemente nos resumos diários da tv italiana sobre os Jogos Olímpicos daquele ano.

Referiu-se a cenas de saltos com vara. Descrevia, expressivamente, como o atleta olhava para o objetivo que tinha de ultrapassar (o sarrafo colocado entre 5 e 6 metros de altura), lembrava como se aproximava correndo com a vara, tentava e não conseguia. Voltava a tentar de novo, e nada! Mas “não perdia o humor”, dizia. Com os olhos abaixados, deixava os músculos relaxarem, meditava sobre aqueles fracassos e voltava a tentar. E, na terceira ou quarta vez, “podia”, superava a meta.

Tomou ocasião disso para explicar como deveria ser a luta espiritual do cristão atrás da meta do Amor a Deus e ao próximo, da santidade, sabendo que será preciso superar obstáculos e saltar barreiras. «Vocês e eu, dizia-lhes, para saltar e vencer, temos a graça de Deus (a “vara”) e a proteção de Santa Maria. De maneira que podemos! Mas lutando».

Quase tudo, nas imagens dos Jogos, era referência válida: primeiro o desejo firme do atleta de conseguir; depois, seu empenho total (na olimpíada não se brinca); a seguir, a esperança que devia manter para não abandonar; e ainda a perseverança no esforço, repetido uma e outra vez, sem desistir por causa dos fracassos.

Quantas vezes o mesmo santo usou dessas comparações com o esporte e o atletismo para falar das coisas espirituais, como são Paulo fazia (p.e 1 Cor  9,24-27; Fl 3,12-14):

«A luta ascética [a luta espiritual cristã] – dizia – não é algo de negativo nem, portanto, odioso, mas afirmação alegre. É um esporte. – O bom esportista não luta para alcançar uma só vitória, e à primeira tentativa. Prepara-se, treina durante muito tempo, com confiança e serenidade: tenta uma vez e outra e, ainda que a princípio não triunfe, insiste tenazmente, até ultrapassar o obstáculo» [1].

Pode nos ajudar agora lembrar três qualidades que deve cultivar o bom atleta de Cristo (cf. 2 Tm 2,3.5).

  1. Fortaleza. Para não se deixar vencer pelo cansaço nem pelo desânimo. A nossa fortaleza vem de Deus – porque tu és, Deus, a minha fortaleza (Salmo 43,2) –, e isso exige:

– Primeiro: mais fé. “Com o meu Deus venço qualquer barreira”. Uma fé que, na vida espiritual, se manifesta especialmente pela oração. «Faz o que possas – escreve santo Agostinho –, pede o que não possas, e Deus te dará o necessário para que possas»[2].

É sabido que santo Agostinho teve que orar e lutar muito para alcançar a virtude da castidade. Baseando-se na sua experiência pessoal, afirmava: «Ninguém pode ser casto, se Deus não lho concede».

Em todas as nossas lutas por melhorar – seja qual for a virtude –, acontece o que sucedeu a Pedro naquela ocasião em que se afundava, ao tentar caminhar sobre o mar. Cheio de medo, pediu socorro e Jesus estendeu- lhe a mão. Segurando-o disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mt 14,25-31). Pedro tentou. Ao ver que não conseguia, orou – salva-me! –,  e Jesus o ajudou a conseguir o impossível.

– Ao lado da fé, é preciso vencer a moleza. A preguiça é o primeiro inimigo a ser derrotado. Os atletas sabem muito bem que – por mais que lhes ofereçam uma magnífica vara –nunca chegarão a saltar se não aceitam os sacrifícios necessários para se prepararem (o treinamento exigente, a alimentação disciplinada, o descanso devido, a supressão de bebidas e excessos).

Você “quer” mesmo amadurecer na vida cristã? Então peça a Deus a graça e decida-se a fazer os sacrifícios, pequenos e menos pequenos, que são necessários para alcançar a meta: sofrear a língua, dominar a curiosidade e a gula, sobrepor-se ao mau humor (a “avó atrás do toco”, diria um mineiro); refrear a sensualidade; definir um horário bem concreto para cada dia; praticar mortificações e penitências, que libertem da tirania dos vícios (a perda de tempo com o celular e as redes sociais!), e levem ao autodomínio. [3].

  1. Humildade. Precisamos ter, como os bons atletas, a humildade de recomeçar, de tentar sempre de novo, sem permitir que o amor-próprio nos afunde no complexo de fracasso e nos leve a desistir. Não duvide de que é a soberba, o orgulho, o que nos torna pessimistas, “derrotados prévios”, antes de termos feito o que devíamos fazer. A soberba, perante as falhas, não aguenta ver a “imagem pessoal” prejudicada. Então, larga a “vara”.

Por isso, dá muita paz ouvir um santo dizer: «O cristão não é nenhum colecionador maníaco de uma folha de serviços imaculada»[4]. E acrescentar: «Santo não é o que não cai, mas o que se levanta sempre, com humildade e com santa teimosia»[5].

Quando falhamos e logo depois pedimos perdão a Deus e, se preciso, nos confessamos; quando, movidos pelo amor, além de pedir perdão, nos esforçamos por levantar-nos quanto antes e fazer algo para reparar o erro cometido, então podemos ter a certeza de que não só não fracassamos, como avançamos e ficamos mais perto da vitória.

  1. Perseverança criativa. A perseverança não é continuidade rotineira: deve ser criativa. Após o ato falho (que muitas vezes será um pecado), temos que perguntar-nos: “Que devo fazer, não apenas para evitar reincidir, mas para avançar positivamente, para subir mais um degrau na virtude que agora fraquejou?”

Fazendo essa reflexão com sinceridade, conseguiremos descobrir passos concretos a dar, e seremos “criativos”. Por exemplo:

– Devo afastar-me daquele ambiente, não volto mais ali;

– Devo começar logo o trabalho diário (oferecendo-o a Deus) sem perder tempo com papos inúteis entre colegas;

– Devo acordar meia hora antes, para não deixar de fazer a oração e uma leitura espiritual;

– Devo mortificar a curiosidade (não vou olhar os whatsapp até tal hora, depois de ter cumprido tal dever; vou bloquear ou deletar na hora todo tipo de inutilidades, mexericos e pornografia);

– Vou pedir ajuda a Nossa Senhora mal desponte uma nova tentação;

– Vou me decidir a ter uma direção espiritual regular.

Em suma, “salta o muro”, como diz o Salmo, aquele que é fiel na luta, anda que pareça avançar pouco. Salta o muro aquele que não abandona o barco apesar dos perigos de naufrágio. Salta o muro quem persevera em lutar para fazer o que Deus lhe pede, mesmo que não veja resultados. Agindo assim, com ou sem resultados imediatos, Deus lhe dirá: –Você obteve o melhor “resultado”: soube amar, ser fiel. Por isso, mesmo falhando, venceu a prova.

Do nosso livro O espelho dos Salmos, Quadrante 2019

[1] Forja, n. 169

[2] De natura et gratia, 43,50

[3]  F.F. Autodomínio-Elogio da temperança, Quadrante 2004

[4]  S, Josemaria, É Cristo que passa, n. 75

[5] Idem, Amigos de Deus, n. 131